Se alguém achou estranho o slogan do novo governo do Brasil, apresentado aos brasileiros sob um logótipo colorido no dia da posse, no 1º de janeiro, na Praça dos Três Poderes, terá compreendido o seu alcance no domingo seguinte, praticamente à mesma hora e exatamente no mesmo local, durante a invasão de vândalos às sedes executiva, legislativa e judicial do país: "União e Reconstrução"..Na segunda-feira, dia 9, o dia seguinte à depredação, políticos de todas as cores, como no logótipo, ajudaram, de manhã e de tarde, os funcionários do Congresso Nacional, do Planalto e do Supremo Tribunal Federal (STF) a reconstruir as portas, as janelas, os computadores e o que sobrou das dezenas de obras de arte e símbolos que ilustram a jovem História do país, destruídos na véspera pelos acéfalos..E, à noite, Lula da Silva, apesar da fama de extremista que carrega desde quando, enquanto sindicalista, pedia greves com um megafone na mão, conseguiu mais um dos seus prodígios políticos: reunir os presidentes do STF e das duas casas legislativas, líderes da associação de prefeitos brasileiros, os 27 governadores, alguns deles apoiantes empedernidos de Jair Bolsonaro, e o procurador-geral da República Augusto Aras, um bolsonarista-passivo, todos numa mesma mesa, em defesa da democracia, da legitimidade do presidente eleito a 30 de outubro e da imperiosa necessidade de punir sem tréguas os terroristas. Em seguida, desceu, de braço dado, literalmente, com aquelas autoridades a mesma rampa que havia subido na posse com representantes do povo brasileiro..De manhã e à tarde, a reconstrução. À noite, a união. Com uma semana de vida, o novo governo ilustrou, perfeitamente, o seu mote..Para a reconstrução do Brasil, o ex-presidente Bolsonaro, ao demolir a Saúde, a Educação, a Justiça, a Economia, as Relações Exteriores, os Direitos Humanos, o Ambiente e todos os avanços civilizatórios do país, só contribuiu com o seu oposto, a destruição..Mas para a união do Brasil, o derrotado nas urnas, hoje escondido em Orlando, na Florida, a terra de outro rato famoso, o Mickey, involuntariamente ajudou. Nos quatro anos em que esteve no Planalto conseguiu aliar brasileiros como Dilma Rousseff, presidente derrubada por impeachment, e Miguel Reale Júnior, o autor do texto desse impeachment; fazer o PSDB, de Fernando Henrique Cardoso, e o seu inimigo histórico, o PT, entenderem que era muito mais forte aquilo - o respeito pela democracia - que os aproximava do que aquilo que os afastava; e juntar até Lula e o seu feroz ex-rival eleitoral Geraldo Alckmin debaixo do mesmo teto presidencial, um como presidente, o outro como vice..Perante catástrofes, como um furacão, uma guerra ou um Bolsonaro, o ser humano esquece as diferenças e une-se, diz-nos a psicologia..O último passo do brochável Bolsonaro para a união voluntária do Brasil, entretanto, foi dado no domingo na invasão à sede da democracia. Os doidos bolsonaristas que a perpetraram foram repudiados até pelos bolsonaristas menos doidos, hoje muito mais convencidos da legitimidade de Lula do que antes da invasão..Detidos pela polícia, os criminosos partilham agora vídeos onde se queixam da forma como estão a ser tratados nas esquadras - logo eles, que em liberdade repetiam "Direitos Humanos só para os humanos direitos" e "bandido bom é bandido morto", os dois slogans que acompanharam Bolsonaro por toda a sua carreira política..Jornalista, correspondente em São Paulo