Uma família americana no Faial

Três gerações de cônsules e novos hábitos marcaram o Faial  e a Horta no século XIX. Desse tempo restam algumas casas e cartas diversas - que agora ganham nova vida em livro.<br />
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Carlos, o coveiro do Cemitério do Carmo, não sabe onde está "aquela família americana famosa que viveu no Faial há muitos anos". Olha em volta. "Talvez nas traseiras da igreja, onde estão os estrangeiros", sugere. Mas pelo sim pelo não liga à chefe, que "está de baixa". A resposta não se fez esperar: "ó Carlos é no cantinho lá em cima." "Vamos lá", diz vitorioso o homem de feições rudes. A informação leva-nos a trepar ainda mais no íngreme cemitério - que, ao longo dos anos se vem expandindo numa privilegiada encosta. No mais recôndito canto na zona "antiga" do cemitério estão os Dabney. São sete pe- dras tumulares que marcam o derradeiro descanso de 14 membros da família. Com uma vista privilegiada sobre a Horta e a vizinha ilha do Pico.

O coveiro também se debruça sobre aquelas pedras diferentes de todas as outras com que já se habituou a conviver. A língua é um obstáculo e todas as placas estão em inglês. Mas Carlos parece satisfeito a observar a curiosidade da jornalista que lhe quebrou a rotina de uma tarde quente de Setembro. Ajuda a afastar os arbustos que crescem viris e mostra onde está cada uma das pedras.

Os Dabney viveram no Faial de 1806 a 1892. Hoje poucos são os faialenses que sabem quem foram estes americanos que trocaram a agitação de Boston por aquela ilha recôndita no meio do Atlântico. E nem o facto de haver uma rua chamada Cônsul Dabney na planta da cidade da Horta agita os espíritos.

Ainda assim, no passado dia 16, o anfiteatro da Biblioteca Pública da Horta encheu-se para o lançamento do livro Os Dabney, Uma Família Americana no Faial (ver caixa). Na mesa, Mário Mesquita ("filho de um homem de São Miguel que nasceu no Pico e fez o liceu na Horta") entusiasmava-se: "Este livro dá-nos uma dimensão do vivido, do quotidiano, que não está sempre nos livros de história."

O livro resulta de um resumo dos Annais da Família Dabney do Faial, um conjunto de cartas e outros textos, compilados por Roxana Dabney, que durante anos tiveram circulação restrita no seio da família. Mesquita contrariou este destino. Em 1979, na sua primeira viagem aos EUA, descobriu os textos. Como jornalista, publicou uma série de artigos no Diário de Notícias em 1981. Actual administrador da Fundação Luso-Americana (FLAD), mal assumiu a pasta, pensou "em fazer qualquer coisa por esta obra". Primeiro uma edição mais acessível a um público mais lato, agora o projecto da edição em inglês para cruzar fronteiras para a qual pretende convidar a mesma equipa que trabalhou nesta edição: Maria Filomena Mónica e Paulo Silveira e Sousa. Fala-se num Museu Dabney no Faial. Há, entre as dezenas presentes, na sala um entusiasmo...

Foram três os cônsules Dabney que viveram na Horta ao longo de 86 anos: John Bass Dabney, Charles William Dabney e Samuel Willis Dabney (ver cronologia). Ricardo Madruga da Costa, historiador, definiu o século XIX no Faial como "o século Dabney". Esta família que, como notou Maria Filomena Mónica, estava "no topo do topo, eram a elite [em Boston] e vieram instalar-se numa ilha pobre", trazendo consigo novos hábitos, novos negócios e uma inusitada dinâmica. Estranhavam o facto de os locais não praticarem desporto - são algumas as fotografias dos jogos de ténis dos americanos -, introduziram muitas espécies de árvores, arbustos e frutos - há ainda na Horta belíssimos exemplares que chegaram com os Dabney. Quanto aos negócios, tudo assentava no estratégico tráfego marítimo, que o clã - primeiro orientado por um metódico John Bass - soube intensificar. Exportavam laranjas, vinho do Pico, óleo de baleia - usado para iluminação como o petróleo, por exemplo, lembrou Paulo Silveira e Sousa, investigador. Numa carta escrita ao filho Charles William em 1820, John Bass faz um "esboço" da sua vida com que pretende orientar o primogénito no mundo dos negócios: "Trabalho, método, decisão e perseverança são a minha divisa", escreve o cônsul, para quem sair da cama depois das 07.00 "é minar a saúde e a prosperidade". As cartas que Roxana Dabney juntou permitem-nos reconstruir não só o espírito dos Dabney como a vida da sociedade faialense.

Dos três cônsules, o que mais marcou os insulares foi Charles William. A inscrição na pedra tumular dá uma pista: "They called him the father of the poor" ("Chamavam-lhe o pai dos pobres".) Contam os escritos que pagou do seu bolso vários carregamentos de cereais para impedir a população de morrer à fome. Também ofereceu livros à biblioteca e ajudou os seus empregados.

Apesar deste bom relacionamento com os locais (especialmente na segunda geração), estes americanos do Faial não se terão envolvido com os açorianos e casaram- -se entre si. Uma excepção: Nancy Dabney, que se casou com José Avelar Brotero - apesar da resistência da família. Nos Annais da família, essa discordância fica de fora. Paulo Silveira e Sousa, que seleccionou os textos originais, refere que também não são compilados "episódios da concorrência comercial (que os houve)" e conclui que "este era um livro para a família, para enaltecer os Dabney."

Por isso não é de estranhar que um episódio que ensombrou a família não tenha sido referido: John White Webster, professor de Harvard - cujas filhas eram casadas com dois Dabney -, assassinou um colega e incinerou o corpo. O caso foi marcante: foram chamadas a depor 114 testemunhas, o processo demorou anos e Webster acabou por ser enforcado. O caso fez jurisprudência nos EUA. Nos Annais dos Dabney, nem uma referência.

Bill Dabney leu estes Annais "há muitos anos". É um dos descendentes destes americanos do Faial. Tem 76 anos e vive na Califórnia. Neto de John Pomeroy Dabney (um dos filhos de Charles William), esteve de férias no Faial em Abril de 2003 com a mulher, Valerie. O casal terá passado despercebido ao vigilante Carlos quando passou no Cemitério do Carmo, onde estão as campas do seu avô e bisavô.

"Toda a nossa vida ouvimos falar da história da família no Faial, gostámos muito da viagem que fizemos. É um local único e belo", escreve Bill no e-mail de resposta ao DN. Conta que espreitou as casas que os seus antepassados deixaram na cidade, o museu municipal, a biblioteca. Mas esta curiosidade pela história da família é cada vez menos partilhada pela nova geração: "Metade nem tem o apelido Dabney." Do "século Dabney" restam "alguns objectos espalhados por algumas casas" e a ideia de criar um Museu Dabney é para Bill muito clara: "Há objectos no Museu da Horta. O mercado é demasiado pequeno para suportar um museu autónomo..."

Os Dabney habitaram três casas na cidade - a (mítica) Bagatelle, a Fredónia e a Cedars - e tiveram duas casas de veraneio - a casa do Monte da Guia, em Porto Pim, e a Toca das Galinholas, na freguesia do Capelo (já destruída). No riquíssimo álbum de fotografias da família - de que existe uma reprodução na Biblioteca da Horta - são várias as imagens das imponentes e estranhas construções, que chamaram a atenção de Maria Filomena Mónica (ver entrevista).

"Esta casa é conhecida entre os faialenses como a Cedars House mas ninguém a conhece como a casa dos Dabney", conta-nos. Maria Antónia abre a porta da actual casa do "senhor presidente da Assembleia Legislativa Regional dos Açores" no topo da Rua Cônsul Dabney, esquina com a Marcelino Lima. Uma vista soberba sobre o Pico e uma casa transformada para as necessidades do século XXI. Mas as belíssimas janelas de guilhotina, o chão de tábua de madeira (debruado a basalto na sala de jantar), os resquícios daquilo que terá sido um "sistema de ventilação próprio" - hoje ar condicionado - levam-nos de volta ao tempo das noites de piano e aos dias de intensa actividade comercial no porto do Faial, mesmo ali ao alcance do olhar. Nas fachadas laterais, as janelas hexagonais, as chamadas bay windows, hoje presença em muitas casas da Horta. Ao lado, uma gigantesca e secular bela-sombra, árvore que conheceu certamente os americanos...

Descendo a rua, no 60, outra morada da família. Chamaram-lhe Fredónia. "A casa foi comprada nos anos 70 por uma instituição que albergava crianças órfãs à Cable and Wireless [empresa que trabalhou os cabos submarinos de comunicações que passavam no Faial] por 75 mil escudos", conta Eduardo Pereira, director do actual Lar das Criancinhas da Horta. Em 1996 os grandes salões dos Dabney foram divididos em salas de aula ou refei- tórios mais modestos. Um milhão de euros de obras que não apagaram todos os vestígios do passado: o chão da entrada, em xadrez preto e branco, duas lareiras. "E queremos recuperar a fachada", assume o responsável que "há três ou quatro anos" recebeu duas "netas dos Dabney" para uma visita guiada.

A Bagatelle, primeira casa que a família americana habitou na ilha, também na Horta, não é visitável nem sequer facilmente visível. A vegetação (as primeiras sementes serão do tempo dos americanos...) tomou conta dos terrenos que circundam a casa. Uma mata descon- trolada que toma conta do palacete. Do portão da Rua de São Paulo, apenas se vêem árvores, arbustos e um gato vadio desconfiado. Contam-nos que a Bagatelle está à venda por um preço exorbitante e que "marginais e toxicodependentes" lá se instalaram. O telhado da casa cor-de-rosa é visível de alguns pontos da cidade, ao longe. Tão longe quanto a maioria dos faialenses está desta família que durante anos mobilizou a vida dos seus antepassados.

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