Uma 'História de Portugal'

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Rui Ramos foi objecto de um ataque sem pés nem cabeça e não precisa de que eu o defenda para nada. Mas isso leva-me a recapitular aspectos de uma intervenção que fiz há dois anos sobre a História de Portugal que ele coordenou e de que é co--autor, com Bernardo Vasconcelos e Sousa e Nuno Gonçalo Monteiro.

No "Prólogo", Rui Ramos situa a problemática de que este livro se ocupa, dizendo-o "construído como uma narrativa que combina a História política, económica, social e cultural, de modo a dar uma visão integrada de cada época e momento histórico, ao mesmo tempo que in- tegra Portugal no contexto da História da Europa e do mundo".

O primeiro objectivo dos autores foi o de proporcionar a "todos os leitores" um texto "o mais legível e claro possível", incorporando os resultados mais recentes da pesquisa histórica. Mas o coordenador tem também o cuidado de esclarecer que o leitor que os autores imaginaram para esta História de Portugal "é um leitor exigente".

No leitor exigente deve supor-se um certo gosto por este tipo de leituras, uma capacidade de comprazimento naquelas qualidades que tornam certas obras de história "legíveis com prazer pelos não-especialistas", para recorrer a uma fórmula de John Burrow no final do seu imprescindível A History of Histories.

Esta História de Portugal é uma narrativa que beneficia de contributos de outras concepções da História e das mais variadas disciplinas, mas não perde de vista os seus próprios métodos e a sua própria exigência de rigor, não ignora a evolução política, os protagonismos individuais e colectivos e muitas outras circunstâncias, situações causais ou concomitantes, sequencialidades, factores sociais, culturais, económicos, enfim, enquadramentos nacionais e internacionais decisivos.

A síntese agora apresentada pelos três autores da obra, na linha de Orlando Ribeiro e de José Mattoso, não considera o país como um todo homogéneo, nem do ponto de vista geográfico, nem do ponto de vista humano, social e cultural. Dessa perspectiva, ressalta com nitidez que, das diferenças inerentes à própria heterogeneidade considerada, resultou um certo tipo de dinâmica nacional e que a nossa identidade colectiva, espelhando-a e incorporando-a a par e passo, tem origem na formação do Estado e evolui ao longo do processo político no decurso dos séculos. Outro aspecto importante é o de se mostrar com idêntica nitidez que, em Portugal, o grande momento de ruptura, o grande corte revolucionário com o passado, foi o correspondente à Revolução Liberal, com todas as modificações que acarretou para as instituições, para as mentalidades e para a sociedade.

José Mattoso sublinhou oportunamente, quanto a esta História de Portugal, "três novidades importantes, até agora ausentes das sínteses anteriores: a incidência da diferença regional sobre o decurso dos acontecimentos nacionais; a inserção da história portuguesa na história europeia e, sempre que foi possível, isto é quando existem informações fiáveis, a utilização de dados quantitativos globais, como os dados demográficos, o valor da exportações e importações, o PIB, e outros indicadores objectivos".

Desde Tucídides, pelo menos, que a grande História é também grande literatura. Mas não precisamos de recuar até aos Gregos e Romanos da Antiguidade Clássica. Temos excelentes exemplos intramuros, de Fernão Lopes, João de Barros e D. Francisco Manuel de Melo, a Alexandre Herculano, Oliveira Martins, Jaime Cortesão e Magalhães Godinho, isto para não falar dos vivos. Eu gostaria de aproximar a clareza da exposição e a limpidez do estilo conseguidas nesta obra desse exigente nível literário que gera no espírito do leitor o encantamento pela qualidade da prosa e uma equivalente avidez da leitura para saber, não como é que a história "acaba", mas sim como é que ela continua...

A historiografia faz parte do todo da cultura ocidental e não existe desgarrada dela, nem das preocupações que em cada época a caracterizam. Proporciona versões, visões, construções e até legitimações do passado das sociedades, analisa fontes e afina instrumentos para a sua com- preensão, fornece tópicos para muitas outras áreas da criação cultural, da epopeia ao romance, à pintura e à escultura, ao teatro e ao cinema, reelabora-se e renova-se sucessivamente, tendo presente o público do seu tempo.

Enfim, como Rui Ramos nos adverte, "a história também é importante para percebermos a nossa inerradicável pluralidade".

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