Uma vítima colateral do nosso embaraço geral

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O americano Bernard Baruch (1870-1965), conselheiro de vários presidentes americanos, tinha um dote particular para as palavras, a expressão «guerra fria» é dele. E também esta frase: «Votem pelo candidato que menos promete, pois ele é quem vos desiludirá menos.» Em 2010, o brasileiro Tiririca, palhaço semianalfabeto, foi eleito deputado. Foi o segundo deputado mais votado da história do Brasil, apesar de ter feito uma campanha a dizer só isto: «Pior do que tá, não fica, vote Tiririca!» Eleito, tirou uma conclusão tão inteligente quanto a de Baruch: «Como não prometi nada na campanha, o que eu fizer é lucro.» Em março passado, ele foi entrevistado pelo Financial Times e confessou-se frustrado pela sua ação na Câmara dos Deputados, em Brasília: «Passo os dias sem fazer nada...» Mas sem promessas aos eleitores e sem fazer nada (portanto, sem asneiras), o balanço de Tiririca pode ser considerado globalmente positivo. Quem nos dera que todos os políticos fossem pelo menos assim, sem contribuírem em nada mas também sem estragarem.

O palhaço Tiririca é um animal não-político típico dos tempos modernos. Um dos postulados da democracia sendo a defesa de que todos os cidadãos devem partir juntos da mesma linha, é justo que todos (mesmo os menos habilitados) possam concorrer a eleições. Já é um igualitarismo perigoso que qualquer um possa chegar à meta e ser eleito. Ora esta última consequência ocorre cada vez mais graças à televisão, rádio e redes sociais. Por cada Mulher Pera - boazona que não conseguiu ser vereadora em São Paulo, tendo por único programa eleitoral um bumbum avantajado como a fruta que o seu nome sugere - há um Enéas Carneiro, o tal que foi o único deputado brasileiro com mais votos do que Tiririca, que se notabilizou (morreu em 2007) por fazer discursos eleitorais incompreensíveis mas rematados sempre por uma ideia notável: «Meu nome é Enéas!», dito com uma voz gutural que acompanhava o eleitor até à urna.

Voto de protesto chama-se a este fenómeno, beneficiando tipos originais que podem ser acusados de tudo menos de não darem conscientemente o corpo ao manifesto. A Mulher Pera dá o magnífico bumbum, Tiririca, as palhaçadas, Enéas, a estudada voz gutural... No fundo, todos outsiders da política mas que, tendo ido para ela, o fizeram de forma eficaz e profissional. Por cá, temos uma originalidade no nicho de mercado dos candidatos originais: o humorista involuntário. E o rei, na presente época autárquica, é Manuel Almeida, candidato a presidente da Câmara de Gaia pelo Partido Trabalhista Português.

Seria brisa fresca alguém apresentar-se deliberadamente a eleições com um discurso como o da genial peça de Ricardo Araújo Pereira: «Falam, falam, falam, pá, e eu não os vejo a fazer nada!» Os eleitores poderiam rejubilar por lhes aparecer um discurso de nonsense que os redimiria da política suja de candidatos sérios que compram votos pagando a renda a velhinhas. Porém, se Manuel Almeida fala como uma personagem dos Gato Fedorento, fá-lo sem querer.

Vídeos de Almeida são sucesso no YouTube. Na apresentação da sua candidatura, ao lado da filha, também da lista, e do genro que trouxe para a mesa o neto, «o meu carequinha», ele disse: «Agradeço ao Dr. Madaleno que é advogado e presidente do partido, que não pode estar cá hoje, uma vez que não tinha camisolas nem bandeiras.» Noutro vídeo, ele telefona para o tribunal: «Eu, mais do que ninguém, estive aí ontem.» E no Twitter e no Facebook já há quem lamente não poder mudar para Gaia e votar em Manuel Almeida.

Voto de protesto? Errado. Comparado, votar em Tiririca foi de um patamar superior. O palhaço brasileiro fazia pela vida e sabia-o. Ele mereceu ser eleito porque enganou os eleitores (como, aliás, tantos políticos oficiais). Manuel Almeida, fazendo de tolo da aldeia, não merece a chacota pública nem que votem nele.

[08-09-2013]

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