valter hugo mãe: o escritor também canta no Governo

Além de autor das letras, o poeta valter hugo mãe é vocalista do Governo, um novo grupo que integra ainda os músicos António Rafael, Miguel Pedro e Henriques Fernandes. O primeiro tema aparece na colectânea 'Novos Talentos Fnac 2009' .<br />
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Assustado mas ao mesmo tempo entusiasmado. Empenhado mas sem grandes pretensões. É com um enorme sentido de humor que o escritor valter hugo mãe fala da sua estreia como cantor. O poeta e romancista, autor de O remorso de baltazar serapião e vencedor, em 2007, do Prémio José Saramago, é, aos 37 anos, vocalista do recém- -nascido grupo Governo, cujo primeiro tema, Meio bicho e fogo, integra a colectânea Novos Talentos Fnac 2009.

Como é que tudo começou? Há dois anos, a pintora Isabel Lhano convidou-o a participar numa performance, em Braga. "Poderia ser qualquer coisa." Ele lembrou-se de cantar. E não fez a coisa por menos. "Com grande lata", interpretou temas de Nina Simone, Madredeus e Marisa Monte. A experiência correu bem. António Rafael, músico dos Mão Morta, assistiu e fez questão de ir ter com ele no final: "Quero gravar uma coisa contigo, quero usar a tua voz", disse-lhe.

"Para mim foi extraordinário. Eu estou habituado a ter os Mão Morta como ídolos meus e de repente eles estavam ali a querer trabalhar comigo", lembra valter hugo mãe. Além de António Rafael, o grupo integra outro elemento dos Mão Morta, Miguel Pedro, e ainda Henriques Fernandes dos Mécanosphère. No ano passado, a convite do Teatro do Campo Alegre, fizeram uma primeira apresentação do projecto e, agora, prepararam o lançamento do primeiro EP, intitulado Propaganda Sentimental, que reúne cinco temas e será editado pela Optimus Discos em Setembro. O álbum só será lançado em 2010, pela Cobra Discos.

Tiveram para se chamar Cabesssa Lacrau, mas depois o grupo achou que "as possibilidades jocosas do nome Governo eram muito grandes". Este é, brinca o vocalista, "um Governo profundamente benigno e em quem as pessoas podem votar com confiança".

Acima de tudo, está a divertir- -se. "Escrever canções é fabuloso", conta o autor que já tinha escrito as letras para álbum Geração Matilha dos Mundo Cão. Quando começa a ouvir as músicas, "em pouquíssimo tempo a letra aparece" e nascem canções, quase sempre com uma "tonalidade sentimental", com "um certo romantismo, nem sempre luminoso". E, neste caso, valter hugo mãe não só escreveu os poemas como os interpreta. "A minha experiência de cantor tem tudo a ver com a acústica dos azulejos da casa de banho", conta. "Tem sido incrível ouvir-me a sério e explorar a voz. Não tinha noção de que a minha voz pudesse ser tão forte ou ter esta amplitude."

Como cantor, confessa, tem evoluído bastante. "A primeira vez estava a tremer, muito intimidado." Mas, a pouco e pouco, está cada vez mais entusiasmado com a hipótese de se apresentar ao vivo. "É assustador mas ao mesmo tempo entusiasma-me poder mostrar estas canções às pessoas." Apesar de tudo, valter hugo mãe não se vê como cantor. "Eu sou um escritor. Eu escrevo", diz, sem hesitar. "Cantar é só quando o Governo se reúne. Os ministros também têm todos as suas profissões."

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