Unanimidade rara entre economistas salienta os perigos do brexit

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O Reino Unido está a uma semana da sua histórica tomada de decisão económica sobre se permanece ou não na União Europeia. Os economistas nunca estiveram tão unidos no apoio a uma votação pela permanência, contudo, estes profissionais parecem cada vez menos capazes de convencer o público do interesse nacional britânico.
A história económica é clara. O crescimento do rendimento nacional per capita do Reino Unido foi o mais rápido do G7 desde a sua entrada em 1973, tendo sido o mais lento entre 1950 e 1973. A adesão à UE tem sido benéfica para a Grã-Bretanha e não impediu a renovação económica interna.
Existe uma imensidão de provas que demonstram que a UE cria comércio em vez de o desviar. Todas as outras relações entre a UE e outros produzem maiores barreiras tarifárias ou não-tarifárias. O comércio aumenta a competitividade e o crescimento da produtividade, o elixir da prosperidade. O Reino Unido não está sobrecarregado pela burocracia da UE; os seus regulamentos mais prejudiciais são produto interno. Embora seja pouco provável que a imigração da UE seja benéfica para os nascidos em solo britânico, nada indica que os imigrantes roubem os empregos e muito pouco que eles prejudiquem os salários ou os serviços públicos.
A avaliação económica é ampliada pela preocupação de que a incerteza associada ao brexit vá muito provavelmente deprimir a atividade económica no curto prazo, o que atingirá, pela certa, muito mais violentamente as finanças públicas do que quaisquer possíveis poupanças na taxa de adesão enviada para Bruxelas.
Embora eles não cheguem exatamente à mesma avaliação de danos, o consenso é impressionante. Apesar de o aviso de George Osborne em relação a um orçamento com um aumento de impostos imediato poder ser considerado precipitado, os economistas concordam que será necessário subir os impostos ou diminuir a despesa. Embora os economistas tenham a ganhar com o brexit - a profissão sai-se bem em época de crise - as suas vidas não serão pera doce depois de uma votação pela saída, por três razões.
Em primeiro lugar, os bons economistas sabem a diferença entre grande e pequeno; eles sabem o que é verdadeiro e justo e conseguem colocar as reivindicações económicas no contexto correto. Esse conhecimento deve ser saudado, mas Michael Gove, o líder da campanha pelo brexit, despreza a investigação económica séria porque "as pessoas neste país estão fartas de especialistas".
A campanha pela saída tem feito gala em ser inimiga da boa economia e mostra todos os sinais de continuar assim depois de uma vitória, quando irá certamente pôr as suas mãos nas alavancas do poder. Em vez de responder aos argumentos, a campanha pela saída joga invariavelmente nos ataques pessoais, acusa organismos de investigação independentes de estarem nas mãos de financiadores europeus e afirma incorretamente que os autores de muitos relatórios eram a favor da adesão do Reino Unido ao euro. Um golpe particularmente baixo foi a insinuação feita pelo deputado Steve Baker de que Mark Carney, o governador do Banco de Inglaterra, ainda estava a atuar como porta-voz do Goldman Sachs, seu antigo empregador.
Em segundo lugar, têm sido conferidos poderes limitados a algumas autoridades económicas para tomarem decisões em prol do interesse público. O Banco de Inglaterra controla as taxas de juro. O Conselho das Finanças Públicas produz a previsão oficial que sustenta as decisões sobre impostos e despesas. As autoridades da concorrência ajudam a preparar o terreno em que as empresas competem. A soberania final do Parlamento vem da capacidade de retirar esses poderes. Mas isso não é suficiente para muitos ativistas pela saída, como o deputado Jacob Rees-Mogg, que procurou silenciar o Banco de Inglaterra e pediu a cabeça do Sr. Carney. Tais ameaças impedirão que sejam ditas verdades económicas cruciais após o referendo.
Em terceiro lugar, a própria ciência económica está em risco. Se a saída da UE acabar por se revelar benéfica, a profissão vai entrar numa crise que superará a sua incapacidade de ver a crise financeira global a aproximar-se. Mais provavelmente, se os economistas estiverem certos, mas não conseguirem ter a influência suficiente, serão poucos os que ficarão satisfeitos por dizer "nós avisámos".
Este é um momento crucial para o Reino Unido. É também um momento crucial para a ciência económica. Pela primeira vez, os economistas britânicos falaram a uma só voz. O Reino Unido não deve sair da UE, dizem eles. Nós avisámos.

Chris Giles, editor de economia do Financial Times

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