Numa pequena loja de artigos religiosos, na Rua Francisco Marto, os pequenos ursos com asas surgem em destaque pendurados à porta de um estabelecimento. Por apenas dez euros, o peluche parece revelar-se o caminho certo para a oração..Mesmo em tempos de crise, o boneco "tem vendido muito bem", diz à agência Lusa Maria do Carmo, funcionária há dez anos da loja Maria Alice.. "As pessoas acham-lhe muita graça, até as estrangeiras que, mesmo não sabendo português, o compram porque acham parecido com o que rezaram no Santuário", conta..No entanto, encontrar os ursinhos em Fátima pode transformar-se numa verdadeira "cruzada". São poucos os que o vendem e menos ainda os que querem falar sobre o último "grito" de vendas.."A Renascença, às seis da tarde, é que ensina a rezar. Isso não é tarefa para um macaco", atira um lojista que se recusa a vender na sua loja o peluche que reza o Pai Nosso com sotaque brasileiro..Na Loja Santo André, os peluches estão expostos numa estante montada na rua, mas o proprietário do estabelecimento comercial não quer falar sobre o brinquedo, insistindo em chamar a atenção para as estátuas da Nossa Senhora de Fátima, que podem ultrapassar os 2.500 euros.."Foram feitas pela mesma pessoa que restaurou a imagem do santuário", afirma..Sobre o peluche que tem na loja, o proprietário considera que "está mal feito".."Não gosto disto. Ainda por cima fala em brasileiro", conclui, dando por terminada a conversa..Rosa Silva, recepcionista de um hotel, partilha da mesma opinião e diz que "as pessoas não acham muita piada. Dizem que se fosse um anjinho a rezar ainda compravam, agora um cão..."..Para Ilda Oliveira, 52 anos, proprietária de uma loja mesmo ao lado do Santuário de Fátima, o uso de algo sagrado num boneco que pode ser atirado para o chão e sujo com facilidade, merece censura.."Acho graça ao ursinho, mas não deviam misturar as coisas: pôr o Avé Maria no ursinho e depois uma criança brinca com ele, dá saltos, atira fora, suja-o", critica a lojista, confessando que o brinquedo é um dos temas quentes de conversa entre as colegas das lojas vizinhas.."Nós respeitamos muito o que tem a ver mais com o sagrado e cada coisa tem o seu lugar próprio", conclui..Mas, nas ruas, as opiniões dos peregrinos com quem a Lusa falou são diferentes. Vestidas de negro, as sexagenárias Maria Emília e Maria Rosa Rodrigues acham um "bom presente para as crianças".."Embora tenha umas asinhas de anjo, ele é um ursinho! É um brinquedo bonito", diz Maria Emília, corroborada pela amiga de Caminha..Maria do Carmo lembra ainda que com o urso as crianças "vão aprendendo a pouco e pouco" o Pai Nosso, sem ser "preciso estar a impingir para que rezem".