Uma vendedora de sonhos que já escalou o Kilimanjaro

Brunch Com Carlota Ribeiro Ferreira, CEO e fundadora da WIN World e da Happy Conference.
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Encontramo-nos na histórica Benard que, indiferente ao movimento dos turistas que ali chegam encantados com a vibração do Chiado, se mantém uma referência para quem, como Carlota, cresceu a saborear os croissants, croquetes e outras delícias da pastelaria centenária. A viver na Rua da Emenda, onde os pais ainda moram, habituou-se desde pequena a andar por ali, foi batizada na igreja mesmo ao lado e a Benard foi crescendo nela como "um sítio de memórias". Talvez ainda se inspire na casa histórica para alguns dos projetos que constrói na WIN World, a empresa que fundou há 20 anos e que descreve como "uma combinação de credibilidade e seriedade com riqueza criativa e capacidade de gerar emoções". Em resumo, "uma combinação entre McKinsey e Cirque du Soleil".

Pedimos café duplo e chá verde, croissants mistos - a que Carlota Ribeiro Ferreira tenta fugir, mas acaba por não conseguir evitar a tentação. À hora a que nos encontramos, afinal, já fez exercício, já levou o filho mais novo, Sebastião, de 10 anos, às aulas - Vasco, de 20, está a licenciar-se na Holanda -, já orientou a manhã: merece a recompensa. A disciplina que se impõe é-lhe natural, fruto de quem toda a vida esteve ligada à alta competição. Conta-me que o seu sonho de miúda era ser cavaleira olímpica. "Tive aulas, praticava intensamente e adorava saltos, entrei em concursos desde os 12 anos ou menos. Às 8.00 já estava no Jóquei a treinar", recorda.

Se os cavalos eram uma paixão - e tinha a certeza de querer fazer deles vida -, as aulas não ficavam atrás; estudar divertia-a e era boa aluna. Razão pela qual, quando disse aos pais que depois do 12.º ia tirar um ano só para se dedicar a montar, eles tiveram de lidar com o tema com tato. Desafiaram-na a inscrever-se na faculdade de qualquer maneira, para ir vendo como era, apostando que não seria preciso mais para que se entusiasmasse com a Gestão e não sacrificasse um ano do seu percurso. E resultou. "Os primeiros três anos foi quase uma continuação do liceu, mas a partir daí o ISEG começou a ser muito divertido, adorava aquela parte mais racional do curso, a parte financeira dos negócios, o universo laboral, etc." Mas os cavalos não estavam definitivamente arrumados, por isso, entre o 4.º e o 5.º ano da faculdade, foi passar um mês a treinar a rentrée em França, na casa de um cavaleiro olímpico. Entendeu então que o profissionalismo e a dinâmica do desporto equestre, a exigência necessária a cumprir o seu sonho, obrigava a ir para França ou para a Bélgica, mercados então muito mais desenvolvidos no hipismo. E a Gestão já a conquistara.

No fim de contas, porém, foi a família - nuclear para esta mulher de negócios apaixonada por tudo quanto ponha a sua resistência à prova, incluindo subir ao Monte Kilimanjaro, proeza que conquistou no ano passado - que falou mais alto e a fez voltar a Portugal. "Eu sempre adorei o mundo, adoro viajar e conhecer novas culturas, mas não apenas geograficamente; acredito que um bom livro, um filme, os jornais e revistas que sempre adorei ler, podem fazer-nos viajar. E adoro estudar, isso também me liga muito ao mundo e evita que me autolimite - que é algo que digo imenso às pessoas que devem evitar, seja em ações seja pensamentos."

Excelente aluna, sobretudo nos cadeirões de Gestão, Carlota não estava porém inclinada a seguir as áreas mais clássicas de finanças ou consultorias. A solução à sua medida surgiu-lhe num anúncio de jornal, que a levou à imprensa e ao lado mais criativo da área, que a apaixonou. "Tive a sorte de entrar numa indústria de que nunca mais quis sair, porque cheguei numa altura muito dinâmica, de digitalização e novidades. Essa vibração que permite estar sempre a fazer acontecer é genial. Eu acredito muito no poder formativo e aspiracional dos media - contar histórias e ajudar a contribuir para a informação e formação das pessoas. Duvido que haja algum formato melhor... talvez a saúde", diz-me. Há de confessar ter um sonho nessa área. Para já, explica que a paixão por esse lado inspiracional foi o que a conduziu à profissionalização, passando pela Impresa e pela então Controlinveste (hoje GMG) ainda mal entrara nos 30 anos.

O percurso levou-a a sentir necessidade de saber mais e embarcou para os Estados Unidos, para fazer um mestrado em Harvard - "um ambiente intelectualmente fascinante, em que tínhamos uma agenda de seminários, workshops, encontros muito fortes que me fizeram entender que pessoas interessantes e bons casos têm o poder de inspirar e que pode haver um negócio em torno disso, com grande propósito". Esteve pouco mais de um ano fora - uma vez mais puxada de volta pela ligação familiar: a avó paterna, um pilar para Carlota, tinha 100 anos e não queria perder a oportunidade de a acompanhar quanto pudesse. Mas na bagagem trouxe a ideia que se tornaria na sua vida: o desenvolvimento de uma linha de conferências com oradores internacionais. Começou por fazê-lo no grupo e recorda com saudade esses tempos em que trabalhou com "pessoas épicas", como Mário Bettencourt Resendes e Emídio Rangel, "pessoas que tinham muita vontade de convocar o mundo, líderes extraordinários". Depois as coisas evoluíram em sentidos divergentes e Carlota viu-se livre para levar a sua ideia mais a fundo, dedicar-se em pleno ao seu projeto.

Vasco tinha 1 ano e ela começava a dar vida a um segundo "filho", o que viria a tornar-se a WIN World. Pelo caminho, ainda passara pela Omnicom, onde aprendeu com Luís Mergulhão o pensamento de marca e o entretenimento. Tudo experiências que somaram valor ao seu projeto: a formação de gestão, as passagens pelos media, as marcas, o entretenimento. Nos aspetos de produção, isso deixava-a numa posição única. "Ao idealizar um projeto, tinha essa riqueza e dinamismo e ainda hoje as grandes ações de formação que temos são em espetáculos, integrando cultura e coisas que nos permitem beber dinâmicas que enriquecem matérias mais sérias."

Talvez por isso tenha rejeitado sempre conferência superformais, mesas corridas em palco. E isso justifica a ideia da empresa que construiu, a tal fusão de consultora com espetáculo de excelência. Então como define a WIN World? Não há um segundo de hesitação: "É uma empresa de media para lideres e organizações, que começou por uma frente de ação que era muito minha, de conferências e ações, mas que quero que seja vista quase como essa combinação de McKinsey com Cirque du Soleil." Lembra uma frase de Alberto da Ponte - que ouviu citada por Nuno Pinto Magalhães, sucessor na cervejeira: "Nunca desperdicem uma boa conversa". E daí segue para exemplificar aquilo em que consiste o seu trabalho. "Um dos projetos que mais gozo me deu - e concorri por mero acaso, mas ganhei - pedia uma ação que trouxesse espírito de corpo à equipa da Central de Cervejas, que pusesse toda a gente a vestir a camisola. E isso passava muito por repensar as áreas comuns da empresa, como refeitório e balneários. Então lembrei-me de fazer como no programa de televisão, pedi ajuda deles..." e acabou a montar um "Querido mudei a cervejeira", com o CEO vendado para a transformação e tudo. "Foi um sucesso", conta, explicando de seguida que recusa as fronteiras criativas e gosta de trabalhar com "pessoas bravas", que não se limitam a si próprias.

"Quando fundei a WIN, em 2008, trouxe cá o Kofi Annan e perguntavam-me como é que tinha conseguido. É simples, porque tentei. Liguei e consegui. É isso que procuro nas minhas equipas, esse misto de dreamers e doers. Quando nos entregam um projeto, nós pomos ambição em cima, elevamos, é assim que somos felizes, a ajudar as empresas a desconstruir, a procurar colaterais, a escutar e entender os desafios de negócio, para poder alinhar todos os stakeholders."

Confessa que gosta mais do processo criativo, de desenhar a estratégia, do que de ficar a olhar para o que fez. Traz os olhos sempre postos no desafio seguinte - como quando começou a descer a encosta do Kilimanjaro, já a fazer contas a que grande montanha se seguirá. E se o pensa, vai acontecer. "Se é algo que quero fazer, crio agenda para isso." E compromete-se a 100%. É assim com o trabalho, com a família, com a corrida, até com o curso de ioga que decidiu fazer - mesmo detestando a parte prática. "Mas é uma aprendizagem útil para o que mais gosto de fazer, que são desportos de impacto - consciência corporal é fundamental -, e para um envelhecimento com mais saúde e independência. E adoro as partes de anatomia e filosofia."

Como é que Carlota se organiza para ter tempo para tudo? "Compartimentando e criando um ciclo virtuoso", explica. "Por exemplo, enquanto organizo faturas, oiço podcasts que me interessam e vou tirando notas." Até parece simples. É o dom de Carlota, uma sonhadora que quer contribuir para inspirar os outros - traz uma frase tatuada no braço, muito fina, que a define: inspiring life, love and legacy. E é esse o seu objetivo na WIN, aos 20 anos como nos 150 que espera que dure para além dela. O que talvez ajude a explicar como também fez nascer a Happy Conference, com esse propósito de fazer felizes as pessoas em contexto de trabalho, porque sem elas não há empresas bem-sucedidas, negócios com produtividade e bons resultados.

"Há 15 anos, decidi começar a trabalhar o bem-estar nas empresas", um bichinho que também veio de Harvard. "O professor mais popular do campus era o de Psicologia Positiva e Liderança, que era conhecido como o Professor da Felicidade. Perguntavam-lhe imensas vezes porque é que a felicidade era tão importante para os líderes e ele respondia: "parece que há mais pessoas a querer ser felizes do que a querer ser ricas."

Isso inspirou Carlota a buscar os equilíbrios que trazem resultados - e que as novas gerações tanto valorizam - e trouxe uma amplitude de discurso que se suporta em ciência e constrói sobre a diversidade, a inclusão, a psicologia. "Há um fio condutor que começa no CEO e arrasta toda a empresa, ao contrário do que acontece na maioria das ações, que são mais dirigidas a uma fatia específica e dedicada a um tema fechado. Na Happy Conference cruza-se tudo e vê-se tanto gravatas como ténis."

E o que faz para se divertir alguém que se cumpre tanto nos desafios? Corre-se, compete-se, supera-se. Sobe-se grandes montanhas. "Subir o Kilimanjaro foi uma experiência transformadora", diz, com o brilho da aventura de outubro ainda nos olhos. De resto, faz questão de viajar com os filhos, que são grandes companheiros nas suas jornadas - até aos 4 anos, levava-os na mochila de caminhadas, agora seguem pelo próprio pé. Para o futuro, Carlota Ribeiro Ferreira tem o objetivo bem traçado de fazer crescer a WIN, "como projeto de e para pessoas especiais". Como se faz crescer um coletivo destes é o trabalho que está a alinhar mentalmente, a par do livro que está a escrever e que quer lançar antes dos 50. Para já, nada revela sobre esse projeto, mas está pronta para me confiar outro: o de desenvolver uma casa, um local de excelência para se envelhecer em saúde. "Os meus avós fizeram-no, rodeados de bom ar, netos e uma vida rica, e eu gostava de construir um negócio com essa base, com tertúlias e que puxe pela intergeracionalidade, até como elogio à minha avó e aos meus pais". Explica que os pais, que acabaram de entrar nos 80, continuam bem ativos: a mãe, psicóloga, continua a dar consultas e a fazer formações; o pai, contabilista, está a cumprir o terceiro ano da licenciatura em História. "Estou a investigar conceitos que existem pelo mundo e a combinar a fórmula certa para responder ao que sonho realizar."

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