Nasci e fui criado no Concelho de Oliveira do Hospital, numa família de velhos republicanos admiradores politicamente de Afonso Costa, oriundo do vizinho Concelho de Seia e amigo do Dr. Fernando Vale, o patriarca na luta pela liberdade da minha Região de Coimbra, oriundo do vizinho Concelho de Arganil. O Dr. Fernando Vale, médico, aos sábados ia para Coimbra onde vivia uma filha e onde me encontrava a estudar. À tarde, todos os sábados, encontrava-me com ele na livraria Moura Marques, no Largo da Portagem, e seguíamos para o consultório do Miguel Torga para discutirmos livremente o País e o Mundo, muitas vezes terminando as discussões ao jantar no restaurante do Pompeu, na Mealhada. Para mim, um jovem já altamente politizado, eram momentos inesquecíveis de liberdade e de muito incentivo no combate à ditadura fascista..Em 1963, o Dr. Fernando Vale convida-me para uma reunião clandestina em Lisboa, convocada por velhos republicanos, muitos amigos dele, para dinamizarem o Diretório Democrato-Social. O Miguel Torga, o Dr. Fernando Vale e eu, nessas imensas e inesquecíveis tardes e jantares de discussão política, há muito que sonhávamos com a reorganização de uma corrente política ligada ao socialismo democrático. Parti para a reunião, na companhia do Dr. Fernando Vale, com o compromisso de tentar opor-me à dinamização do Diretório Democrato-Social e acabar com a reunião. Para azar meu, a reunião era presidida pelo Cunha Leal, um orador de exceção e um experiente e velho político. Era uma batalha política entre um gigante da política e um principiante. Quem me salvou da ingrata missão política foi Mário Soares, que com uma intervenção brilhantíssima acabou com a reunião..O Dr. Fernando Vale e eu, no final, fomos ter com o Mário Soares. Ele felicitou-me pelas minhas intervenções e deu-me a direção do seu escritório de advogado, com o pedido de que, sempre que fosse a Lisboa, o visitasse. Começou em 1963 uma longa, profunda e conivente amizade. Em 1964 nasce no exterior a Ação Socialista, por vontade dos exilados políticos Tito de Morais e Ramos da Costa, e no País, clandestinamente, dinamizada por Mário Soares..Mário Soares foi para mim, durante 54 anos, o irmão que perdi em 1968 na Guerra Colonial.