"Para mim uma joia é uma coisa que tem um valor sentimental, pode ser qualquer coisa. Eu, por exemplo, coleciono objetos estranhos. Para mim aquilo são joias", diz uma joalheira, Teresa Milheiro, no começo de uma série documental sobre joalharia, Joias, para que vos quero?, que hoje se estreia às 21.00 na RTP2. Essa é a primeira pista de que se pisa um terreno que poderá ser desconhecido de muitos: o da joalharia portuguesa, onde cabe uma prática punk, política até, carregada de uma visão do mundo, de uma leitura da sociedade, e de statements, como a de Teresa, que ali vemos trabalhar com prata, lentes, e asas de inseto..Sucessora de Madeira Prima, série que explorava o trabalho de artistas, designers, e marceneiros sobre a madeira, Joias, para que vos quero? tem de novo o "carimbo" da produtora Vende-se Filmes, de Filipa Reis, produtora da série, e João Miller Guerra, que, a par da realizadora Sara Morais, fez a pesquisa de conteúdos que se tornariam no material dos 13 episódios da série.."O João Miller Guerra um dia disse: "E se fosse sobre joias? Ficava super bonito, com uns planos fechados a vermos os joalheiros a trabalhar. Há imensos joalheiros contemporâneos a fazer um trabalho muito interessante. Podíamos propor um trabalho sobre joias"", recorda Filipa Reis. A investigação trouxe-os a eles, joalheiros, uns através dos outros: "uns mais ligados às artes plásticas, outros mais ligados à moda, outros à joalharia tradicional." E com eles a questão: "O que é que nos faz querer ter uma joia? É uma memória, é algo que nós queremos preservar, é algo que é simbólico em relação a determinados momentos da vida?".Sara Morais, que assina a realização de todos os episódios, "nunca tinha tido contacto com a joalharia", conta. "Foi a primeira vez que pensei sobre isto, mas fascinou-me logo. Pela escala, e pela intimidade, porque uma peça tem sempre um lado afetivo, sobretudo quando se está a falar de artistas que trabalham peças únicas." Nas entrevistas que resultam naquilo que escutamos destes artistas, artesãos, joalheiros, ou designers, havia sempre três perguntas que Sara fazia: o que é uma joia, o que é ou faz o valor de uma joia, e como é que as pessoas começam ou se interessaram pela joalharia..Usar prata, ouro ou cabelos."O nosso olhar tem maior interesse pela joalharia contemporânea. Não temos a pretensão de fazer uma história da joalharia portuguesa, porque isso era outro campeonato." Contudo, também a joalharia tradicional está em Joias, para que vos quero?. Aparecerá já no terceiro episódio, centrado em Inês Barbosa, que pertence a uma família que há várias gerações trabalha a filigrana, universo "complexo, barroco", e que nela incorpora já o desenho contemporâneo da filha, designer. Mas a joalharia contemporânea, continua a realizadora, traz questões como "o que é considerado precioso, porque é que atribuímos valor às coisas, a nossa relação com os objetos, e com a vida material". Entre os materiais cujo uso mais a surpreendeu está o cabelo, material que Carla Castiajo usa na sua obra..Cada episódio acompanhará a execução de uma peça do artista ou artistas em causa. "Para que não seja um programa mais didático, de fazer uma peça, mas que, por outro lado, não seja só uma entrevista de fundo sobre o trabalho do joalheiro", explica Filipa Reis. Quando falam sobre o seu ofício, é sobre a própria vida, também, que falam, como mostra logo o primeiro episódio Jewels are not dead, com Teresa Milheiro. "Estamos à procura dessas histórias em que a história de vida de uma pessoa influencia o seu trabalho artístico. O que é que a pessoa viveu, que experiências teve, o que quer dizer com o trabalho, quais são as preocupações, sejam artísticas, sejam políticas", resume a produtora acerca dessa série que, completa, mostra como a joalharia é "este mosaico de artistas que trabalham uma voz completamente heterogénea". E nele, nesse terreno para muitos desconhecido, cabe Tereza Seabra, histórica joalheira portuguesa e dona de uma galeria que - , a par da Reverso, de Paula Crespo, também retratada na série - mostra joalharia contemporânea, apesar da falta de tradição de colecionismo de joias como arte em Portugal; cabe Leonor Hipólito, mais conceptual, em cujo trabalho um gesto se transforma numa joia, que convive com desenhos e poemas; Manuel Vilhena, que antes de estudar joalharia começou por aprender artesanato, com um artesão da Baixa; ou Ana Albuquerque, que vem da Escultura.