Um segredo debaixo das barbas

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Onde vive, o gelo é quente. Dentro da sua vontade, cabem os pedidos todos do mundo. As listas chegam-lhe murmuradas, por carta, a medo, ou com a descontracção adolescente de quem acha que um Jaguar deixa espaço no saco para outros presentes. O Pai Natal do Chiado sabe que não nasceu na Lapónia nem se chama São Nicolau, mas não revela nada. Quando veste o fato, despe o resto.

É há seis anos o Pai Natal oficial dos Armazéns do Chiado. Do que fazia antes não gosta de falar. Foi funcionário público «na área das forças militarizadas», reformou-se, começou a fazer figuração para televisão e, de repente, «acharam que podia fazer isto». Se ti-vesse bilhete de identidade, podia ler-se nele que não tem idade, é «muito velhinho». Este ano chegou ao centro comercial no dia 13 de Novembro num autocarro descapotável.

Tem os olhos azuis de que se ouve falar nas histórias de Natal. As semelhanças físicas com «o autêntico» são muitas. Tantas que os dois filhos adultos sentem, por vezes, dificuldade em reconhecê- -lo. Mas diz quase convicto, a esconder o orgulho «Não sou um herói do Natal, há muitos como eu.» Sabe de cor os nomes dos centros comerciais que têm Pai Natal. E é crítico com os que «andam pela rua sem estarem devidamente uniformizados».

Começa a preparar-se para o frio em Setembro. Toma vitaminas e vacina-se contra a gripe «Onde é que já se viu um Pai Natal constipado?» O fato dá-lhe «aquela genica». As crianças, «aquele sorriso e aquele brilhar». Pede-lhes que se aproximem e dá-lhes a mão branca das luvas enquanto lhes pergunta se a escola terminou bem, «se tiveram negas ou não».

O Pai Natal do Chiado sabe que o Pai Natal existe. Mas «as crianças de hoje desconfiam». Quando isso acontece, propõe-lhes que tirem uma fotografia com ele, para nunca se esquecerem de que o conheceram. Depois faz cópias das imagens e guarda-as num álbum. Mais tarde, usa-as como postais. Escreve-lhes no verso desejos de Boas-Festas que envia «aos sobrinhos dos Estados Unidos».

Responde a todas as cartas que lhe são enviadas. No ano passado, recebeu um envelope de Barcelona com três euros de chocolate para agradecer os presentes deixados no sapatinho de uma casa em Espanha. O remetente, um rapaz de seis anos, tinha estado de visita a Lisboa e contado ao Pai Natal do Chiado que brinquedos queria.

Pedem-lhe muitas coisas. Mas a frase que mais ouve é «Não te esqueças da minha casa.» Costuma responder que «as casas são muitas» e que só há tempo para passar pelas que têm «meninos bem-comportados».

Todos os anos tem surpresas. A última foi «poder tirar uma fotografia com uma bebé de sete dias». Perdeu a conta às «jovens grávidas que querem fotografar a barriga e o Pai Natal». Não se constrange, lembra-se dos filhos e das canções que lhes cantava. Mas nunca imaginou vir a ser o Pai Natal do Chiado. Que «não é o António do El Corte Inglés nem o Manuel do Colombo». É o Pai Natal, pelo menos em Dezembro. Depois, despe o fato e fica «um vazio».

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