Em 26 de Fevereiro de 1917, Mathilda Kschessinskaya recebeu uma chamada urgente do chefe da polícia do bairro onde morava, uma das mais elegantes zonas de Petrogrado, ou não fosse ela prima ballerina assoluta do Mariinsky, antiga amante do czar Nicolau II e actual amante do grão-duque Andrei Vladimirovich. Não muito antes, a 2 de Fevereiro, tivera uma actuação memorável, mal sabendo que era a última, em que dançara como Columbina em Carnaval e depois o primeiro acto de Don Quixote. Os bolcheviques consideravam-na um dos símbolos maiores da decadente ordem czarista, circulavam caricaturas horríveis e panfletos sobre ela, e agora o chefe da polícia avisava-a para fugir da cidade quanto antes. Uma decisão difícil: as melhores jóias estavam guardadas nos cofres de Fabergé, mas havia um mundo de coisas, acumuladas em 27 anos de carreira e de glória, que era impossível levar às pressas. A revolução estava no auge, e à noite, quando se sentou para jantar com o seu filho, com o tutor deste e com duas bailarinas do Mariinsky, ouviam-se já os gritos, os tiros na rua. Decidiu partir de imediato, saindo com o mais modesto dos seus casacos, um veludo preto debruado a chinchila, a cabeça coberta por um lenço, quase se esquecendo do fox terrier de estimação, da mala com alguns haveres. Ficou ainda uns meses em Petrogrado, até Julho, vivendo na semiobscuridade. Um dia, ao passar ao longe pela antiga casa, viu uma mulher a apanhar sol no seu jardim: era Alexandra Kollontai, uma das mais proeminentes bolcheviques, lenda da revolução vermelha, teórica do marxismo, e estava vestida com um dos seus mais belos e opulentos casacos de peles, de arminho, símbolo por excelência dos tempos imperiais czaristas..O episódio é contado por Christina Ezrabi em Swans of the Kremlin. Ballet and Power in Soviet Russia (University of Pittsburgh Press, 2012) e mostra bem que, mesmo nas revoluções e nas mais abruptas mudanças de regime, há sempre traços culturais e mentais que persistem. Na Rússia dos anos 20, houve um intenso debate sobre se deveria acabar-se de todo com o ballet, marca maior da época corrupta dos Romanov, ou se, pelo contrário, ele deveria ser mobilizado como arte de massas e instrumento de propaganda ao serviço do poder bolchevique. Quem fosse ao Bolshoi ou ao Mariinsky, antes da renovação recente, e observasse as foices e os martelos lavrados a oiro nos camarotes, facilmente concluiria qual das teses venceu..De resto, a associação do ballet à política é antiga e veneranda, podendo lembrar-se um facto pouco conhecido: Louis XIV, um formidável dançarino e promotor dos faustosos ballets de cour, ganhou o epíteto de "Rei Sol" após a sua performance num bailado levado à cena em 23 de Fevereiro de 1653, Le Ballet de la Nuit. Outra curiosidade, esta ilustrativa do que é a história da Rússia, mil anos de servidão: em Os Anjos de Apolo. Uma História do Ballet (Edições 70, 2010), Jennifer Homans conta que, em finais do século XVIII, o conde Sheremetev, um dos homens mais ricos da Rússia, tinha, imagine-se, um milhão de servos, e a tradição do bailado surgiu, em larga medida, a partir dos "teatros de servos" que proliferavam no país. Como escreveu há dias o novelista russo Mikhail Shishkin, "Putin é o sintoma, não a doença"..O novo poder soviético não só não dispensou o ballet como o incentivou e tratou como assunto de Estado. Nesta, como noutras artes, houve debates acesos, como a "campanha anti-formalista" desencadeada em 1936, no auge do Grande Terror, ou a tentativa feita, pelos coreógrafos de Estaline, para impor o "dramballet", mais conforme aos rígidos padrões estéticos do realismo socialista. O mais curioso de tudo é que nenhuma dessas querelas intelectuais ou artísticas era meramente teórica e, sobretudo, desprovida de ideologia. Pelo contrário, como a dissidência política era reprimida pelo regime, os debates possíveis transferiam-se para o campo estético, com o conservadorismo em matéria de gosto a constituir um acto de resistência perante o Kremlin ou com discussões acesas em torno de bizarrias como "sinfonismo coreográfico" ou "criticismo construtivo". Na aparência, pareciam discussões etéreas; na prática, eram os confrontos ideológicos que o regime permitia. À semelhança da guerra para Clausewitz, a arte e a cultura eram a continuação da política por outros meios, como de resto sempre foram, e sempre serão..Num longo consulado de quase 30 anos, Estaline só duas vezes saiu da URSS, para participar nas conferências aliadas de Teerão e de Potsdam (como o mundo mudou: Putin e Xi Jinping já se encontraram mais de 40 vezes). Ansioso por alterar o rumo da política externa soviética, até como forma de consolidar o seu poder na cena doméstica, Kruschev aceitou o convite de Anthony Eden para, em conjunto com Bulganine, visitar o Reino Unido em Abril de 1956, escassos dois meses após o célebre discurso ao XX Congresso do PCUS. A visita não produziu grandes frutos, mas, logo em Outubro desse ano, o Bolshoi iria até Londres, naquela que foi a primeira das suas várias embaixadas ao Ocidente no decurso da Guerra Fria. Também sintomático: Sir David Webster, o mítico director da Royal Opera House (esteve em funções de 1945 a 1970), tinha pedido ao Bolshoi para actuar na reabertura de Covent Garden após a guerra, em 1946, mas, em tempos de Estaline, o convite demorou dez anos a ser respondido. Agora, havia sinais de mudança: o ministro da Cultura, Nikolai Mikhailov, preparou um extenso relatório para o Politburo sobre as relações culturais com a Grã-Bretanha e a tour do Bolshoi foi preparada ao milímetro, como uma operação militar. Os soviéticos tinham consciência de que o que estava em causa não era apenas o prestígio de uma companhia de bailado, mas a imagem de um país inteiro perante o mundo, naquela que seria a primeira grande exibição da União Soviética no Ocidente do pós-guerra. Com inteira razão, e não menor perspicácia, o Kremlin intuiu que os espectadores de Londres iriam reparar em todos e quaisquer pormenores do que vissem, para daí fazerem extrapolações mais vastas sobre como seria o modo de vida do outro lado da Cortina de Ferro. Para se ter uma ideia: devido à fraca qualidade dos collants de ballet produzidos pela indústria têxtil soviética, o ministro da Cultura solicitou ao Comité Central, e este concedeu-lha, uma autorização especial para importar 60 pares de collants da Checoslováquia. O repertório foi escolhido à minúcia, sendo, também ele, um prodígio de equilíbrio político e de mensagens diplomáticas, com a continuidade com o passado a ser sinalizada por dois dos melhores bailados do "dramballet" estalinista - A Fonte de Bakhchisarai, de Zakharov, de 1934, e Romeu e Julieta, de Lavrvosky, de 1938 - e uma piscadela de olho reformista ao Ocidente e ao seu gosto, com O Lago dos Cisnes, herança do período pré-revolucionário (teimamos em não perceber que, apesar de ter rompido com os czares, a Rússia incorporou o seu legado - no recente restauro do Bolshoi, a foice e o martelo deram lugar à águia bicéfala)..Antes de partirem, os bailarinos receberam instruções severas: não deveriam portar-se como turistas nem ter a ousadia de querer conhecer as belezas de Londres e, menos ainda, de se deixar seduzir por elas. Aquela era uma excursão de trabalho, quase de combate, onde não se correram riscos: apesar da sua presença ter sido insistentemente solicitada pelos ingleses, a grande Maya Plisetskaya foi impedida de viajar, pois o KGB colocara um X a vermelho à frente do seu nome por uma razão terrível, bem soviética - o seu pai tinha sido executado pelo GPU em 1938 e a mãe presa durante oito anos. Com uma perfídia singular, o KGB foi mais longe ainda e autorizou um tio materno de Maya a ir até Londres, para que ela e o irmão, igualmente bailarino do Bolshoi e também proibido de viajar, soubessem que estavam a ser punidos devido aos pecados do pai, transmissíveis hereditariamente. Com a ausência forçada de Plisetskaya, o esforço da extenuante tournée acabou por recair por inteiro sobre a estrela da companhia, Galina Ulanova, em cujos ombros ficou a responsabilidade tremenda, tremendíssima, talvez de vida ou de morte, de garantir o sucesso daquela operação cultural e sobretudo política. No mês anterior à partida para Londres, o director administrativo do Bolshoi implorou ao ministro da Cultura para que na comitiva fosse integrada uma outra bailarina, mais jovem e menos conhecida, de modo a poupar a saúde e a forma física de Ulanova e a não comprometer o seu futuro no ballet. O Kremlin, que sempre tratou os cisnes do Bolshoi e do Mariinski-Kirov como propriedade escrava, declinou o pedido, pois Ulanova era a prima ballerina assoluta, a estrela que todos queriam ver, e por isso, aos 46 anos, foi obrigada a fazer 13 actuações em Londres, o triplo daquilo que os responsáveis pelo Bolshoi recomendavam. "Estava uma lástima", recordou uma bailarina inglesa. Numa ocasião, após ter dançado Giselle para uma plateia onde se encontrava a rainha, foi obrigada a repetir o espectáculo para uma gravação da BBC, das duas da manhã até ao raiar da aurora. Poucos dias depois de regressar a Moscovo, e em resultado da tournée londrina, teve uma grave lesão, o que em nada comoveu as autoridades soviéticas, que acabaram a louvá-la como "heroína do trabalho" (sic), numa cerimónia a que Ulanov, em convalescença, não pôde comparecer..O mais espantoso de tudo é que, como recorda o livro Swans of the Kremlin, a digressão do Bolshoi a Londres esteve quase a ser cancelada por um incidente diplomático. Pouco antes da tournée, a lançadora do disco Nina Ponomareva, medalha de ouro nas Olimpíadas de Helsínquia de 1952, que estava em Londres para um torneio de atletismo, foi apanhada a furtar cinco chapéus numa loja de Oxford Street. Com o caso entregue à justiça, as autoridades soviéticas consideraram que os ingleses tinham feito uma "provocação" (ontem como hoje, um termo muito usado) para retirar brilho e fulgor à aparição londrina do Bolshoi. E, doze dias antes da partida para Inglaterra, o Izvestiia publicou uma carta aberta, assinada pelas estrelas da companhia, incluindo Ulanova, a acenar com o cancelamento. Foi uma bomba. Todos os espectáculos estavam esgotados, mais de 50 mil bilhetes vendidos, pessoas que tinham aguardado na fila três dias e três noites para comprar entrada em Covent Garden. Um editorial do Times qualificou o caso como "deplorável e quase incrível", aventando a hipótese de a detenção de Nina Ponomareva não ter passado de um mal-entendido. À distância de sete décadas, os argumentos do Times quase parece terem sido escritos hoje: Anthony Eden devia perceber que os soviéticos não compreendiam as minudências do Estado de Direito ocidental, o governo tinha a obrigação de explicar a Moscovo que não tivera interferência no caso e que jamais actuara com intenção de ofender a delicada sensibilidade do Kremlin..Choveram cartas de cidadãos indignados, uns amantes de ballet, outros simpatizantes da URSS, a criticarem a intransigência do executivo de Eden. O ministro da Cultura russo escreveu ao British Council para que este intercedesse junto do governo e para que o primeiro-ministro mandasse o procurador-geral do reino arquivar o caso. Foi tremenda a pressão sobre Eden e os seus ministros, com os soviéticos a fazerem ameaças e bluff, tendo por única preocupação, como sempre, não perderem a face e salvarem a sua ideia de honra, viril e belicosa. A qualquer momento, o procurador-geral poderia ter retirado as acusações por "motivos de interesse público", mas o governo deu-lhe instruções precisas para que não o fizesse e para que prosseguisse o processo caso entendesse, mesmo que isso custasse a vinda do Bolshoi a Londres (que, diga-se, em termos políticos era muito mais do interesse da URSS do que do Reino Unido). Anthony Eden e os seus ministros consideraram, e bem, que ceder à chantagem soviética era, por um lado, abrir um precedente grave no relacionamento entre os dois países e, por outro lado, era fraquejar numa questão de princípio, numa matéria crucial e civilizacional - a lei é igual para todos, nenhum cidadão está imune à justiça, a justiça é livre e independente..Nina Ponomareva, entretanto resguardada dos holofotes, provavelmente escondida na embaixada soviética, não compareceu à primeira audiência, mas o governo britânico manteve-se inabalável. Nina apareceria na segunda audiência, agendada para duas semanas depois, onde se declarou inocente, mas o juiz, dando os factos por provados, não cedeu um milímetro e condenou-a na competente multa. No mesmo dia, a atleta-ladra regressou de barco à URSS, onde foi condecorada com... a Ordem da Bandeira Vermelha do Trabalho. E o Bolshoi, claro, não deixou de viajar até Londres, onde teve estrondoso sucesso e, note-se, arrasou pelo seu vanguardismo os preconceitos dos críticos ocidentais, que, como sempre, ignoravam o que se passava na Rússia e julgavam que o bailado soviético estava ultrapassado e caduco. Kruschev rejubilou e, numa visita à América, com outra atitude típica dos líderes russos, a fanfarronice, questionou os jornalistas: "agora tenho uma pergunta para vocês, que país tem o melhor ballet? O vosso? Vocês nem sequer têm um teatro de ópera e ballet permanente! O vosso teatro vive do que é dado por pessoas ricas. No nosso país é o Estado que lhe dá o dinheiro. E o melhor ballet está na União Soviética! É o nosso orgulho (...). Podem ver por vocês mesmos qual a arte que está em alta e qual a que está em declínio". Esqueceu-se de acrescentar que a Rússia só tinha ballet graças à vaga modernizadora e ocidentalizante de Pedro, o Grande, como se esqueceu de referir alguns negros hábitos: durante décadas, vários dirigentes soviéticos abusaram sexualmente das bailarinas do Bolshoi, com Béria a violar uma das estrelas da companhia na sua limusina; anos depois, também na sua limusina, um Brejnev a cair de bêbado assediaria selvaticamente Maya Plisetskaya, a qual, por ter resistido, passou a ser alvo de perseguições sistemáticas, episódio contado num livro arrepiante, Bolshoi Confidential. Secrets of the Russian ballet from the rule of the tsars to today, de Simon Morrison (HarperCollins, 2016)..***.O Bolshoi foi alvo de grandes obras de renovação e restauro, pagas pela Gazprom, e reinaugurado com grande pompa em 2011, na presença de Putin e Medvedev. A Gazprom tem também financiando grandes exposições da cultura russa nos maiores museus da Europa ou noutros locais de aparato como o Palácio de Versalhes, que em 2017 albergou uma gigantesca mostra sobre Pedro, o Grande. Numa guerra, talvez a primeira coisa a morrer seja a verdade, mas a primeira a nascer é a ignorância. Sobretudo, ignorância do outro e do modo como ele sente e pensa. A Rússia é um país que dá lugar central à cultura e às coisas do espírito, em que um dos piores insultos é chamar alguém de "inculto" ou de "rústico", em que a cultura em sentido lato (ballet, música, desporto) sempre foi um importantíssimo instrumento de afirmação política e de projecção de poder. Se tivesse que recomendar um livro sobre o tema, aconselharia David Caute, The Dancer Defects: The Struggle for Cultural Supremacy during the Cold War, OUP, 2003, ou as várias biografias de Vladimir Putin, que mostram o empenho que ele teve nas Olimpíadas de Sochi (onde, com um país em crise, enterrou 51 mil milhões de dólares, quantia nunca vista nos Jogos) e no Mundial de Futebol de 2018, ao qual, apesar da anexação da Crimeia e dos 283 mortos do voo da Malaysia Airlines, abatido nessa operação, as selecções europeias de futebol não deixaram de comparecer. Portugal também lá esteve, em grande festa, e até jogou no Estádio Lujinski, em Moscovo, precisamente aquele que há dias serviu de palco a uma gigantesca manifestação de apoio ao ditador e à sua guerra..Guerra que é, essencialmente e antes de tudo, uma guerra cultural. É de cultura que falamos quando falamos de "guerras híbridas", nas quais a vitória militar não se alcança apenas pela força das armas, mas através de meios comunicacionais e propagandísticos, nos quais Zelenskii tem sido exímio. É de cultura que falamos quando falamos de "esferas de influência", nas quais o domínio de um povo não se faz já pela ocupação do seu território, mas pela subjugação da sua vontade e da sua identidade cultural e histórica. Putin percebeu-o primeiro e melhor do que nós, e por isso é inimigo dos "drogados" do Ocidente e das paradas gay, inimigo da Internet e das redes sociais, inimigo da Wikipédia, a maior e mais democrática criação colectiva da História da Humanidade..Entre nós, gerou-se um coro de protestos contra o boicote à cultura russa, num arco que vai do ex-ministro Paulo Portas aos 20 subscritores do manifesto-Calimero "Pela Paz, contra a criminalização do pensamento", entre os quais Boaventura Sousa Santos, a advogada Carmo Afonso ou o general Raul Cunha, um homem que defende que os civis de Mariupol não estão cercados pelos russos, mas sequestrados pelas forças ucranianas ("não são os russos que não querem que os civis saiam. Quem não quer que os civis saiam são os defensores da cidade, porque sabem que no momento em que ficarem sem os civis não têm a mínima hipótese de sobreviver" − jornal Setenta e Quatro, 17/3/2022)..Há, sem dúvida, que combater os casos esparsos, felizmente isolados, de "russofobia cultural", como a estúpida decisão de uma universidade italiana de cancelar um curso sobre Dostoiévsky (diferente foi o caso da Abertura 1812 de Tchaikovsky, cabalmente explicado pela Filarmónica de Cardiff). Para combater essa miserável "russofobia", que favorece a propaganda do Kremlin, deveria, aliás, já estar em marcha um gigantesco programa da União Europeia, sob a forma de bolsas, Erasmus ou outras, de colocação em empresas e em universidades, etc., para apoio aos mais de 200 mil russos que fugiram do regime do Putin, na maioria jovens talentosos e qualificados que ficaram sem família e sem país e que, por isso, precisam da nossa ajuda, tanto ou mais do que os refugiados da Ucrânia..Não podemos, no entanto, ser patinhos ao ponto de pensarmos que a cultura, a arte e o desporto são coisas etéreas e do espírito, e como tal alheias à política, imunes ao belicismo e aos esforços de guerra. Esse será o modo como nós, no Ocidente, concebemos a cultura, uma actividade intelectual livre, independente do poder. Mas esse não é o modo como Putin e as ditaduras de todas as épocas vêem a cultura e a arte e fomentam o nacionalismo desportivo. Ora, quando muitos dizem ser necessário compreender o "ponto de vista de Putin", entender as suas motivações, é também isto que devem perceber - perceber que, para Vladimir Putin, um atleta ou um maestro são soldados iguais aos outros, membros do mesmo exército. Censurar artistas russos só por serem russos, é bárbaro e idiota, até contraproducente. Suspender o Bolshoi e as orquestras, os desportistas federados, os artistas que mantêm ligações ao Kremlin, não é estúpido - é sensato. É, aliás, o mínimo que poderemos fazer para saldar a gigantesca dívida moral que contraímos perante a Ucrânia e o seu sofrido povo..Historiador. Escreve de acordo com a antiga ortografia.