Quando perguntam a Raúl Peralta o que faz, ele responde, à sua maneira monocórdica e espartana: "Isto... espectáculo". O "espectáculo" a que ele se refere é a sua devoção fanática à figura de Tony Manero, a personagem de John Travolta em Febre de Sábado à Noite, que o levou a transformar-se num imitador do actor e a candidatar-se ao concurso televisivo O Tony Manero Chileno. E entre dois ensaios para o concurso, Raúl Peralta assassina friamente pessoas de idade para as roubar..Tony Manero, de Pablo Larraín, que é exibido hoje no IndieLisboa (Cinema City Classic Alvalade, 00.15, secção Cinema Emergente), passa-se no Chile, em 1978, ano da estreia de Febre de Sábado Á Noite naquele país. E cinco anos depois do golpe militar encabeçado por Augusto Pinochet, que derrubou o governo marxista de Salvador Allende que havia arrastado o país para o caos económico e social, e posto à beira da guerra civil..O filme, pesar de ser previsivelmente "anti"-Pinochet, não se limita nem esgota no discurso político de execração do regime militar chileno. Como o próprio realizador disse numa entrevista, a história deste sonho disco encardido e triste (Tony Manero é um dos filmes mais visualmente soturnos e "sujos" que nos passaram pelos olhos recentemente), e o próprio Raúl, não são "metáforas para o regime de Pinochet. Detesto quando os realizadores falam sobre metáforas porque é como se estivessem a manipular a audiência"..Mais do que tudo isto, Tony Manero é um filme sobre a identidade e sobre a ilusão do sonho americano visto do Chile, e como possível naquele Chile. Raúl acredita que pode mudar a sua vida através da dança e da personagem de Tony Manero. Apesar de, ironicamente, Alfredo Castro, que interpreta o assassino dançarino de disco, ser muito mais um sósia pobre de Al Pacino do que de John Travolta.