No dia 25 de Março celebrou-se o 60º aniversário da assinatura do Tratado de Roma, considerado como a base para a unidade da Europa. De acordo com as palavras de Donald Tusk, foi há 60 anos que, em Roma, se tomou a decisão de construir uma unidade da Europa como forma de prevenir mais catástrofes. Estas eram, essencialmente, de dois tipos - uma de índole jihadista, desde o séc. XI ao séc. IXX; outra, a guerra económica, presente desde o séc. IXX..I - A ideia de uma unidade europeia já havia sido apresentada e discutida muitos séculos antes. No séc. XI, o Papa Urbano II apresentou, em Roma, a ideia de unidade de todos os cristãos, incluindo os bizantinos. Depois disto, no séc. XIII, Alberto Magno, Bispo de Regensburg, sugeriu uma federação dos governantes cristãos, para evitar confrontos entre os estados, unindo esforços para combater o jihadismo islâmico. A mesma ideia foi retomada pelo Papa Leão X, quando, em 1517, reuniu os representantes dos estados cristãos e sugeriu a criação de uma federação europeia como forma de proteger a Europa da ameça jihadista. Da sua sugestão resultaram as seguintes decisões:.1. Estabelecer um Alto Tribunal Arbitral para resolver disputas europeias;.2. Formas de financiamento do referido Tribunal Arbitral;.3. Fazer cessar as guerras entre os estados cristãos..Estas ideias foram posteriormente disseminadas pela Europa. Em 1814, Karl Friedrich Krauser, Professor da Universidade de Jena, publicou um projecto da ideia de uns Estados Unidos da Europa; em 1867, Giuseppe Garibaldi organizou um congresso em Genebra sobre a ideia de unidade europeia - o Congresso da Paz; em 1892, o Congresso Universal de Berna, era sujeito ao tema da federação europeia (Unidade Federativa Europeia), a qual permitiria a resolução de todos os conflitos existentes através da lei e não pelo uso da força..II - Foi, no entanto, no Congresso para a Federação Europeia, que se realizou em Roma, em Julho de 1909, e no qual participaram Portugal e a Sérvia, que a ideia contemporânea de unidade europeia amadureceu completamente. O congresso, cuja organização teve o enorme contributo do Instituto Italiano da Cooperação Social, iniciou-se no Domingo, 16 de Maio, às 10.00 da manhã, no salão do Collegio Romano. A forte razão para a organização deste congresso foi a anexação da Bósnia e Herzegovina pelo Império Austro-Húngaro, em 1908, a qual teve uma feroz oposição do lado sérvio, resultando num tumulto generalizado entre os países europeus. Um dos importantes oradores no congresso foi Max Wechter, que argumentou sobre as consequências catastróficas de uma futura guerra europeia, "a qual ninguém poderia considerar sem grande preocupação, dados os modernos meios de destruição em massa. Este tipo de guerra devastaria seguramente os vencidos, mas também levaria os vencedores à exaustão e enfraquecimento, o que possibilitaria que outra força (de fora da Europa) impusesse a sua vontade sobre a Europa." Os participantes deste congresso eram, para além da nobreza europeia, distintas personalidades de diversos países europeus, como vencedores de prémios Nobel, professores universitários, banqueiros, etc., de países como Portugal, Sérvia, Áustria-Hungria, Reino Unido, Rússia, França, Espanha, Itália, Alemanha, Suíça, Grécia, Bélgica, Holanda, Suécia, Noruega, Dinamarca, Roménia, Bulgária e Montenegro (na altura, um dos estados da Sérvia). De referir que, dos 22 países europeus existentes na época, apenas dois eram repúblicas, sendo os restantes monarquias..Nas sessões do Congresso, a participação do Reino da Sérvia foi feita pelo Professor Doutor J. Periæ, Professor da Faculdade de Direito de Belgrado e da Real Academia das Artes e das Ciências da Sérvia. É interessante uma observação feita pelo Professor Periæ, de que a Grã-Bretanha não poderia nunca integrar uma Federação Europeia, afirmando que "uma União dos Estados Europeus não está nos interesses britânicos e, caso a Grã-Bretanha venha a integrar uma Europa federativa, será com o intuito de vigiar atentamente a Europa e manter o confronto entre as duas partes europeias rivais. Noutras palavras, formalmente, a Europa seria uma federação, mas, na realidade, seria um sistema de equilíbrio, do qual um Estado seria o senhor do jogo - a Grã-Bretanha. Toda a história política europeia mostra que a Grã-Bretanha foi sempre a favor de um sistema europeu de equilíbrio, com os diferentes Estados divididos em dois grupos oponentes ("Zweimächtegruppensystem"), e do qual a Grã-Bretanha seria o árbitro e senhor do jogo e do destino do continente europeu.".Na sessão de encerramento do Congresso, presidida pelo Príncipe Cassano, foram tomadas várias decisões, designadamente:.1. Criação de uma Federação Política Europeia;.2. Constituição de uma Sociedade de Direito Comparativo (por sugestão do Professor Periæ);.3. Criação de um Tribunal Supremo Internacional para as áreas de Direito Privado, sujeito às Convenções Internacionais..4. Constituição de um Sindicato Internacional para protecção dos trabalhadores, sujeito aos princípios da Segurança Social, de modo a prevenir instabilidade social e convulsões..Assim, a velha ideia de unidade europeia surgiu para defender a Europa de ameaças não-europeias e a moderna concepção é no sentido de prevenir guerras e convulsões dentro da Europa, as quais estão a enfraquecer a defesa europeia e as suas potencialidades económicas..A unidade europeia não foi o sonho de apenas alguns, mas da "crème de la crème" da Europa da altura (20 monarquias e 2 repúblicas)..Embaixador da Sérvia