Marceneiro de alcunha e profissão, Alfredo Duarte é sem dúvida um dos modelos estilísticos e musicais do fado. De facto, se o fado lisboeta retratava, no início do século XX, a vivência dos bairros tradicionais onde surgiu, e o carácter e quotidiano dos seus habitantes, Alfredo Marceneiro é a personificação de um modo de vida que se expressou também através da música..O seu nome é constantemente referido nos mesmos tons reverenciais reservados a nomes como Amália Rodrigues e também ele de certa forma foi "canonizado" dentro do fado..Alfredo Marceneiro nasceu ainda no final do séc. XIX, a 25 de Fevereiro de 1891. Apesar de ter revelado desde cedo aptidão para a música, Alfredo Rodrigo Duarte foi forçado a prescindir da música devido à morte do pai em 1906, quando se viu obrigado a aprender um ofício para ajudar na subsistência da família. Seguiu, inicialmente, a profissão de encadernador..Foi a conselho do fadista Júlio Janota que, ainda antes de 1908 (data em que começou a ganhar renome nas "lides" do fado), Alfredo Duarte se iniciou na marcenaria, que se tornou, para além do fado, o seu verdadeiro métier. Em 1959, poucos anos antes das suas primeiras gravações em álbum, obteve a reforma, dedicando-se então a tempo inteiro ao fado..Décadas antes, em 1927, num tempo em que a relação com os autores da música era diferente da que hoje conhecemos, Marceneiro, que já tinha cantado fados escritos por Manuel Rego, Avelino de Sousa e Linhares Barbosa foi, com Armandinho, um dos fundadores da Sociedade de Escritores e Compositores Teatrais Portugueses..Conhecido inicialmente por Alfredo "Lulu", pelo "modo catita" no vestir e no andar, foi na década de vinte que Marceneiro adoptou o lenço de seda que lhe ficou associado. Na verdade, em 1961, por altura das gravações do seu primeiro álbum a solo, The Fabulous Marceneiro, foi com um lenço de seda que o fadista cobriu os olhos, para tentar reproduzir o breu das casas de fado onde se celebrizou..Hugo Ribeiro, o mítico engenheiro de som no estúdio da Valentim de Carvalho, recorda a tarde em que foi gravado o disco The Fabulous Marceneiro, aquele que é um dos grandes álbuns da música portuguesa: "O Marceneiro dizia que não conseguia cantar de dia, porque estava habituado às casas de fado", recorda. ."As janelas do estúdio Costa do Castelo [local actual do Teatro Taborda] estavam no topo do recinto. Foi então que lhe tapei os olhos com o lenço e ele virou-se para mim e disse: 'Ribeirinho (era assim que me chamavam), ainda é melhor do que uma casa de fados'. Gravámos os 12 fados do álbum nesse mesmo dia, todos de seguida e quase todos num ou dois takes", descreve Hugo Ribeiro..Segundo Hugo Ribeiro, aliás, a relutância de Marceneiro em gravar em estúdio era motivada principalmente pela sua preferência pelo ambiente das casas de fado, exemplo de A Toca, onde Carlos Ramos (que gravou, entre outros temas, A Senhora do Monte) também era assíduo..Já nos estúdios de Paço d'Arcos, as gravações de Há Festa na Mouraria, o segundo LP de Marceneiro, depararam-se com a mesma hesitação do fadista em sair daquele que era o seu "meio".."Ainda antes de chegarmos a Oeiras, o Marceneiro olha pela janela do automóvel e pergunta 'onde é que estamos? Isto já não é Lisboa'", recorda Hugo Ribeiro, "Ficou até às 3 da manhã sem cantar uma nota, dizia que tinha um lapso de memória, que não se lembrava das letras. Acabámos por ficar no estúdio até às nove da manhã"..Mais do que o "mau feitio" de Alfredo Marceneiro (que era notória, segundo Hugo Ribeiro), estas idiossincrasias revelam, tendo em conta a qualidade quase mitológica que Marceneiro adquiriu ainda em vida, um fadista genuinamente associado com o meio em que se formou, ou não se tivesse tornado um dos expoentes máximos do género sem nunca ter saído do País..David Ferreira, editor discográfico, considera Alfredo Marceneiro "o grande inovador do fado anterior a Amália e aos compositores a ela associados".."Há uma quantidade no mínimo apreciável de fados clássicos atribuídos a Alfredo Marceneiro que, como é habitual, se tornaram, apesar de inicialmente inovadores, verdadeiros cânones do género"..É fácil comprovar a transversalidade de Alfredo Marceneiro no fado através de edições recentes como a colectânea Tudo Canta Alfredo Marceneiro (de 2005), que reúne versões de temas atribuídos ao fadista interpretados por nomes como Amália Rodrigues, Carlos do Carmo, Fernando Maurício e Camané.