Escrever sobre Veneza - a Sereníssima - implica sempre um grande risco. Por um lado, porque não deve existir cidade que tenha merecido mais declarações de amor por parte de grandes escritores Lord Byron, Robert Browning, Henry James, Ernest Hemingway, a lista é infinita. Depois, porque o esplendor veneziano é propício a todo o tipo de exageros retóricos e pomposidades. Já ninguém tem paciência para a enésima descrição dos canais, das gôndolas, da acqua alta e da fachada lugúbre de um qualquer palazzo. .Ciente dos riscos, o poeta e crítico Eduardo Pitta não deixou, mesmo assim, de publicar em livro o seu diário veneziano (relativo a uma estadia de cinco dias, em Setembro de 2004) e convém desde logo destacar a sua coragem. Mais do que um caderno de apontamentos pessoais, Os Dias de Veneza apresenta-se como o "relato de um epicurista na cidade dos Doges". E é disso que se trata, literalmente o "epicurista" a exibir as suas idiossincrasias de bon vivant, tendo a "cidade dos Doges" como luxuoso pano de fundo. Quem estiver à espera de algo mais substancial do que as extravagâncias previsíveis de um dandy ávido de requinte, deve procurar noutro lado..Fiel ao sentido da visão que a epígrafe de Joseph Brodsky reivindica - "Porque esta é a cidade do olhar; as nossas outras faculdades limitam-se a tocar um débil segundo violino" -, Pitta demonstra ser um observador nato. Com desenvoltura, ironia e um estilo tão leve quanto escorreito, regista infatigavelmente o que se passa à sua volta. Atrasos, percursos, serviços, preços, molduras humanas - nada escapa ao escrutínio minucioso do turista exigente e por vezes cruel..Aqui e ali, Pitta deixa-se inebriar pelos belíssimos nomes italianos das ruas ou das igrejas e a escrita transforma-se numa espécie de toada cantabile ("Veneza é música e é luz", conclui na última frase do livro). O problema é que esta voz cai vezes de mais na armadilha da grandiloquência (o tal risco que mencionámos no início) e o pasmo dá azo a uma incómoda epidemia de adjectivos "dramático", "alucinante", "inesquecível", "extraordinário", "fabuloso", etc..Não são as questões de estilo, porém, que tornam o texto frágil. Pitta é, indiscutivelmente, um cronista atento e subtil, mestre na arte da elipse. Por exemplo, a forma como introduz a nostalgia de Moçambique - durante o encontro com um casal que reconhece num gesto seu (barrar os camarões com manteiga) a marca de um ex-habitante de Lourenço Marques - consegue ser confessional sem o expor demasiado. E os flashes em que narra jogos de sedução nocturnos, com sexo na sombra e vultos ajoelhados em "libações pagãs", são do melhor que a literatura gay tem para oferecer..Acontece que o livro não respira, sufocado pela pose blasé do seu autor. Enquanto dá as voltas do costume pelo Rialto, pelas ilhas, pelos museus e pelo Lido (onde o fantasma de Tadzio se esfumou), Pitta louva a patine dos velhos hotéis ou critica os sinais de decadência, mas não vai além disso. Com o seu companheiro de sempre, circula de motoscafo (dez vezes mais caro que o vulgar vaporetto), bebe café no Florian e Bellinis nos sítios mais in. Metade do tempo é gasto em deambulações gastronómicas e inenarráveis fanfarronices de gourmet. A outra metade serve para exibir poder de compra, enquanto zurze a invasão do turismo "organizado" e banal. .No fundo, Pitta pretende aceder ao círculo de uma certa aristocracia do gosto. A dos turistas "elegantes" - gente fina que paga nas calmas 300 euros por uma refeição no Harry's Bar (esse "aquário perdido no Dilúvio", cheio de "miasmas & Cartier"). Nada contra. Mas é pena que um provável bom livro de viagens se transforme assim, ingloriamente, num pretensioso Lonely Planet para ricos.