Uma tribo perdida na floresta amazónia

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Uma clareira no meio da floresta Amazónia, junto à fronteira entre o Brasil e o Peru, revela seis malocas (cabanas) e um grupo de 15 índios. Os corpos pintados de vermelho vivo, o tom das sementes do urucum, as flechas apontadas para o avião Cessna Skylane que os sobrevoa tirando as primeiras fotografias desta tribo que vive isolada e afastada do contacto com a civilização. O objectivo é alertar para os perigos que ameaçam estes grupos: a exploração ilegal de madeiras e a invasão de terras.

"Não sei nada deles e a ideia é continuar não sabendo", disse à BBC Brasil José Carlos dos Reis Meirelles Júnior, um dos responsáveis da Fundação Nacional do Índio (Funai), o organismo de protecção dos indígenas no Brasil. Meirelles sobrevoou e fotografou o grupo entre os dias 28 de Abril e 2 de Maio na margem esquerda do rio Envira, no estado do Acre. "Na região existem quatro povos isolados distintos que já temos acompanhado há 20 anos", afirmou, estimando em 500 o número de indivíduos de casa grupo. Estima-se que há 68 tribos isoladas só no Brasil.

"Os guerrilheiros fotografados têm aparência forte e sadia", refere a Funai, que tinha registo da presença destes grupos na região desde o início do século XX. No passado, o contacto de tribos isoladas como esta com os homens "brancos" resultou em verdadeiras catástrofes: "Doenças facilmente curáveis para nós podem ser fatais", lembra Meirelles.

"Resolvi divulgar as imagens porque os mecanismos para proteger estas populações não têm servido. Ou a opinião pública entra nisso ou eles vão dançar", acrescentou. A ameaça, diz, não vem "ainda" dos "brancos" brasileiros, mas do outro lado da fronteira. "Tudo o que é ilegal que você pode imaginar, acontece na Amazónia peruana. Do lado brasileiro, a gente consegue isolar, evitar invasões, mas a coisa está pegando do lado de lá", disse Meirelles, temendo que a migração dos grupos do Peru gere conflitos com os índios estabelecidos no Brasil. Mas a revelação das imagens chega também numa altura em que há uma grande polémica no Brasil em relação à reserva Raposa Serra do Sol, em Roraima (ver caixa).

A política da Funai é a de que se deve monitorizar estes povos, mas não estabelecer contacto com eles. Segundo o responsável, este grupo está a crescer, mas outros estão em perigo. "O que está a acontecer nesta região [no Peru] é um monumental crime contra o mundo natural, as tribos, a fauna e mais um testemunho da forma irracional como nós, os 'civilizados' ameaçamos o mundo", referiu Meirelles, num comunicado da Survival International.

"Estas imagens são mais uma prova de que ainda existem tribos incontactáveis. O mundo precisa acordar para isto e assegurar que o território é protegido de acordo com as leis internacionais. De outra forma, estarão em breve extintos", disse o director da Survival, Stephen Corry.|

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