A crise europeia terá muitas razões e responsáveis, mas a patente pela estratégia que lhe dá combate, desde final de 2009, é inteiramente do Governo alemão. A pequena mancha grega alastrou-se, sob diferentes matizes, à Irlanda, a Portugal, a Espanha, à Itália, ao Chipre, mas os defensores da via germânica, sejam eles Hans-Werner Sinn, Jens Weidmann, ou António Borges, não se comovem com os factos, e agarram-se ainda mais aos princípios fundamentais da União Económica e Monetária, tal como esta foi lançada pelo Tratado de Maastricht. No fundo, o que está em causa é saber se os Estados membros da Zona Euro podem continuar a viver sem soberania própria no que respeita à política monetária e cambial (hoje na esfera do BCE), permanecendo em regime de competição virulenta no que respeita à dívida pública (veja-se como a Alemanha paga juros negativos pela sua dívida, devido ao medo dos aforristas dos países da periferia) ou à fiscalidade (o exemplo da Holanda absorvendo os impostos das melhores empresas portuguesas...). A resposta federal implicaria alargar a partilha de soberania iniciada em Maastricht, conduzindo a uma União política e a uma verdadeira governação económica, com o primado da solidariedade sistémica. A resposta alemã quer manter tudo como está, aprofundando a hierarquia entre os países e conduzindo a brutais perdas de rendimento e qualidade de vida de centenas de milhões de europeus. O obstáculo ao federalismo é a timidez de uma "classe política" imatura e inculta, e a passividade de uma opinião pública aturdida e assustada. Mas o obstáculo à liderança alemã chama-se realidade objetiva. O problema é que essa liderança habita numa nuvem ideológica que a protege da dinâmica das coisas. Quando a nuvem se dissipar o choque será tremendo.