Amuito aguardada primeira encíclica do Papa Bento XVI, Deus caritas est (Deus é amor), foi apresentada ontem de manhã na Sala de Imprensa do Vaticano, diante mais de 600 jornalistas, provenientes de todas as partes do mundo. O porta--voz do Vaticano, Joaquín Navarro, chamou-lhe um "acontecimento mediático extraordinário", e não estava a exagerar a expectativa é imensa e as palavras de Joseph Ratzinger irão ser escrutinadas até ao mais ínfimo pormenor..Assinada pelo Papa no dia de Natal, nove meses depois da sua eleição, a encíclica tem 73 páginas, e 42 parágrafos, e já está disponível em língua portuguesa no site do Vaticano (pode encontrá-la em www.vatican.va/latest/latest_po.htm)..Está dividida em duas partes. Na primeira, mais teológica, aborda o tema do amor divino, aprofundando o significado da palavra "eros" e recusando dissociá-la da dimensão religiosa. Na segunda parte, mais prática e mais política, analisa os conceitos de caridade da Igreja e de justiça social, clarificando o papel dos católicos nessa batalha. É aí também aprofundada a distinção entre Estado e Igreja, instituições que o Papa entende deverem permanecer autónomas, mas mantendo sempre uma relação recíproca..A linha do pontificado.Para Alberto Bobbio, especialista em assuntos do Vaticano da Famiglia Cristiana - revista com que a Deus caritas est será vendida no próximo número -, esta é "uma encíclica que define a linha do pontificado de Bento XVI". "Não é uma agenda política, religiosa ou eclesial, mas entra no programa central do cristianismo, a religião da caridade, do amor, da compreensão e não da lei", acrescenta Alberto Bobbio..O cardeal Saraiva Martins, prefeito da Congregação da Causa dos Santos, concorda com esta opinião "A Deus caritas est é sobre o núcleo central do cristianismo, é como um chamar de novo às raízes do povo cristão." "Não é uma encíclica fácil de perceber imediatamente", admite o cardeal português no Vaticano, "mas será certamente explicada nos sermões, nas revistas, nos jornais. Não precisamos de ter medo da complexidade das palavras, precisamos é de saber explicá-las"..Para Saraiva Martins, a encíclica reflecte também a "linha do pontificado" de Joseph Ratzinger. "O seu estilo é muito diferente do de João Paulo II, que escrevia encíclicas com muito mais páginas, mas muito mais acessíveis, porque explicava tudo. Esta encíclica afasta-se desse padrão. Diz apenas o essencial sobre a fé cristã, o amor, a caridade.".Elogios e críticas.Uma das maiores provas de que a primeira encíclica de Ratzinger pode vir a ser bem acolhida por vários quadrantes é o apoio que lhe foi concedida pelo teólogo suíço Hans Küng. Recorde-se que Küng foi afastado da sua cátedra pelo actual Papa e foi um crítico da sua eleição. No entanto, aplaudiu a Deus caritas est por não ser "um manifesto de pessimismo cultural ou de moral sexual restritiva sobre o amor". "Pelo contrário", diz Küng, "ela afronta os temas centrais da actualidade, tanto sob o ponto de vista teológico como antropológico"..O "teólogo rebelde" exprime, ainda assim, o desejo de que o Papa possa "intensificar o diálogo com grupos marginais que se afastaram da Igreja". Nesse sentido, ele considera ser necessária uma segunda encíclica sobre "as estruturas de justiça da própria Igreja, sobre o papel dos protestantes e anglicanos e sobre a relação de amor com divorciados, com quem se voltou a casar ou com padres que deixaram o sacerdócio por causa do voto de celibato"..Mas nem todos concordam com esta encíclica. Franco Grillini, deputado dos Democratas de Esquerda e presidente da Liga dos Homossexuais italianos, condena a "ideia de que somente o amor entre o homem e a mulher possa ser o arquétipo do amor por excelência, e que no confronto todos os outros sejam condenados ou sem valor".."Não é verdade que outros amores não tenham o mesmo valor", declarou Franco Grillini. "Hoje, a sexualidade tem uma grande autonomia do amor, o prazer sexual é um valor em si mesmo, tem uma enorme importância. Sensualidade e prazer podem coexistir sem ter de ser dentro de um matrimónio.".Sabina Castel Franco, vaticanista da CBS, tem outras críticas a fazer "Não creio que esta encíclica tenha abordado o tema como poderia. As palavas são complicadas. É sem dúvida uma grande obra filosófica e teológica, mas o comum mortal não percebe metade das palavras."