No dia em que nos conhecemos num bar de Chicago, o pai dela tinha sido ameaçado por terroristas e resgatado por comandos nos ataques de Bombaim, do outro lado do mundo. Havia tanto barulho no bar que eu não ouvi nada sobre isso. Nós conversámos sobre Lady Gaga..Lady Gaga não era assim tão conhecida naquela época e eu nunca tinha ouvido falar dela, mas concordei que era a maior. Quando fui atrás daquela mulher lá para fora para fumar, os meus amigos reviraram os olhos e fizeram o comentário habitual sobre eu a ter ido buscar ao berço; com os meus 31 anos, eu era quase uma década mais velha do que ela..Perto das seis horas da manhã, um táxi buzinou em frente ao meu apartamento na zona norte de Chicago e ela foi, por várias semanas, para casa, na Índia, onde os ataques terroristas de Bombaim deixaram centenas de mortos e muitos mais traumatizados. Para mim, nesse dia começou um relacionamento de dois anos pelo qual eu andaria centenas de quilómetros..Ela era estudante e morava numa mansão em ruínas na zona sul com um bando de colegas, estudantes brilhantes que pareciam vir de um mundo futurista, transnacional e pós-racial, onde toda a gente estava a estudar para ser economista mas, ao mesmo tempo, nunca tinha tido um emprego ou pensado em dinheiro como uma coisa concreta..Impressionei-os com a minha habilidade no beer pong (jogo em que se tenta acertar com uma bola de pingue-pongue em copos de cerveja) e a minha capacidade de tolerar bebidas que causam longas e dolorosas ressacas em pessoas com mais de 27 anos..A minha namorada tinha mais dinheiro do que qualquer outra pessoa que já conheci, mas isso era mais fácil de passar despercebido em Chicago, com o seu ambiente descontraído típico do Centro--Oeste. No entanto, era difícil não reparar no fluxo de documentos importantes (escrituras de propriedades, ações), que chegavam constantemente pelo correio, aguardando a assinatura dela..Apesar de eu ter pouco interesse em dinheiro e ter sobrevivido até à casa dos 30 sem nunca ter possuído uma boa peça de mobiliário ou um carro que funcionasse normalmente, o dinheiro dela era como uma barreira entre nós, ou melhor, entre ela e o futuro que parecia querer para si mesma..A família dela, que não sabia ou fingia não saber que ela era gay, estava constantemente a levá-la de férias e em viagens internacionais. Ela falava comigo através do Skype e parecia infelicíssima, de sari e com cenários cinematográficos atrás de si.."Um dos elefantes está atrasado para este casamento", dizia. "Eles estão a obrigá-lo a andar desde Nova Deli. Indianos!".Uma vez, enquanto estava soterrada debaixo dos cobertores durante um nevão, assisti a um golfinho aos saltos na paisagem enquanto ela se queixava de que um parente tinha atirado uma colher a um criado por este estar a servir o chá incorretamente..Ela vivia num mundo de vigilância constante, numa comunidade espalhada pelo mundo mas, mesmo assim, hiperligado. A vida quotidiana para alguém da sua classe social envolvia mexericos e intriga e o desempenho frequente e obrigatório de coreografias habituais. Até mesmo os casais heterossexuais viviam dentro dos limites de inúmeras restrições..Como americana branca de uma família cuja única pretensão de fama é uma relação distante com o assaltante de bancos Frank James, eu tinha tido a liberdade de cometer todos os erros que me tinha apetecido cometer na vida. É como se a minha família não tenha sequer a ambição de nos ligar a um melhor assaltante histórico de bancos. Nós descendemos do irmão James menos interessante, não de Jesse!.O único conselho que os meus pais me deram sobre a universidade foi o de a frequentar, coisa que eles não tinham podido fazer..A família da minha namorada geria todos os aspetos da vida dela. Logo após a sua licenciatura, eles decidiram que ela deveria mudar--se para Nova Iorque, portanto ela fez as malas.."Queres estas estantes estúpidas?" perguntou-me ela por mensagem..Quando cheguei ao apartamento dela, ela ofereceu-me um queque com sabor a leite-creme e explicou-me o que tinha acontecido. Eu coloquei o bolinho no tablier do meu carro e deixei-o lá durante os seis meses seguintes, onde calcificou e se tornou um cemitério para os cigarros e outros detritos - talvez um género de metáfora. Tinha um cheiro horrível..Na época, eu dava aulas a uma turma de imigrantes indianos. Eles eram estudantes de terapia respiratória originários de Kerala e eu senti-me tentada a dizer-lhes: "Se as vossas filhas forem lésbicas, por favor nunca as mandem para Nova Iorque.".Em vez disso, pu-los a ver o filme Milk para ganhar tempo enquanto corrigia os testes deles e trocava mensagens com a minha namorada chorosa. Alguns aplaudiram quando Harvey Milk foi assassinado, em seguida pediram desculpa porque tinham pensado que era suposto baterem palmas. A minha namorada, depois de se ter ido embora, gostava de me incomodar durante esta aula para perguntar como iam os meus alunos e seus compatriotas indianos..Durante a minha pausa para fumar escrevi: "Um pássaro entrou pela janela e Raj pegou nele e gentilmente libertou-o lá fora."."Eu também apanhei um pássaro com as mãos", respondeu ela. "Depois comi um dosa delicioso.".As suas mensagens envolviam frequentemente o tipo de drama que poderia esperar-se de alguém com 24 anos e deixavam-me com suores frios ou em pânico durante o resto do dia. Antes deste, eu nunca tinha tido um relacionamento em que alguém tinha sentido a necessidade de atirar um guarda--chuva ou, pior ainda, um telefone..A preocupação constante e os dramas de má qualidade tomavam muito do meu tempo e o que me restava passava-o no ginásio ou sentada num bar com uma amiga que tinha sido despedida recentemente..Encontrava-me regularmente com a minha amiga desempregada no Ghost Bar para nos queixarmos de Chicago e de quaisquer outras coisas de que nos lembrássemos. A minha relação dramática ocupava-nos bastante..Visitava muitas vezes a minha namorada em Nova Iorque, até que finalmente resolvi mudar-me para lá. Numa das maiores e mais anónimas cidades do mundo tínhamos ainda menos tempo juntas e precisávamos de fingir que éramos heterossexuais durante a maior parte desse tempo. Havia indianos por toda parte, indianos que conheciam outros indianos que conheciam a família dela..Quando recebeu a visita dos pais, ela disse-lhes que eu era uma amiga mais velha da sua equipa de bilhar. Não há qualquer hipótese de a mãe dela ter acreditado naquilo, principalmente depois de me ter visto jogar bilhar..Tive o meu primeiro jantar com os pais dela num restaurante no Meatpacking District e tentei exibir-me mencionando casualmente o Mahabharata. As coisas estavam a correr bem. Eles gostaram das minhas piadas e do facto de eu ser vegetariana..A mãe dela agarrou o meu braço e disse-me:."Tem de ir ao casamento da minha filha, vai haver macacos.".Na altura do convite para o casamento com macacos, eu já fingia ser heterossexual, em part-time, há mais de um ano. Tinha desenvolvido uma predileção por dosas e uma tolerância a especiarias fortes. Pela primeira vez em décadas, eu tinha usado um vestido (um Alexander McQueen). E após um ano a escrever "de ORD para JFK!" no mural do meu Facebook estava finalmente a viver em Nova Iorque..Mas a minha namorada, afinal, não estava..Naquela noite, depois do jantar, enquanto eu voltava para o meu Volkswagen enferrujado e cheio dos meus pertences em Williamsburg, Brooklyn, ela ficou com os pais para uma conversa, imagino eu, sobre o império familiar e o futuro, uma narrativa que obviamente não me incluía..Os meus amigos tinham-me preparado para este dia, o dia em que os pais dela lhe diriam que tinha de voltar para casa. De que outra maneira poderia acabar uma história como esta? Comigo a segui-la até à Índia e a tornar-me uma amiga solteirona esquisita?.Por muito que eu tenha sonhado pagar os meus empréstimos de estudante antes de chegar aos 60, nunca quis a sua riqueza ou o que vinha juntamente com ela. E, provavelmente, sempre compreendi que ela teria um dia de voltar para a Índia. Parte do que tornava o nosso relacionamento tão excitante era o facto de sempre ter estado completamente condenado, uma realidade que dava a cada pequena vivência uma descarga elétrica..Alguns meses mais tarde, depois de muitas negociações tensas e madrugadas passadas a fumar no parapeito da janela do apartamento da minha namorada, levei-a ao aeroporto para ela ir para casa. Naquele dia ela parecia mais jovem e mais pequena do que alguma vez a tinha visto. Os seus olhos estavam vermelhos e quase fechados de tão inchados..Eu estava preocupada com o que iria acontecer-lhe e chateada por ela me deixar sozinha numa cidade onde não conhecia ninguém..Mas não devia estar surpreendida e não estava. Na realidade, duas pessoas com antecedentes tão desmesuradamente diferentes nunca poderiam ficar juntas e construir uma vida de classe média..Mesmo assim, não me arrependo de nada. O amor muitas vezes não chega na hora certa ou na pessoa certa. Faz-nos fazer coisas estúpidas e ridículas. Mas sem ele a vida é apenas uma série de acontecimentos vulgares, um após o outro..Meghan Austin vive em Nova Iorque e trabalha em desenvolvimento numa organização sem fins lucrativos..Exclusivo DN/The New York Times