Um mundo de ruturas

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Este ano de 2017 já tinha como suficientes desafios o combate ao terror que não assume o nome de guerra mas torna complexa a exigência de segurança, a inquietação alarmante do turbilhão muçulmano em cujo âmbito cresce a convicção de que "o islão é a solução" e não modelos políticos ocidentais, e agora a ameaça grave ao projeto europeu que o tema da resolução política para a crise aberta pelo governo da Catalunha desencadeou. Não faltavam problemas vindos da circunstância externa que, neste globalismo mal sabido, desafiam a posição da União no centro de referência da sua governança, quando o divisionismo interno pode encontrar aqui uma fonte de contágios de diagnóstico difícil. Já chegava não poder ser esquecido que o problema de relação difícil do Reino Unido com a Europa teve um claro aviso na afirmação de David Cameron, que tendo negociado um acordo de manutenção do Reino Unido na União foi, todavia, dizendo, a 20 de fevereiro de 2016, "não amo Bruxelas, amo a Grã-Bretanha".

A chamada descida da Grécia aos infernos, a geral crise económica e financeira, o renascer da memória de um passado agora visto retroativamente mais promissor, que os populismos vão fortalecendo e assumindo como caminho de regresso, tudo aconselha a meditação sobre se o projeto europeu necessita de reformulação, e as declarações do presidente da Comissão Europeia mostram que a questão faz parte das suas preocupações.

O caso da Catalunha começa por demonstrar que a solidariedade dos afetos, que sempre teve acidentes no passado, não é o que está presente no processo, quer no que respeita ao governo da Catalunha quer no que toca à redução da questão, pelo governo central, a um problema constitucional. Acontece que a história é que de regra exige a reformulação constitucional, que por vezes apenas requer engenho na interpretação, não é a falta desta que consegue deter as exigências políticas. No passado próximo apenas a separação entre a República Checa e a Eslováquia, pelo exercício da chamada Revolução de Veludo conduzida pelo inesquecível Vaclav Havel, foi pacífica porque ele tinha refletido profundamente sobre a natureza do poder, conseguindo pôr em evidência "o poder dos que não têm poder", e concluindo que esta relação humana é também "obra de quem domina".

A questão da identidade não se confunde com o sistema político, que tem muitas soluções catalogadas para respeitar as diferenças. O que é extremamente grave é que, sendo a questão da Catalunha um desafio histórico secular, a unidade da Espanha, que conseguiu passar em paz do franquismo para a democracia, seja desafiada quando se encontra incluída num projeto de unidade europeia pela primeira vez invocando como diretiva o princípio da affectio societatis. O que se evidencia é que o crescente perigo do desafeto, que pode ser animado pelo contágio da dureza com que forem ignorados os efeitos dramáticos de um processo conduzido com indiferença perante o conflito entre a paixão nacionalista do governo de Barcelona e a jurisprudência fria do governo central: é a Espanha que sofre, é a Catalunha que sofre, e é a unidade europeia, à qual não basta a unanimidade do repúdio do movimento independentista pelos componentes estaduais e autoridades da União, para impedir que este acontecimento, que não tomou conhecimento do pensamento de Havel, tenha efeitos de contágio alargado num momento de grande dificuldade, não só para a Europa mas para a segurança e a paz mundiais. Quando uma deputada do Parlamento Catalão afirmou na tribuna - "sou catalã, sou espanhola, sou europeia" - estava a pedir, aconselhar, suplicar, que a complexidade das dependências mundiais não fosse a realidade que estava mais ausente no fraco diálogo.

A Espanha unida faz falta ao mundo, aos Estados que formou, ao Sul europeu, à paz e à segurança globais em evidente perigo. Os sintomas de que o contágio é um perigo são evidentes, com a dúvida sobre se já está a germinar na própria República Checa da antiga paz de Havel, se o conflito catalão vai demonstrar perdida a sabedoria da passagem em paz do franquismo para a democracia. Então, o mais extremista partido da resistência ao movimento militar, sem cuidar de avaliar os riscos da sua própria existência, alinhou em reconhecer que o pacifismo da mudança era o mais importante para todo o povo da Espanha plural nas identidades mas unida pela reconstrução da affectio societatis. Esta última é a exigência de um mundo de ruturas em que vivemos, com a maior ameaça histórica no que toca à paz, e que não pode deixar de considerar que o passivo aumenta sempre que o número de ruturas cresce.

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