Nada é mais crucial para a sobrevivência e a independência dos organismos - sejam eles elefantes ou protozoários - do que a manutenção de um ambiente interno constante. Claude Bernard, o grande fisiologista francês, disse tudo sobre este assunto quando, na década de 1850, escreveu: "La fixité du milieu intérieur est la condition de la vie libre" (A constância do meio interior é a condição para a vida livre). Manter tal constância chama-se homeostasia. Os princípios da homeostasia são relativamente simples, mas miraculosamente eficientes a nível celular, em que bombas de iões nas membranas celulares permitem que a química interior das células se mantenha constante, independentemente das vicissitudes do ambiente externo. São necessários sistemas de monitorização mais complexos quando se trata de garantir a homeostasia em organismos multicelulares, animais e seres humanos em particular..A regulação homeostática é levada a cabo pelo desenvolvimento de células nervosas e redes nervosas especiais (plexos) espalhadas por todo o nosso corpo, bem como por meios químicos diretos (hormonas, etc.). Estas células e plexos nervosos dispersos organizam-se num sistema ou confederação que é em grande parte autónoma no seu funcionamento; daí o seu nome: sistema nervoso autónomo (SNA). O SNA só foi reconhecido e explorado no início do século XX, enquanto muitas das funções do sistema nervoso central (SNC), especialmente o cérebro, já tinham sido pormenorizadamente mapeadas no século XIX. Isto tem algo de paradoxal, pois o sistema nervoso autónomo evoluiu muito antes do sistema nervoso central..Elas foram (e em grande medida ainda são) evoluções independentes, extremamente diferentes na organização, bem como na formação. Os sistemas nervosos centrais, juntamente com os músculos e os órgãos dos sentidos, evoluíram para permitir que os animais circulassem no mundo - para procurar alimentos, caçar, encontrar companheiros, evitar os inimigos ou lutar contra eles, etc. O sistema nervoso central, com os seus órgãos sensoriais (inclusive os das articulações, dos músculos, das partes móveis do corpo), diz-nos quem somos e o que estamos a fazer. O sistema nervoso autónomo, monitorizando infatigavelmente todos os órgãos e tecidos do corpo, diz-nos como estamos. Curiosamente, o cérebro em si não tem órgãos sensoriais, razão pela qual podemos ter aí grandes distúrbios e, no entanto, não sentir qualquer mal-estar. Assim, Ralph Waldo Emerson, que desenvolveu a doença de Alzheimer aos 60 anos, diria: "Eu perdi as minhas faculdades mentais... mas estou perfeitamente bem.".No início do século XX, foram reconhecidas duas divisões gerais do sistema nervoso autónomo: uma parte "simpática", que, aumentando o débito cardíaco, aguçando os sentidos e enrijecendo os músculos, prepara um animal para a ação (em situações extremas, por exemplo, para uma luta ou uma fuga que salva a vida); e a oposta correspondente - uma parte "parassimpática" - que aumenta a atividade nas partes de "gestão interna" do corpo (intestinos, rins, fígado, etc.), abrandando o coração e promovendo o relaxamento e o sono. Estas duas partes do SNA funcionam, normalmente, numa reciprocidade feliz; daí a deliciosa sonolência pós--prandial que se segue a uma refeição pesada não ser o momento para uma corrida ou para entrar numa luta. Quando as duas partes do SNA estão a trabalhar harmoniosamente em conjunto sentimo-nos "bem" ou "normais"..Ninguém escreveu mais eloquentemente sobre isto do que António Damásio no seu livro O Sentimento de Si e em muitos livros e ensaios subsequentes. Ele fala de uma "consciência nuclear", o sentimento básico de como estamos, que acaba por se tornar um sentido ténue e implícito de consciência(1). É especialmente quando as coisas estão a correr mal internamente - quando a homeostasia não é mantida; quando o equilíbrio autonómico começa a inclinar-se pesadamente para um lado ou para o outro - que esta consciência nuclear, o sentimento de como estamos, assume uma qualidade intrusiva e desagradável e, agora, vamos dizer: "Sinto-me doente - algo está errado." Nessas alturas já não parecemos bem também..Como exemplo disto, a enxaqueca é uma espécie de doença protótipo, com frequência muito desagradável, mas transitória e autolimitada; benigna no sentido de que não provoca a morte ou lesões graves e que não é associada a qualquer dano nos tecidos, trauma ou infeção; e ocorrendo apenas como uma perturbação frequentemente hereditária do sistema nervoso. A enxaqueca proporciona, em miniatura, as características essenciais de estar doente - de problemas dentro do corpo - sem uma doença real..Quando vim para Nova Iorque, cerca de 50 anos atrás, os primeiros pacientes que vi sofriam de ataques de enxaquecas - "enxaqueca comum", assim chamada porque ataca pelo menos 10% da população (eu próprio tive ataques de enxaquecas durante toda a minha vida(2)). Examinar esses pacientes, tentar entendê-los ou ajudá-los constituiu o meu aprendizado na medicina - e levou ao meu primeiro livro, Enxaqueca..Embora existam muitas (sentimo-nos tentados a dizer inumeráveis) apresentações possíveis da enxaqueca comum - descrevi quase uma centena no meu livro -, o seu prenúncio mais comum pode ser apenas uma indefinível mas inegável sensação de que algo está errado. Foi exatamente isto que Emil du Bois-Reymond enfatizou quando, em 1860, descreveu os seus próprios ataques de enxaqueca: "Acordo com um sentimento generalizado de perturbação...", escreveu..No caso dele (ele teve enxaquecas a cada três ou quatro semanas, desde os 20 anos), havia "uma ligeira dor na região da têmpora direita... que atinge a sua maior intensidade ao meio-dia; à noite, ela geralmente passa... Em repouso, a dor é suportável, mas aumenta com o movimento até um elevado grau de violência... Reage a cada batida da artéria temporal". Além disso, Du Bois-Reymond parecia diferente durante as suas enxaquecas: "O semblante fica pálido e afundado, o olho direito pequeno e avermelhado." Durante os ataques mais violentos tinha náuseas e "distúrbios gástricos". "O sentimento generalizado de perturbação" que tão frequentemente inaugura as enxaquecas pode continuar, ficando cada vez mais grave no decurso de um ataque; os pacientes mais afetados podem ver-se reduzidos a ficar prostrados numa névoa de chumbo, sentindo-se meio mortos ou até achando que a morte seria preferível.(3).Cito a autodescrição de Du Bois--Reymond, tal como o faço no início de Enxaqueca, em parte pela sua precisão e beleza (como é comum nas descrições neurológicas do século XIX, mas raro hoje em dia), mas acima de tudo, porque é exemplar - todos os casos de enxaquecas variam, mas são, por assim dizer, permutações do dele..Os sintomas vasculares e viscerais da enxaqueca são típicos da atividade parassimpática desenfreada, mas podem ser precedidos por um estado fisiologicamente oposto. Podemos sentir-nos cheios de energia, até mesmo numa espécie de euforia, por algumas horas antes de uma enxaqueca - George Eliot falava de si mesma como sentindo-se "perigosamente bem" nessas horas. Pode haver, da mesma forma, especialmente se o sofrimento foi muito intenso, um "ressalto" após uma enxaqueca. Isso era muito claro com um dos meus pacientes (caso n.º 68 em Enxaqueca), um jovem matemático com enxaquecas muito fortes. Para ele, a resolução de uma enxaqueca, acompanhada por uma grande passagem de urina pálida, era sempre seguida por uma explosão de pensamento matemático original. "Curar" a sua enxaqueca, descobrimos, "curava" a sua criatividade matemática, e ele optou, tendo em conta esta estranha economia de corpo e mente, por manter as duas..Embora este seja o padrão geral de uma enxaqueca, podem ocorrer flutuações e sintomas contraditórios que mudam rapidamente - uma sensação a que os pacientes costumam chamar "instável". Neste estado instável (como escrevi em Enxaqueca), "podemos sentir-nos quentes ou frios ou ambos... inchados e leves ou descontraídos e inquietos; com uma tensão peculiar ou apáticos ou ambos... diversas tensões e desconfortos, que vêm e vão"..Na verdade, tudo vai e vem e, se pudéssemos examinar ou tirar uma fotografia do interior do corpo nessas horas, veríamos leitos vasculares a abrir e a fechar, peristaltismo a acelerar ou a parar, vísceras a contorcer-se ou a apertar-se em espasmos, secreções a aumentar ou a diminuir de repente - como se o próprio sistema nervoso estivesse num estado de indecisão. A instabilidade, a flutuação e a oscilação são a essência no estado instável, esse sentimento generalizado de perturbação. Perdemos a sensação normal de "bem-estar" que todos nós e, talvez todos os animais, temos na saúde..(1) António Damásio e Gil B. Carvalho, "The Nature of Feelings: Evolutionary and Neurobiological Origins," Nature Reviews Neuroscience, Vol. 14 (Fevereiro 2013)..(2) Eu também tenho ataques de "aura de enxaqueca", com cintilantes padrões em ziguezague e outros fenómenos visuais. Eles, para mim, não têm nenhuma relação óbvia com a minha enxaqueca "comum", mas para muitos outros os dois estão ligados, sendo chamado a este ataque uma enxaqueca "clássica"..(3) Areteu observou no século II que pacientes num tal estado "estão cansados da vida e desejam morrer". Tais sentimentos, embora possam ter origem no, e estar relacionados com, desequilíbrio autonómico, devem ligar-se com aquelas partes "centrais" do SNA nas quais sensações, humor, sensibilidade e consciência (nuclear) são mediadas - o tronco encefálico, hipotálamo, amígdala e outras estruturas subcorticais..Exclusivo The New York Review of Books.Leia a segunda parte deste texto aqui