Um sultão que destituiu o pai e modernizou Omã

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Oreinado de Qaboos bin Said começou a 23 de Julho de 1970, com um golpe de Estado contra o pai sem sangue derramado. No primeiro discurso, a 9 de Agosto, garantiu aos súbditos a ruptura com o passado ditatorial do sultão Said bin Taimur.

"A abolição imediata de todas as restrições desnecessárias às vossas vidas e actividades será o meu primeiro acto", garantiu. "Ontem era a escuridão completa e, com a ajuda de Deus, amanhã será um novo dia para Mascate, Omã e o seu povo", prometeu então o novo monarca.

Trinta e cinco anos depois, viajantes e cronistas apenas diferem nos substantivos com que descrevem um país árabe onde se multa quem tiver o carro sujo, onde os relvados são mantidos com água do mar dessalinizada ou onde as mulheres estão na política.

Filho único, nascido a 18 de Novembro de 1940, em Salalah, Qaboos teve uma educação e formação (académica e militar) britânicas, tendo prestado serviço num batalhão de infantaria inglês (estacionado na Alemanha (durante os anos 60).

Antes de regressar em 1965 ao sultanato, que o pai mantinha num estádio de grande atraso e isolamento mesmo em relação aos países árabes vizinhos, Qaboos estudou também administração pública no Reino Unido e viajou pelo mundo.

As informações são contraditórias quanto ao regresso à cidade natal uns dizem que foi obrigado a regressar pelo pai, um absolutista que alegadamente receava quem tivesse estudos e que manteve o herdeiro virtualmente refém no Palácio de Salalah; outros falam apenas de seis anos de vida dedicados ao estudo do islão e da história do país.

Em 1970, muitos omanitas deixavam o território em busca de melhores condições de vida. Situado à entrada do estreito de Ormuz e já com dividendos do petróleo descoberto poucos anos antes, o Sultanato de Mascate e Omã era um deserto onde os habitantes não podiam circular livremente entre o interior e o litoral, estavam proibidos os rádios (para não ouvir o Diabo), só havia um hospital e três escolas em 300 mil quilómetros quadrados de país.

Chefe de Estado e de Governo de Omã, Qaboo optou por uma política assente em planos de de-senvolvimento quinquenais financiados com os lucros do petróleo. Até 1975, Qaboo derrotou a rebelião comunista e construiu 262 escolas ( muitas abertas às raparigas). Em 1986 inaugurou a Universidade com o seu nome - algo que sucede com quase todas as instituições da por muitos chamada "Suíça árabe".

Apaixonado por música, o oitavo descendente da dinastia Al Said - que governa há dois séculos e meio um território tornado independente dos portugueses em 1650 - ordenou em 1992 a construção da maior mesquita do mundo. Aí estendeu o Tapete dos Milagres, uma carpete persa de algodão com 4343 metros quadrados e 22 toneladas de peso tecida por 600 artesãos durante quatro anos.

Com uma economia de mercado e um sistema judicial assente na lei britânica e no islão, Qaboo tem apostado nos últimos anos no desenvolvimento do sector turístico e na procura de fontes de rendimento alternativas ao petróleo.

Mantendo boas relações diplomáticas com o Ocidente e com a China, apoiante dos EUA na luta antiterrorista, Qaboo é visto como um líder benevolente e generoso que contacta directamente os súbditos durante duas viagens anuais pelo reino. Reconhecendo as mulheres como "um pilar" do sultanato, criou uma assembleia de representantes do povo eleita por voto directo - não há partidos - onde elas têm assento.

"Apelamos a todas as mulheres, nas aldeias e cidades, tanto nas comunidades urbanas como rurais, nas colinas e montanhas, para arregaçar as mangas e contribuir para o processo de desenvolvimento económico e social... Temos grande fé nas jovens e educadas mulheres omanitas para trabalhar devotadamente (...) de forma a contribuir para a nossa Renascença Omanita, a qual exige o uso de todo o nosso génio nacional", assim falou Sua Majestade, num discurso sem precedentes nos reinos arábicos.

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