Dominado por uma notável interpretação de Faye Dunaway, o primeiro filme de Jerry Schatzberg, Tempo de Viver (título original: Puzzle of a Downfall Child), chegou às salas dos EUA no dia 16 de dezembro de 1970. No mesmo dia, estreava-se Love Story, a fábula romântica protagonizada por Ali MacGraw e Ryan O"Neal, dirigida por Arthur Hiller a partir do best-seller homónimo de Erich Segal..A simples coincidência é sintomática do labirinto de contrastes em que, por essa altura, existia o cinema de Hollywood. Em nome de uma sociologia algo superficial, poderemos considerar Love Story (que foi o filme mais rentável do ano) como um reflexo dos anseios de uma "nova" juventude. O certo é que a diferença de Tempo de Viver decorria menos do seu tema - uma visão desencantada do mundo exuberante da moda - e mais da dimensão atípica da sua montagem não linear e da estranheza psicológica que daí nascia. Havia em Tempo de Viver um gosto experimental que o aproximava também de alguns títulos do mesmo ano realizados por cineastas europeus, incluindo o emblemático Zabriskie Point, do italiano Michelangelo Antonioni, ironicamente uma produção rodada nos EUA com chancela de um grande estúdio de Hollywood..Quando contemplamos as fotografias de personalidades do mundo do espetáculo assinadas por Schatzberg, muitas delas disponíveis no seu site oficial, não podemos deixar de reconhecer a energia realista que ele aponta como princípio vital do seu trabalho. Retratos de Sharon Tate, Faye Dunaway, Andy Warhol, Catherine Deneuve ou Steve McQueen são, de facto, exemplos modelares de um olhar que, tal como nos filmes, permite que cada um deles exista (e se exponha) para lá de qualquer estereotipo figurativo ou simbólico. Sem esquecer, claro, o retrato de Bob Dylan que serviu de capa ao álbum Blonde on Blonde (1966)..Pode dizer-se que Schatzberg sempre foi um autor capaz de se exprimir através das singularidades dos seus atores e atrizes, deixando cada um deles viver, perante o olhar cru da câmara, até encontrar a sua personagem. A sua trajetória é tanto mais desconcertante quanto, por escolha pessoal ou por pressão da conjuntura de produção, dirigiu projetos algo isolados no interior das dinâmicas de Hollywood. Lembremos o exemplo de Honeysuckle Rose/Música pelo Caminho (1980), centrado num cantor country interpretado por Willie Nelson, filmado com o espírito clássico de uma ficção on the road, ou ainda esse thriller insólito que é Street Smart/Nova Iorque, Cidade Implacável (1987), com Christopher Reeve..Neste caso, a reunião de talentos é francamente invulgar, a começar pelo próprio Christopher Reeve, na altura uma estrela planetária graças ao Superman (1978) dirigido por Richard Donner. A música é de Robert Irving III, pianista de jazz que colaborou com Miles Davis. Como secundário, surgia Morgan Freeman, na altura um quase desconhecido com 50 anos de idade - o filme valeu-lhe uma nomeação para o Óscar de melhor secundário e, como ele próprio sempre afirmou, Street Smart foi decisivo na projeção da sua carreira. Por sua vez, Schatzberg nunca foi nomeado.