Os incêndios que assolaram o país, e a tragédia humana que causaram, vieram evidenciar que Portugal tem uma prioridade política incontornável: reforçar a coesão territorial e social..Com a maioria da população concentrada no litoral e nas zonas urbanas, Portugal é um país profundamente desequilibrado. Situação que se vem agravando, pela ausência de implementação de políticas de desenvolvimento regional integradas que estabeleçam medidas de atratividade específicas que permitam dinamizar a economia do interior. É prioridade para o desenvolvimento estrutural do país reforçar um conjunto de políticas que atenuem estas crescentes assimetrias, enfrentando o problema do despovoamento e do envelhecimento do interior e das zonas rurais. Desde logo porque urge reter a população nesses territórios tornando-os atrativos, promovendo a descentralização de serviços públicos e incentivando a criação de emprego nas zonas deprimidas..É aqui que ganha especial relevância a implementação dos objetivos da Agenda 2030 - que fixa um abrangente conjunto de Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, exigindo especial atenção ao crescimento inclusivo das economias, proteção ambiental e boa governação - nomeadamente, promovendo investimento em infraestruturas de energia limpa, gestão sustentável de recursos, reforçando a capacidade de adaptação a riscos relacionados com o clima ou implementando a gestão sustentável das florestas. Tanto mais que a implementação da Agenda assenta em soluções de defesa da solidariedade para com os mais desfavorecidos e focada no alcance de importantes equilíbrios sociais..O caso do incêndio que deflagrou a 15 de outubro no pinhal de Leiria, Mata Nacional, quase totalmente consumido, evidencia também a necessidade urgente de o Estado contrariar o desinvestimento na floresta e nos serviços florestais e pensar estrategicamente a gestão das terras. Nesta medida cabe incentivar o uso de centrais de biomassa florestal, permitindo consumir massa lenhosa obtida através de um bom ordenamento, considerando que o setor da energia é dos mais dinâmicos, quer pelas oportunidades de negócio quer pela possibilidade de criar emprego. Ainda será preciso fortalecer as equipas de prevenção de incêndios, reforçando o recrutamento de guardas-florestais e vigilantes para a Rede Nacional de Postos de Vigia, para boa vigilância da floresta. Particularmente o reforço de meios humanos e materiais dos serviços florestais será decisivo para manter a imprescindível vigilância. É necessário assegurar aos serviços florestais a possibilidade de efetivar a fiscalização. Concomitantemente, e sabendo-se que grande parte dos fogos tem origem criminosa, caberá fortalecer a articulação da Polícia Judiciária e da GNR no sentido preventivo. Depois, convirá que se pense a reflorestação do território ardido considerando, designadamente, as diversas Quercus, espécies mais resistentes ao fogo e próprias de uma floresta natural..Por fim, se apreender os problemas do país, é essencial para definir as políticas públicas mais adequadas, sendo o setor agrícola e florestal absolutamente estratégico, importa promover uma visão patriótica que defenda o pequeno proprietário agrícola e florestal, permitindo-lhe, com um conjunto de incentivos, manter as terras e, até, voltar a atrair pessoas e famílias migradas para o litoral ou até para fora do país. O que está em causa é o nosso modelo de desenvolvimento e saber se queremos ou não salvaguardar equilíbrios sociais e territoriais fundamentais..Professora universitária