Os restaurantes - a sala, os ingredientes, os clientes que chegam e a quem ele se apresenta, perguntando o que querem beber - são o meio de acção em que António Oliveira e Silva, 50 anos, se movimenta com uma sedutora disponibilidade. Não se trata da simpatia plástica de um vendedor de enciclopédias, mas de um ofício pelo qual, aos 39 anos, abandonou a carreira de economista: "por vezes, chegava a casa de madrugada e punha-me a cozinhar para os amigos". .Para falar dos seus restaurantes é preciso falar dele. O seu último projecto, Casavostra, em Madrid, começou quando deixou um cartão à criadora do conceito da pizzaria Casanova, em Lisboa, mais conhecida como "as pizzas do Lux". Maria Paola Porru, também proprietária do Casanostra, no Bairro Alto, ligou-lhe. "Pensava que eu lhe queria vender uma casa", conta Oliveira e Silva, entre risos. Três dias depois, estavam no Algarve, onde ele abriria um pizzaria seguindo a ideia original de Porru. E, neste Verão, o mesmo aconteceu na capital espanhola..Desde o padrão dos guardanapos ao chá frio caseiro, a todos os pratos do menu, tudo se baseia na ideia inicial de Maria Paola - e no trabalho original dos arquitectos Manuel Graça Dias e Egas José Vieira. Mas foi preciso uma adaptação ao gosto dos madrilenos, que muitas vezes preferem estar ao balcão, a tapear, a beber e conversar. .Essa barra, como aqui se chama, tem um menu diferente da sala, mas mantém o rigor na qualidade dos produtos - que, tal como nas pizzarias de Lisboa e Algarve, chegam de Itália. Destacam-se os enchidos italianos, a trippa a la romana ou, entre as 15 tapas com mozzarela, o bocconcini com presunto de San Daniele. Sendo que as 35 pizzas da lista, feitas em forno a lenha, continuam a ser as grandes protagonistas. .Já a localização - um luxo numa cidade onde os preços não param de subir -, aconteceu por acaso. Um espanhol, cliente da pizzaria do Algarve, insistiu que Oliveira e Silva levasse o conceito para Madrid, dizendo-lhe que conhecia um lugar. Hoje, a Casavostra está no trendy bairro de Chueca, na vizinhança de bons restaurantes e com uma clientela jovem, internacional e exigente. .Picanha famosa.Oliveira e Silva conhece bem o mercado espanhol. Em 2000, já trouxera a Picanha - a mesma da Rua das Janelas Verdes e de Belém -, quando muito pouco se conhecia da gastronomia brasileira neste país; e abriu no mês do escândalo das vacas loucas. "Até tive vontade de chorar", conta. Mas agora é quase impossível arranjar mesa sem uma reserva, e no dia da nossa visita, os jogadores brasileiros Roberto Carlos e Emerson, do Real Madrid agitaram a sala por segundos com a sua entrada.. "Espanha é um mercado mais competitivo, as pessoas saem mais para comer fora, e gastam mais dinheiro", diz o empresário, avançando depois os planos para abrir mais cinco restaurantes em grandes cidades espanholas. .Com quatro meses, o Casavostra passou a fazer parte das sugestões permanentes do El País e, numa cidade tão voraz pela diferença e pela novidade, podem vir a repetir-se as filas que se tornaram comuns nas pizzarias de Lisboa e do Algarve. Mas não são as tendências que preocupam Oliveira e Silva: "No final, tudo o que é bom é que acaba por ficar."