Varredor de bicicletas

Já lhe chamaram velho mas não se importou. A verdade é que os ciclistas temem-no e o povo adora-o. Joaquim Ezequiel, 30 voltas a Portugal a passo de caracol.
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É o mais carismático elemento da caravana da Volta a Portugal em Bicicleta e, talvez, o mais estimado. No pelotão não lhe faltam amigos, granjeados em 30 anos de voltas ao País profundo, mas nenhum ciclista quer a sua boleia. Pudera! Aos 75 anos, Joaquim Ezequiel conduz o carro-vassoura, um espaçoso furgão com lugar para nove corredores. Ezequiel é o mais antigo da caravana e o último a chegar ao final de cada etapa. Cabe-lhe transportar os ciclistas que desistem. À chegada à etapa de Viseu, estava feliz da vida: a carrinha vinha vazia. "Se pudesse, não transportava ninguém", diz o varredor da Volta.

Hoje como ontem, o carro-vassoura "é uma atracção da Volta e sempre muito aplaudido". A encimar o veículo, deixou de estar a singela vassoura e hoje tem pendurado o boneco de um ciclista montado na dita. Uma quase bruxa a pedir aos ciclistas para pedalarem e não se deixarem apanhar pela vassoura.

Joaquim Ezequiel, nascido em Azeitão, despontou para o ciclismo na década de 70, e entrou por gosto. Primeiro na caravana publicitária. Em 1980, conduziu pela primeira vez um carro-vassoura convidado pela federação. A carrinha era a sua, mas Mário Ferreira, à época presidente da Federação Portuguesa de Ciclismo, convidou-o para "varrer as estradas" e pagou a despesa. Foi no Grande Prémio Lisboa Porto. Até hoje. Hoje é o mais antigo da caravana, onde "todos são amigos". Tem preferências, não torce por ninguém, mas bate palmas aos vencedores.

As etapas de Ezequiel não variam. "Sempre devagar e terminar na confusão do final." Ao contrário dos outros veículos da caravana, "o vassoura tem que cortar a meta e já houve grandes confusões. Seguimos na cauda com todo o trânsito à nossa frente." "Noutros tempos, quando os atrasos dos corredores eram maiores, tínhamos grandes dificuldades." Actualmente, "a GNR segue ao lado, e dão um apoio extraordinário. Sempre via aberta para não perder o último ciclista de vista." Mas a tecnologia agora também ajuda. "Ao longo do percurso, vou sintonizado na rádio volta, o sistema de rádio interno que dá indicações sobre o andamento do pelotão, e a controlar os atrasados." Atrasos relativos. "Quando é grande, mais de 15 minutos e estamos a dez quilómetros da meta já o posso levar comigo".

Recorda uma etapa entre Felgueiras e Fafe, em que transportou meia dúzia de ciclistas no seu furgão "com lugar para nove passageiros e muito espaço para os rapazes". Não chegou animado.

Já quando ouviu "o velho ainda aqui anda!" há uns anos, a cruzar Entre-os-Rios, seguiu viagem na toada de sempre. O "velho" não o tomou como vitupério e continuou a conduzir. Passaram anos e "é o mesmo velho", diz divertido. "Eu não me importo e bato palmas porque o ciclismo é uma festa, e se as pessoas me reconhecem é porque também são entusiastas. A verdade é que ninguém arreda pé enquanto o carro-vassoura não passa", diz confiante.

"Duas semanas na estrada quase sempre a passo de caracol." Voltas pelo País profundo que "mostram que Portugal é bonito". E os percursos? "Mudam com os anos, mas há um que é especial", desabafa. "Entre Sintra e Lisboa o povo vibra de modo diferente", atira. "Na Estremadura é sempre a deslizar. Ganhamos balanço", diz. Em Azeitão, fica a família, incluindo "Diogo, o neto", de quem mata saudades "pelo telefone".

Apesar da toada lenta que lhe permite ver tudo com muita calma, Ezequiel lá confessa que não gosta muito de ser o último a cortar a meta. "Ninguém gosta de ser o último e tenho pena dos ciclistas que também o são." Já do movimento gosta. "Sobretudo do povo que à beira da estrada espera, às vezes horas, pelo pelotão. Apesar de aqueles que se alinham à beira do asfalto a torcer pelos ciclistas serem cada vez menos. Uma redução "sentida desde que os grandes clubes de futebol abandonaram a modalidade".

Para o homem-vassoura, o "ciclismo, é um desporto especial e a caravana é uma verdadeira família". Família da qual guarda "uma boa imagem, incluindo dos ciclistas que já cá não estão". Com 75 anos e "moído por algumas maleitas", que o obrigaram a deixar uma volta por fazer, não pensa desistir. "Não vou chorar, mas tenho tido alguns problemas que tenho conseguido resolver. Se a organização me cá quiser, vou continuar no activo", garante. No domingo chega a Lisboa. Deixa meio País varrido depois de onze dias na estrada.

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