Uma grotesca comédia de Verão

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N'A Morte de Danton, produção que o Teatro da Garagem apresentou em Março passado, Carlos J. Pessoa pastoreou o seu radical pessimismo - político e artístico - por infernos tão doentios quanto exuberantes (horizonte adequado ao olhar provocatório que, na peça, Georg Büchner lançara sobre a Revolução Francesa).

A descompressão chega com recém-estreada Comédia em 3 Actos, recuando Pessoa - já sobre texto seu - para o terreno da comédia, que domina com mestria. Não se espere, porém, um espectáculo leve, de riso fácil. Nas mãos de Pessoa, este género teatral a que regressa ciclicamente torna-se "tragicomédia", reinvenção da existência humana contemporânea numa vertigem textual e gestual de tons opostos.

Há neste espectáculo, todavia, uma característica nova: à alternância entre grotesco circense e sublime onírico - paradoxo sempre amplificado pela música acutilante de Daniel Cervantes - junta-se agora uma suavidade magoada, mais madura e, como nunca, atenta à fragilidade de personagens genuinamente confundidas.

Os três actos funcionam, aliás, como variação de uma fala que surge no primeiro deles: "Continuo sem soluções e suspeito fortemente que não existem soluções." E as situações são, também, análogas: em todas existe um casal em luta, entre a ingenuidade tola e o enfatuamento (1.º acto), entre a posse material e a paixão carnal (2. acto) e entre a vitalidade da juventude e o cansaço da velhice (3.º acto). Acede-se a cada um dos actos mudando de espaço - ao estúdio do Teatro Taborda sucede-se a varanda com vista para a cidade e o auditório principal -, e esta deslocação do público brinca com a sua condição de voyeur, que espreita intimidades, organizando ainda o adensamento da trama, como se esta, à semelhança da vida humana, ganhasse espessura com a mudança.

No acto final é comovedoramente belo, aliás, o apagamento do palhaço velho - composição humaníssima de Fernando Gomes - face à exuberância cruel, quase felliniana, do palhaço jovem de Ana Palma (pareceu--me rever Gelsomina, de La Strada, no excesso surrealizante trabalhado pela actriz, mescla duma incongruência gestual poética e duma transbordante energia ingénua). O pateta inchado de Miguel Mendes, no 1.º acto, a fortíssima fisicalidade do par Carla Bolito/Fernando Nobre, no 2.º, as cenas pobres em que brilham adereços estridentes e encantatória música de Cervantes completam este retábulo de enormidades que nos espelha mais do que desejaríamos. |

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