Uma mancha na Ordem e Progresso

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Foi com um enorme sentimento de tristeza, mas também com grande preocupação, que todos os democratas, por certo sem exceção, viram na tarde de domingo as imagens de profanação das instituições representativas da democracia brasileira.

As últimas eleições no país irmão trouxeram um significativo conjunto de desafios ao novo executivo, alguns deles apontados há tempos num outro artigo aqui publicado. Desses, o cerzir do fosso escavado entre os apoiantes do antigo Presidente e do atual foi o mais flagrante.

A enorme participação dos brasileiros no ato eleitoral demonstrou que o povo está atento e preocupado com os rumos do país. Só assim se justificam os mais de 100 milhões de votos contabilizados nas eleições presidenciais.

Pondo de parte as orientações partidárias, a questão que aqui se coloca é bem mais complexa do que a simples opção por uma ou outra alternativa. Portanto, não se assistiu a uma disputa eleitoral mas sim a um grave ataque à democracia. O Brasil viu-se defronte de uma violação do "território sagrado" que representa a sede da Nação.

Este ato ignóbil deve, assim, ser repudiado por qualquer democrata que se preze, seja esse de esquerda ou direita. Os sinais já vinham sendo mais ou menos óbvios, desde a forma como os resultados das eleições foram contestados ou através do empoderamento e representatividade das forças de segurança, que deixaram vivo o fantasma da ditadura militar.

Aliás, a gravidade do que se passou na Cidade de Dom Bosco é maior porque tende a ser desvalorizada. Porquê? Porque não teve os contornos do que se passou mais a norte, porque já tinha acontecido a tomada de posse e porque foi controlada.

Os acontecimentos no Distrito Federal são de uma gravidade atroz. Mais não seja porque transmitem uma ideia de permissividade inaceitável que deve ser combatida com toda a energia e empenho, do brasileiro comum às forças de segurança.

Em linha com as ações despoletadas após o 6 de janeiro no Capitólio, em Washington, será agora necessário que Brasília tenha punho de ferro com os prevaricadores da instituição democrática, sejam esses estrategas ou executivos.

Posteriormente, será possível refletir e continuar o caminho de salvaguarda e fortalecimento da democracia local e mundial. O que está em jogo são valores demasiado elevados: trata-se das conquistas mais importantes da história moderna, tais como direitos básicos e liberdades que permitirão às gerações vindouras perceber a história de um modo livre e crítico.

Num e noutro caso, pessoas armadas e conduzidas por falsas esperanças e ódios foram levadas a uma invasão da Casa da Cidadania de cada uma destas grandes nações. O propósito, esse, foi o mais obscuro e intolerável: silenciar e derrubar um governo democraticamente eleito através da força das armas, usando para o efeito escudos humanos.

Cabe agora a todos os amantes da democracia, com coragem e convicção, juntarem-se em prol do Estado de Direito e das Liberdades que a maioria ocidental considera adquiridas. Pelo nosso futuro, que assim seja!

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