Uma alternativa

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Empurrar os miúdos para longe de uma oportunidade de vida melhor. Foi assim que foi sempre vista a ideia do anterior ministro da Educação de alargar o ensino profissional ao básico - chamou-se-lhe vocacional porque o objetivo era que seguissem a sua vocação logo a partir dos 13 anos. Não haverá muitas pessoas que, com essa idade, sejam capazes de dizer o que querem fazer para o resto da vida, mas pais, professores e até os próprios miúdos cedo descobrem as suas áreas de interesse. Será assim tão perverso pretender que crianças que chumbem três vezes antes de chegar ao 10.º ano sejam encaminhadas para um tipo de ensino diferente? O verdadeiro problema nas regras que Crato criou foi o facto de serem importadas da Alemanha, e não devidamente pensadas à nossa medida e implementadas de tal forma que, em vez de se criar um gueto de onde os maus alunos nunca seriam capazes de sair, constituíssem uma verdadeira alternativa para aqueles que não gostam, não querem ou não podem adaptar-se ao ensino regular. Mas que lhes desse, no final desse percurso, os instrumentos necessários para que fossem capazes de competir em igualdade de circunstâncias - era preciso que o que aprendessem em teoria fosse suficiente para poderem, se assim o quisessem, concorrer à universidade; e que o que ganhassem em prática lhes desse efetiva vantagem e não fosse uma sentença de trabalhos menores e salário mínimo para a vida. Aos 13 anos, como aos 16, há mil e uma razões que se põem entre uma criança e os livros - inadaptação, um ambiente familiar deficiente, indisciplina, falta de interesse ou pura e simplesmente uma adolescência difícil. Cada chumbo traz mais uns metros de afastamento - de desinteressados passam a frustrados, a ignorados. Um sistema que lhes dê, durante algum tempo, lições não formatadas, enriquecidas com um lado criativo, mais prático do que académico, pode ajudá-los a sair dessa espiral. Mas tem de ser construído enquanto alternativa de qualidade e de futuro, e não como a sala dos fundos, onde se fecha os piores alunos para que não nos envergonhem ou empobreçam as estatísticas.

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