Um regresso a Reiquejavique

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Trinta e três anos depois, Bobby Fischer, agora com 62 anos, regressou ontem ao final da tarde a Reiquejavique. Desta vez, ao contrário do que aconteceu em 1972, não chega para disputar, em pleno clima de "Guerra Fria", quiçá a mais memorável de todas as finais do Campeonato do Mundo de xadrez, frente a Boris Spassky, pondo termo a 24 anos de total hegemonia soviética. Desta vez, o génio excêntrico chegou vestido como o verdadeiro eremita em que se transformou. Desta vez, Bobby Fischer chegou a Reiquejavique, já não como um símbolo do Ocidente, aliás, já não como cidadão norte-americano (procurado pela Justiça do seu país), mas como recentíssimo cidadão islandês, com um estatuto que o aproxima de um refugiado político.

Ontem de manhã, Bobby Fischer deixou Tóquio, depois de oito meses de detenção (a que, antes de deixar a capital japonesa, preferiu chamar "sequestro") por ter tentado abandonar o Japão, a 13 de Julho do ano passado, com um passaporte norte-americano invalidado. É que os Estados Unidos da América emitiram um mandado de detenção contra aquele que chegou a ser um verdadeiro herói nacional e que, caso regresse ao seu país de origem, corre o risco de ser condenado a 10 anos de prisão por ter violado, em 1992, o embargo norte- -americano à antiga Jugoslávia, quando aceitou jogar no Montenegro, a troco de 3, 35 milhões de dólares, uma revanche da célebre final com Spassky, de quem, entretanto, se tornara amigo.

Em 1975, Bobby Fischer rompera com a Federação Internacional de Xadrez, renunciando a disputar o título mundial com Anatoli Karpov e iniciando assim uma longa carreira de "génio louco" que culminaria quando em 2001 qualificaria, em declarações a uma rádio filipina (desde o início dos problemas com a Justiça dos EUA, ele vivia entre a Europa, o Japão e as Filipinas), os atentados de 11 de Setembro em Nova Iorque e Washington como "uma notícia maravilhosa". Uma declaração aberrante na linha das suas duras críticas a um país pelo qual, proclamava ele, "ninguém fez individualmente tanto como eu". Diz-se também perseguido por razões políticas, depois de ter sido "utilizado" como arma durante a "Guerra Fria". Destacou-se ainda, nas suas raras aparições, por execráveis afirmações anti-semitas (apesar de a sua mãe ser judia...).

Na verdade, a vida de Bobby dava um filme. Muito precocemente génio (diz-se mesmo que o seu quoficiente de inteligência em criança superava o de Albert Einstein), abandonou a escola aos 16 anos por a considerar uma "perda de tempo". Com 15 anos tornara-se o mais jovem candidato de sempre ao título mundial, mas vai acusar os soviéticos de maquinarem contra ele, e aos 19 anos acaba por aderir a uma seita religiosa. Retira-se durante vários meses, mas regressará depois de um pedido expresso do então secretário de Estado norte-americano Henry Kissinger para a célebre "lição" aos soviéticos de 1972, em Reiquejavique.

Depois disso, volta a retirar-se, cultivando o seu espírito taciturno e imprevisível, e pouco se sabe da sua vida a não ser que a seita a que aderiu foi um verdadeiro sorvedouro para o (muito) dinheiro que acumulara. Talvez também por isso aceita o dinheiro que o regime de Belgrado lhe oferece para reviver o duelo com Boris Spassky, exactamente 20 anos depois.

Ontem, Bobby Fischer regressou então a Reiquejavique, depois de, na passada segunda-feira, o Parlamento islandês lhe ter concedido a nacionalidade, o que obrigou o Japão a abandonar a ideia de repatriá-lo para os Estados Unidos. A decisão das autoridades islandesas, apesar dos violentos protestos dos EUA (que negoceiam neste momento com Reiquejavique o futuro da base americana de Kaflavic), foi um gesto de gratidão para alguém que colocou o país (com 300 mil habitantes) no mapa--múndi, com a extraordinária repercussão, à escala universal, da lendária final do Mundial de xadrez de 1972.

No lugar ao lado de Fischer no avião que aterrou já de noite na capital islandesa viajou Miyoko Watai, a actual presidente da Federação Japonesa de Xadrez. O casamento está anunciado para breve, em Reiquejavique. O génio, porventura execrável, mas génio, talvez se sinta agora menos só.

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