Este pode ser um fim de ano atribulado, na cena internacional. Há três grandes crises à porta - o Irão, a Rússia e a nova variante da pandemia. Estas coisas tendem a rebentar na pior altura, quando os políticos andam a celebrar as festas, a esquiar na neve ou a apanhar sol longe dos gabinetes. Dizer que se vai entrar num período em que muito pode acontecer não é pessimismo. É apenas sinal de que se está atento a uma realidade particularmente complexa..Comecemos pelo Irão. O debate desta semana no Conselho de Segurança da ONU, sobre o programa nuclear iraniano, mostrou que não existem condições para fazer renascer o acordo assinado em 2015 entre Teerão e os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança, mais a Alemanha e a União Europeia. Os EUA continuam a impor um regime extremamente apertado de sanções económicas. E apesar do Irão se ter voltado para a China, a verdade é que as sanções americanas têm um impacto enorme..Por outro lado, o novo governo iraniano tem estado a acelerar o seu programa de enriquecimento de urânio, em clara violação do Plano de Ação de 2015. Neste momento, já acumulou suficiente material físsil para poder produzir várias armas nucleares. Em simultâneo, acelerou a produção de mísseis balísticos e de meios aéreos capazes de transportar uma carga nuclear. Tudo isto é muito grave e levanta muitas bandeiras vermelhas nos sítios do costume..Na altura da reunião do Conselho, os representantes permanentes da Alemanha, França e Reino Unido junto da ONU publicaram uma declaração conjunta para exprimir a profunda preocupação dos seus governos. A frase final dessa declaração diz tudo: "A contínua escalada nuclear do Irão significa que estamos a chegar rapidamente ao fim da estrada". Uma afirmação destas envia o sinal de que em breve será altura de optar por outras soluções, para além da diplomacia. A probabilidade é agora mais forte..No que respeita à Rússia, o Presidente Putin reuniu-se na quarta-feira com o seu homólogo chinês, Xi Jinping, por videoconferência. O principal objetivo parece ter sido mostrar uma frente unida contra os ocidentais. Seria ir longe demais, se se visse nesta cimeira um esforço de coordenação para ligar a tensão à volta de Taiwan com uma possível ofensiva dos russos contra a Ucrânia. Os calendários não são coincidentes, não é credível pensar em operações simultâneas. Até porque a resposta americana seria diferente, num caso fundamentalmente económica e financeira - contra a Rússia - e no outro, com meios militares..De qualquer modo, a ameaça mais imediata continua a ser a russa. Vladimir Putin tornou o prenúncio ainda mais real, ao falar de "genocídio", que estaria em preparação contra a população etnicamente russa do leste da Ucrânia. Essa seria a justificação para uma intrusão militar, uma invenção fácil de propagandear internamente e nalguns círculos internacionais..Entretanto, Putin voltou a insistir esta semana na urgência de conversações com os americanos e a NATO. Para quê? No essencial, para que o ocidente aprove as exigências de Moscovo e a sua visão das relações geopolíticas com a Ucrânia, a Geórgia e a Moldávia, entre outros. Washington e Bruxelas não parecem dispostas a aceitar essas imposições. O que significa que a tensão irá continuar e a possibilidade de uma ação de desestabilização na Ucrânia é bastante elevada..O Ómicron está igualmente a complicar o final do ano. Para além das dimensões sanitárias, tem sérios custos económicos, numa altura em que os Estados mais desenvolvidos conhecem níveis excecionais de dívida pública e de défice orçamental. Tem, igualmente, em vários países europeus, um impacto político que não pode ser ignorado. As restrições a que obriga têm dado a oportunidade a segmentos da direita radical europeia de se mobilizar. São grupos minoritários. Mesmo assim, preocupam as lideranças democráticas dos países onde isso acontece. A pandemia e os negacionistas lembram-nos que o combate contra os radicalismos não pode ter tréguas. Nem mesmo durante a época das Boas Festas.. Conselheiro em segurança internacional. Ex-secretário-geral-adjunto da ONU