Uma voz

A primeira grande urgência é que essas circunstâncias consigam despertar, como aconteceu na última guerra mundial, uma voz liderante, credível e capaz
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A vontade de formar finalmente uma unidade política europeia foi evidente depois de a memória da pluralidade dos seus povos ter ficado marcada pelas destruições materiais, humanas e culturais de duas guerras mundiais. Não faltaram as vozes encantatórias, com mais carisma do que poder, para obterem a adesão dos antigos inimigos congraçados. Mas a crise, complexa na convergência de vários desafios e ameaças, em vez de fortalecer tais solidariedades, aquilo que fez reaparecer foram as memórias das soberanias e das hierarquias, debilitando a adesão ao processo que se desenvolvera até à exuberância, um tanto desordenada, do fim da Guerra Fria.

Talvez esteja secundarizada a convicção de que é sempre o mau governo um fator que não falta na causalidade das crises, até porque as técnicas dos Estados-espetáculo ajudam a estabelecer um nevoeiro entre o proclamado e a realidade da evolução teimosa dos factos. A vertente financeira e económica, atingida pela mais grave das crises que a União Europeia porventura enfrentou durante o processo de construção, com a União Monetária efetuada formalmente quando se visionava já uma divisão ameaçadora entre países deficitários como a Grécia, a Itália, Portugal e até a França, com o processo governativo a diminuir, em nome da capacidade económica e financeira, os interventores nacionais investidos de uma autoridade que nem a lei nem a história já lhe consentiam. Os fiéis ao plano secular da unidade europeia nunca abandonaram a importância cimeira dos valores, nem os valores que devem acompanhar a política, mas o que descobrem é o tantas vezes referido alargamento sem estudos de governabilidade, e sem a humildade de admitir as diferenças e a sua incompatibilidade com caminhos únicos exceto pelo método da imposição, que é frágil a solidariedade entre ricos e pobres, que enquanto o Estado social é condenado com base na enumeração minuciosa dos excessos atribuídos, o neoliberalismo cuida de legitimar os paraísos fiscais com ainda mais minuciosa enumeração das vantagens e legitimidades a salvaguardar, além dos abusos considerados corrigíveis.

A vasta máquina governativa da União Europeia, levada por esta proeminência de inquietações legítimas quanto ao fundo e discutíveis no que toca às respostas técnicas de sedes que são autónomas quanto ao exercício e duvidosamente democráticas quanto à articulação com os restantes organismos, salvaguardadas ou na visibilidade ou na imagem pela invocada dogmática autoridade científica, que os resultados não demonstram suficientemente: são resultados mais visíveis a maioria deserdada (Derber) que cresce incontrolavelmente a mostrar-se no Mediterrâneo, e no turbilhão muçulmano, aumenta o tom das vozes que falam em nome do interesse e de liberdades nacionais em recuperação de memória, e a somarem às dificuldades variadas dos entendimentos constitucionais de cada um a complexidade do Tratado de Lisboa na multiplicação das presidências (Conselho, Comissão, política estrangeira e segurança, Parlamento, Banco Central e a dimensão da eurocracia). Esta situação será mais propícia no sentido de mobilizar, além da fadiga fiscal, a maquinaria extrativa de recursos do que para enfrentar a crise económica e financeira que se arrasta, para encontrar vozes capazes de fazerem definir lúcida e claramente o agravamento da conjuntura em que a paz se encontra, não se ignorando as instâncias que continuam em gestão tranquila.

A experiência do passado não longínquo, que pareceu irrepetível e hoje mostra inquietantes sinais de que se vai aprofundando, foi a de que antes se juntaram, como dizem as crónicas, legitimidade popular, audácia e carisma, enquanto agora não apenas é o espírito europeísta que definha, é o Ocidente considerado pelo antes chamado Terceiro Mundo como o maior agressor dos tempos modernos a viver o seu outono, com a memória russa a ressuscitar o Império do Meio, com o atlantismo a verificar a imperativa atração do Pacífico.

O regresso à imperatividade dos princípios do mundo único e da Terra casa comum dos homens volta a ser empolado, mas sobretudo pelas vozes que não são as vozes encantatórias dos que já se inquietavam com a própria salvação da Terra. A primeira grande urgência é que essas circunstâncias consigam despertar, como aconteceu na última guerra mundial, uma voz liderante, credível e capaz. Não será seguramente um vigilante orçamentista, como então não foi. Mas será uma voz que não fique amarrada ao mole conservadorismo de dividir em nome do regresso ao passado, mas que viva a convicção de que tem de terminar a cacofonia das nações, para que se reforce o debilitado Ocidente e voltem a acender-se algumas das apagadas velas da Europa luz do mundo, em paz e desenvolvimento sustentado.

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