Com um bom vinho podem juntar-se muitas pessoas diferentes com esse gosto em comum. O mundo vitícola pode ter França, Itália e claro Portugal como destaques, entre outros, mas é algo global como se viu esta semana na Wine Summit. No Centro de Congressos do Estoril juntaram-se americanos, franceses, chineses e da Argentina veio uma das melhores sommeliers. Durante três dias foram discutidos diversos temas, mas o DN foi conhecer melhor alguns dos intervenientes e perceber como nasce esta paixão e o que pensam do vinho português pessoas de áreas tão distintas como do marketing digital ou da cortiça..Quando se fala de vinhos portugueses, o Porto é o primeiro a ser referido, mas parece já partilha grande parte da sua fama com o vinho da Madeira. Uns sabem mais do que outros, contudo, esta viagem a Portugal teve o condão de gerar maior curiosidade e até há quem pense em explorar mais as regiões vitícolas portuguesas..E se ninguém dúvida que os vinhos portugueses estão entre os melhores, ficam alguns conselhos para melhor os promover em mercados distantes como o americano e o chinês..Stephen Li, o educador por excelência.Na China vivem-se tempos de mudança relativamente ao vinho. Stephen Li dedica a sua vida à educação do negócio vitícola. Criou a sua escola, que no último ano letivo contou com mais de mil estudantes. Sorri quando é questionado sobre a qualidade dos vinhos chineses, destacando que há um longo caminho a percorrer no país. "Alguns vinhos chineses são bons. Podem saber bem, mas não são naturais porque os viticultores não têm a filosofia de fazer bons vinhos", referiu..O especialista explica que muito do vinho vendido na China é estrangeiro e que a produção chinesa é misturada com o "sumo" que é comprado noutros países. Porém, este amante de vinho, de 38 anos, não tem dúvidas: "Temos potencial para ter um um bom vinho. Há investimento em certas regiões, tanto do governo como de empresas.".O interesse dos chineses pelo vinho é relativamente recente, segundo Li, que explicou que a adoção da cultura ocidental está a abrir portas a este mercado. No entanto, por haver um forte interesse do que vem do ocidente, há também tendência para se procurar os vinhos de fora e não o chinês. "Mais de 35% do vinho que temos é francês. Temos também australiano, chileno, espanhol e italiano", contou. E o português? "Gosto muito do Porto e na China também há quem goste." Ainda assim, é o vinho francês e o australiano que tem mais exposição, pelo que Stephen Li lançou o repto a uma melhor promoção do vinho português na China..Nicholas Oakes, referência do marketing digital.Quando se nasce numa terra chamada Cognac parece quase impossível não se vir a gostar do mundo vitícola. Foi o próprio Nicholas Oakes quem brincou com a situação: "Foi algo natural!" Realçou que, tal como em Portugal, o vinho faz parte da cultura francesa e apesar de ter optado inicialmente por estudar línguas, acabou por mudar de ideias. Mas foi longe da terra natal que deu os primeiros passos numa carreira que aos 34 anos o colocam como uma referência do marketing e publicidade digital, sendo o responsável dessa área no Wine Searcher. O site é quase uma paragem obrigatória para quem procura vinhos e quer saber quanto terá de pagar por eles (www.wine-searcher.com). Com 4,7 milhões de visitas por mês, o site que começou em 1999 é um sucesso..Depois de quatro anos na Austrália, onde trabalhou numa loja de vinhos e antes numa vinha, o visto expirou e Oakes rumou para a Nova Zelândia e por coincidência soube de uma vaga no Wine Searcher. "Achei que era um sítio excelente para trabalhar. Comecei primeiro na recolha de dados e mais tarde fiquei a liderar o departamento de marketing. Estou lá há cinco anos.".Tem 34 e entretanto deixou a sede para organizar um escritório no sul de França, mas... "acho que estou a apaixonar-me por Cascais!" A conversa muda para os vinhos portugueses e Oakes não podia ser mais sincero: "Tenho vergonha de estar em Portugal e não conhecer bem. Sou um amador!" Foge há regra da maioria dos presentes no Wine Summit, mas Oakes não quer ser um amador quanto a vinhos portugueses durante muito tempo. "Estou a ter a oportunidade de provar e os vinhos são fantásticos. Tenho de cá voltar." Admitiu que não iria embora sem provar um Porto e o vinho da Madeira: "São uma espécie de mito para mim.".Sendo um especialista de marketing e publicidade digital, Oakes deixou bem claro que os produtores têm de se adaptar aos tempos. E deu uns conselhos: "Os utilizadores recorrem cada vez mais aos telemóveis, por isso, os produtores têm de ter sites bons para essa plataforma. E depois há as redes sociais e que permitem que quem não tenha orçamento para contratar alguém, possa ele próprio contar a sua história, da região, dizer porque o seu vinho é diferente. As pessoas querem saber esses pormenores.".Paz Levinson, da literatura a sommelier.Vive em Paris, onde tem um restaurante, mas tudo começou na sua Argentina. Paz Levinson nasceu na Patagónia e mal sabia que ao inscrever-se no curso de literatura ia acabar como uma especialista de vinhos. Hoje fala com um enorme entusiasmo sobre o que faz. "Trabalhei num restaurante para pagar os estudos e foi lá que encontrei essa paixão", contou. Nunca pensou ser sommelier, mas o gosto foi crescendo e foi sendo desafiada pelo sommelier do restaurante onde trabalhava: "Eu adoro estudar, aprender, pelo que é perfeito, pois estamos sempre a aprender, temos de estar sempre atentos aos desenvolvimentos recentes, estudar as origens... Encontrei uma profissão que me assenta bem.".Aos 38 anos é uma respeitada sommelier, tendo sido por duas vezes nomeada a melhor na Argentina e uma vez das Américas. Mas afinal como se alcança este estatuto? "É provar, provar, provar! Há que dispender muito tempo para sermos bons e ir melhorando. No final é o cliente que tem o melhor serviço porque também nos tornarmos em especialistas melhores", salientou. Confessou que é de facto ainda um mundo de homens: "Num concurso, em 60 participantes só quatro eram mulheres." No entanto, disse que não considera que tenha sido mais difícil para ela chegar tão longe por ser mulher..É uma apaixonada por vinhos portugueses e claro que o Porto e o vinho da Madeira são presenças garantidas no seu restaurante, tal como os vinhos do Douro e da Bairrada. Apesar de estar em Paris, revelou não se sentir pressionada em recomendar os vinhos franceses: "Recomendo muito os vinhos portugueses. Eu gosto quando os vinhos mostram as suas origens.".Miguel Cabral, quando a cortiça é uma referência.O vinho português é bom, como se pode confirmar ainda mais pelos comentários dos especialistas referidos, contudo tem uma forte concorrência de outros países. Já no que diz respeito à cortiça, a portuguesa é mesmo a referência. Estados Unidos, Itália, França, Espanha, Alemanha, África do Sul, Chile, Argentina... em qualquer destes países (e não só) é muito provável encontrar-se cortiça made in Portugal, com a Amorim & Irmãos em destaque. Professor na Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto, Miguel Cabral (56 anos) é o responsável pelo Departamento de Investigação e Desenvolvimento nessa empresa..Desde 1999 que abraçou a cortiça e a sua especialidade são as rolhas. "São segmentadas pelos vinhos nos quais são aplicadas. Há rolhas para vinhos de curto estágio em garrafas e para longo estágio, há as de champanhe..." A variedade é grande, a exigência enorme: "95 ou 97 por cento do que produzimos na Amorim & Irmãos é exportado. Nós somos de facto o país do mundo com maior produção de cortiça, mas Espanha, Itália e no norte de África também há produção", explicou Miguel Cabral..E que não existam dúvidas que uma boa rolha faz toda a diferença: "Uma rolha de qualidade vai contribuir para o envelhecimento balanceado do vinho. Uma rolha de má qualidade vai permitir a aceleração desse envelhecimento, contribuindo para a não potenciação de todas as características do vinho.".Eric Asimov, o crítico do New York Times.Uma boa ou má crítica pode fazer toda a diferença e quando se fala do New York Times ninguém quer ter uma má. Eric Asimov é uma autoridade nesta área, sendo também autor de alguns populares livros. Mas afinal, como é que alguém se torna crítico de vinhos de um dos jornais mais importantes? "Pergunta difícil de responder... Certamente que não tinha intenções de o ser, mas sempre tive um fascínio pela comida e pelo vinho", contou. Asimov começou no jornal como jornalista no Nacional, mas a sua paixão pela comida vê-lo escrever sobre esse tema e conseguiu mudar para essa secção. Quando o crítico de vinhos reformou-se, Asimov foi convidado a substituí-lo..Já são mais de 30 anos na área, seja como crítico ou a escrever sobre os vinhos e Asimov, de 59 anos, salientou: "Sei exatamente como começou esta paixão." É preciso recuar aos anos 70 quando o viajou pela primeira vez à Europa com os pais. Em Paris diz que foi exposto pela primeira vez a uma comida com "sabores tão vivos, vibrantes, deliciosos e puros". Nos EUA recorda como os enlatados, comida instantânea ou de pacote ainda eram o normal. "Fiquei muito interessado em comida e como vi frequentemente como o vinho fazia parte da experiência com comida, interessei-me também pelo vinho", referiu..Como crítico já sabe que nem sempre vai agradar a todos. "Obviamente que as pessoas discordam de mim. Acontece muito. Por vezes as coisas tornam-se pessoais e as pessoas são más e disso não gosto." No entanto, admitiu que nunca teve grandes problemas, principalmente quando comparado com quando foi crítico de restaurantes: "Cheguei a receber ameaças de morte.".Mas vamos lá às críticas do vinho português e desde logo o vinho da Madeira é elogiado, com Asimov a dizer que o adora. "Portugal tem o benefício de ter uma variedade distinta de uvas, tem vinhos tradicionais", afirmou. Relembrou como a certa altura os produtores tentaram "adotar um estilo internacional", mas que foi uma tendência que foi revertida. "É uma direção inteligente." E é essa identidade que Asimov gostaria de ver ser mais promovida nos EUA. "Acho que a primeira impressão de Portugal é o Porto, mas também as uvas do vinho tinto do Porto. Precisamos de explorar melhor o vinho branco." E fica mais um conselho de um especialista, agora para o mercado americano: "Há poucos restaurantes portugueses. O vinho vem muitas vezes com a comida. Nos anos 90 e no início do século houve uma explosão de restaurantes italianos, com comida específica de determinadas regiões, o que lhes permite apresentarem os vinhos deles. Gostava de ver o mesmo acontecer com Portugal."