Madalena nunca esperou estar aqui hoje, à beira de cumprir ano e meio como presidente de uma freguesia que comporta quase uma centena de nacionalidades distintas e que desde a sua criação estava nas mãos do PS. Juíza social, nascida em Moçambique de mãe africana e pai português, retornada em 1977 e chegada a Lisboa com dois anos, cresceu num bairro de lata - "era aquilo tudo que hoje é o Parque da Bela Vista e, apesar de pobre, tive uma infância tranquila", recorda com saudade. E explica: "Tínhamos sapatos, mas eram da feira - ainda outro dia lembrávamos, entre amigos, que, quando precisávamos de uns sapatos melhores, íamos ali à Rosa Branca, na Morais Soares. Nunca passei fome, mas se queríamos água canalizada tinham de se juntar os vizinhos e tratar disso, as pessoas entreajudavam-se muito na comunidade. Éramos todos pobres mas tínhamos sempre alguma coisa para partilhar. Era um espírito incrível.".Relata esses tempos de sorriso sincero no rosto, à mesa do restaurante do 1908 Lisboa Hotel, que nasceu num dos antes degradados edifícios do Largo do Intendente, agora orgulho dos moradores de Arroios. A traça do edifício clássico de Art Nouveau manteve-se e liga na perfeição com o design contemporâneo que pinta a decoração, onde há até obras de Bordallo a dar vida nas paredes. "Foi um casal novo que abriu isto, muito simpático e boa onda", conta-me quando elogio a mesa colorida de frutas (papaia, melão e uvas), queijos e enchidos, pão, croissants e bolos, com sumo de laranja, café e chá a acompanhar. Ao domingo há mesmo brunch, à medida dos turistas, sobretudo nórdicos, que ali se juntam atraídos pela multiculturalidade do bairro, onde se escutam conversas numa profusão de idiomas.."É uma freguesia muito grande", legenda Madalena Natividade, mostrando o seu conhecimento de autarca enquanto enumera os supostos 32 mil habitantes da freguesia, que se materializam numa realidade de 50 mil pessoas, muitos deles imigrantes que vão subindo da vizinha Santa Maria Maior. "Só de uma vez vieram 400 timorenses para Lisboa e ficaram na rua ou em tendas", conta, explicando um problema por vezes agravado por ativistas que os aconselham a não sair da rua porque é obrigação da câmara dar-lhes casa. Diz Madalena que as condicionantes da sua infância lhe servem para o que vive hoje, lhe dão bagagem, força e motivação para procurar soluções. "Há pessoas que fazem dramas por nada e não sabem o que é um problema. Eu consigo relativizar." E isso é uma vantagem, a par do espírito prático.."Nós vamos tentando resolver os casos, falando com o Centro Nacional de Apoio à Integração de Migrantes (CNAIM), com o SEF e PJ... para a situação não se agravar. Porque muitos querem trabalhar, mas não podem porque não têm NIF nem estão inscritos na Segurança Social." Madalena acredita que o recente movimento de regularização de documentação pode, esse, sim, ajudar. A par do programa de habitação da cidade - ela própria aguarda os resultados de um levantamento de edifícios devolutos na sua freguesia, que quer reabilitar de forma a dar resposta a estes casos, mas também para dar seguimento a projetos como o centro intergeracional, o infantário, o pavilhão desportivo para os mais novos..Antecipa o que poderá fazer agora na condição de presidente da junta. "Enquanto assistente social, a trabalhar com pessoas com problemas de alcoolismo, já tinha essa ligação à junta, mas não fazia ideia do trabalho que isto dá", confessa.."A noite eleitoral foi incrível", recorda Madalena Natividade. "As mesas de voto fecharam às 19 horas e 20 minutos, depois já eu recebia chamadas a dizer que tinha vencido, sem acreditar que fosse verdade. Na sexta-feira anterior, tinha-me despedido da minha diretora até segunda e tive de lhe ligar a dizer que afinal não ia poder voltar para já", ri-se. "Em campanha, tinha bons barómetros, as pessoas mostravam que queriam mudança, não queriam ali pessoas que não interessavam, mas nunca pensei que isto fosse possível. Aliás, quando cheguei à sede, pelas 20h00, os gráficos ainda me mostravam a perder, mas de repente aquilo deu a volta e eu lá liguei para a família a contar: "Olha, ganhei a junta!"".Não é orgulho, é reconhecimento que mostra, por quem votou nela, e sente-se devedora daqueles que confiaram que faria diferente, melhor. A sua marca quer que seja o da "presidente que trabalhou para as pessoas, que está aqui todos os dias para as pessoas", sublinha. E isso cumpre-se melhor neste poder de proximidade. "Estamos mais perto, conseguimos entender concretamente o que as pessoas precisam. E há coisas simples que conseguimos proporcionar e com isso transformar vidas", diz, exemplificando com a senhora que recebeu um esquentador e pôde voltar a tomar banho e encontrar emprego ou a família que conseguiu finalmente ter um colchão para dormir..Também há temas mais complexos, que implicam respostas coordenadas com outras instituições: "50 mil pessoas fazem lixo, há situações de violência, de ruído, mas se todos remarmos para o mesmo lado, se conseguirmos trabalhar juntos, há sempre soluções." O mais complicado, garante, é a prioridade que assume de manter os funcionários, muitos deles ali há décadas, motivados. "Esforço-me por ver se podem ir mudando de ares, desempenhar outras tarefas, puxo por eles como posso", conta..É a nova encarnação da miúda que queria ser "uma espécie de justiceira". "Achava que tinha de dar algo à comunidade, mas sempre me vi como assistente social, ou advogada, ou juiz... a política nunca me passou pela cabeça." Aos 14 anos chegou a pensar no jornalismo, mas a angústia do pai a imaginá-la em cenários de guerra afastou-a desse caminho, acabando por levá-la a uma associação de serviço social da Santa Casa da Misericórdia..Não tem recordações da sua vida em Tete, onde o avô era régulo e ainda resiste uma povoação com o nome dele, Matambo, ali a chegar ao Songo (onde fica a Barragem de Cahora Bassa). E o que viu nas férias que a levaram de volta ao país onde viveu os primeiros dois anos da sua vida, em 2000, para tornar a ver o avô, não a convenceu. "A minha família lá continua a ter uma boa vida, boas condições - o avô, como bom africano desse tempo, casou as filhas com portugueses, para garantir que tinham o melhor -, mas fez-me confusão ter pessoas a servir-me e aquela extrema pobreza, a corrupção... Não me via a viver lá", resume. Ainda assim, admite que tem o sonho de um projeto social em Moçambique, quando se reformar, direcionado para os adolescentes, para lhes dar mais ferramentas..O pai, 24 anos mais velho do que a mãe, estava em Moçambique pela Força Aérea, onde dava formação, e foi lá que nasceram os dois irmãos mais velhos, Madalena e a irmã mais nova, um a cada dois anos. Vieram os seis para Lisboa na vaga de retornados, pela certeza de aqui poderem ter mais do que lá, nem que para isso, além do trabalho do pai, a mãe tivesse de fazer limpezas entre as 6h00 e as 9h00. A ida para a escola era gerida pelo mais velho, que deixava as irmãs no Colégio Menino de Deus e seguia depois com o irmão para a pública, tudo ali nas redondezas. "Uma infância muito feliz.".Foi já casada - o marido de há 25 anos e pai de Martim, de 19, técnico de ar condicionado, era o melhor amigo do irmão - e foi a trabalhar que decidiu dar seguimento ao projeto de tirar o curso de Ação Social. "Não queria ser administrativa da SCML toda a vida", explica, mas o único curso na pública era nos Açores, pelo que teve de esperar um par de anos até ver abrir a licenciatura na Lusófona e entrar. O curso estava a estrear-se e tinha 13 pessoas, só uma delas um homem. "E foi fantástico porque tivemos imensa atenção, uma formação brutal, foi uma oportunidade única e ainda temos ligação uns com os outros e até com os professores." O estágio foi cumprido no Hospital do Desterro e uma mão-cheia de anos mais tarde conseguiu entrar na sociedade antialcoólica portuguesa. Estava encontrada a vocação a que se dedicaria durante 11 anos.."Ainda me dizem hoje que têm lá o meu lugar guardado à espera. Eu respondo que nos próximos dois anos e meio não dá, mas fico feliz por gostarem de mim." Se não fosse o "convite inesperado" num momento de "circunstâncias irrepetíveis" e provavelmente não se teria metido nesta aventura. "Nunca estudei nem me envolvi com política, exceto uma experiência que correu muito mal no arranque do partido do Marinho e Pinto - não me identificava com aquilo", explica, juntando que toda a sua família, ela incluída, se identifica mais com a matriz democrata-cristã. Foi talvez por isso que, apesar de nunca poder prever o convite que lhe dirigiu Diogo Moura (CDS), acabou por aceitar. "A coligação Novos Tempos por Arroios procurava um perfil de candidato: mulher, não branca, da área social e politicamente independente." Era o retrato de Madalena. "Eu não sabia nada disto", diz ainda, apesar de ter a competência mais importante para o cargo que assumiu, quando venceu por 488 votos e conquistou Arroios: "O principal é trabalhar para as pessoas, estar ali para garantir o bem-estar delas.".É mesmo por isso que tem lutado e com algumas conquistas assumidas. Como ter sido bem-sucedida no alojamento das pessoas que ocupavam 32 tendas - argelinos, marroquinos, timorenses, etc. - à porta da Igreja dos Anjos. "Sentámos todos à mesa: SEF, Migrações, PJ, PSP Polícia Municipal, CML, junta e associações. E vimos todos juntos o que cada um podia dar e fazer. E conseguiu-se - pusemos pessoas em apartamentos ou equipamentos sociais, agilizaram-se papéis, distribuímos cartas e agora estamos a reabilitar o jardim. Aquelas pessoas tiveram resposta e os fregueses vão ter um jardim bonito.".A batalha que se segue é o lixo, acumulado por cultura e maus hábitos - alguns decorrentes dos medos da covid. "Preparámos uma campanha que envolve membros da comunidade de seis nacionalidades, incluindo portugueses, bangladeshis, chineses, etc., para sensibilizar todos para a necessidade de tratar adequadamente o lixo", explica Madalena..No termo do tempo, o seu legado qual será? "Quero deixar uma forte marca na intergeracionalidade. O trabalho com os extremos é superprodutivo para a comunidade, ajuda muito os mais velhos e as crianças e acaba por puxar todos. É como o teatro de bairro: toda a gente da família se envolve, da avó costureira ao pai que faz palcos, passando pelos que levam os salgadinhos." E está preparada para, se for o caso, renovar o mandato em 2025? "Isso agora... eu nem sei como vai acabar a semana", ri-se.