Recentemente (2015), Ian Kershaw, cujo primeiro livro foi traduzido e publicado pela D. Quixote, com o nome À Beira do Abismo, inicia a introdução com o título "A era da autodestruição da Europa", e depois, ocupa-se do período entre 1914-1949. O segundo prometido volume não vai certamente ser mais animador, porque com um intervalo entre duas guerras mundiais, as mais destrutivas na crónica dos confrontos armados, a prometida decisão, para um novo futuro, foi a promessa de "nunca mais", de que este inquieto 2017 não confirma a esperança. Bastou a colocação em quase pousio da ONU por Pactos Militares da, com espírito apaziguador, chamada Guerra Fria, para que o anúncio se transformasse em utopia. Parecia suficiente, a um observador não necessariamente otimista, a estatística da mortandade da guerra de 1914-1918 para esperar que a referida decisão fosse lembrada e prosseguida. De facto, não apenas a seguinte guerra mundial multiplicou o desastre, como a Guerra Fria, que se lhe seguiu, ameaça ser o prefácio da evolução agravada para a chamada "arena mundial" em que o mundo se encontra. Para avaliar o risco já era suficiente, entre muitos outros, a averiguação do calvário que Svetlane Aleksievitch, Prémio Nobel que escreveu a tragédia do que chamou, como consequência da segunda guerra, O Fim do Homem Soviético, para depois contribuir com autenticidade para desanimar as esperanças de evitar, com o realismo inigualável do seu Rapazes de Zinco, as chamadas "novas guerras". Mary Kaldor, num notável trabalho, já de 1999, que chamou New and Old Wars, esclarecia este novo complexo panorama, em que com frequência uma organização não estadual desafia a majestade da soberania clássica. Ao contrário da ilusão que homens, verdadeiros estadistas, assumiram, depois da guerra de 1939-1945, com o seu repetido programa de "nunca mais", são resistentes as leis da história que mostraram como o crescimento de qualquer novo poder é desafiante e não bem-vindo, tendo-se tornado mais inquietante, pela abusiva utilização dos avanços científicos e técnicos, não para apenas melhorar a condição humana, mas para fazer somar aos conflitos político-militares, a exploração abusiva dos recursos do cada vez mais esgotado planeta que é a Terra. Os projetos estaduais de renovação das capacidades, a aquisição de posição dominante na hierarquia dos poderes, conhecidos ou desconhecidos, que orientam o globalismo, tendem mais para reformular as hierarquias internacionais do que para evitar que o globo se transforme na já chamada "arena global", numa época em que finalmente está em poucas mãos o poder de destruir a "casa comum" de todos os seres vivos. Um método que historicamente coloca um ponto final nas preocupações dos responsáveis pela regulação das dívidas mundiais, mãos que não são as que juntam a paz e a dignidade dos povos. Gostaria de relembrar que o furtado projeto de Constituição Europeia recusou referir o cristianismo. Todavia, a Declaração Universal dos Direitos Humanos, exclusivamente escrita por mãos ocidentais, grande parte herdeira da Escola Ibérica de Direito Internacional, está toda ela marcada pelo cristianismo, isto é, pelo Ocidente. Não pode por isso deixar de chamar-se a atenção para o facto de que, tendo a inovação Estado ocidental influência da Igreja Católica, os Estados muçulmanos recebem a influência de Maomé, e cada área cultural em crescente importância internacional exibe de regra dependências da mesma espécie. Por isso, o recordado Ian Kershaw, terminou a sua investigação em 1949 (fim do sovietismo), dizendo: "É muito tentador pensar no século XX europeu como um século com duas metades, talvez com um "prolongamento" depois de 1990. Este volume aborda apenas a primeira metade de um século extraordinário e dramático. Foi a época em que a Europa travou duas guerras mundiais, ameaçou os próprios alicerces da civilização e pareceu apostada em destruir-se". Talvez por isso tenha significado que, por cinco vezes, o Papa foi chamado a pregar na Assembleia Geral da ONU: Paulo VI, que deixou a mensagem de que "o desenvolvimento sustentado é o novo nome da paz"; por duas vezes João Paulo II, sofredor na sua Polónia, que é a Nação mais mal estacionada da Europa, aconselhando "não tenhais medo"; depois o Papa emérito Bento XVI, pedindo o regresso aos valores da dignidade humana; e agora o Papa Francisco insistindo na igualdade do género humano, no encontro de todas as religiões, no privilégio dos pobres, creio que em diálogo íntimo com São Francisco. De facto, é o imperativo de não consentir que o "credo do mercado" tenha supremacia sobre o "credo dos valores". Os valores que são património comum da humanidade, que exige substituir o combate pelo diálogo, a tolerância da diferença pelo respeito, a igual dignidade de cada homem. É tempo de a Europa erguer a sua voz em defesa da autenticidade.