Sócrates gosta de se vestir e comportar como o Cary Grant dos anos 50, um actor que nunca sabemos muito bem o que pensa e que Hitchcock colocou sempre em situações de grande ambiguidade. Pode ser um assassino como na Suspeita; pode ser o homem que vende a noiva em Notorious; pode ser o zé- -ninguém eternamente perseguido, como em Intriga Internacional. Tudo, debaixo de uma grande placidez e de um guarda-roupa que seria Armani se estivéssemos nos anos 90." .O autor da comparação é o encenador e realizador Jorge Silva Melo. Que associação existirá entre o actor dos mil e um papéis de suspense e o primeiro-ministro português? Não é física. Semelhanças desse tipo, entre o galã do risco ao lado sem um cabelo em desalinho, houve quem as encontrasse em Cavaco Silva durante a campanha para as presidenciais do ano passado. Muito menos será uma associação temporal. É uma associação que tem a ver com a personagem e o que ela representa. Imagens. Um e outro, actor e governante, terão em comum "o fato e o comportamento"..Só que nos tais anos 90, em vez do homem que veste "bons fatos" havia o "rapaz" de jeans e blusão de ganga que o publicitário Carlos Coelho se lembra de ver um dia entrar no Rato, ainda se desenhava a "rosa" que daria a vitória a António Guterres. Esse "rapaz" vestido de ganga que perguntava, segundo se lembra Coelho: "Vocês não acham que eu daria um óptimo ministro?" .Era assim Sócrates em meados de 90. Ainda sem "a roupa muito marcada", como sublinha Silva Melo, autor do filme António, Um Rapaz de Lisboa, um outro rapaz que dificilmente poderia ser substituído por José, que não é um rapaz de Lisboa, embora lhe apontem a urbanidade como marca. .O tema é a imagem e o que ela deixa transparecer. Que imagem passa o primeiro-ministro? Sem sair da linguagem cinematográfica, o jornalista Vicente Jorge Silva diz que ele representa muito bem o papel de "cowboy solitário", alguém que foi capaz de "pôr ordem no partido", um homem do dedo em riste e "gesto calculado", o "bom aluno" que tudo prepara, com um "lado hipermecânico, robotizado", até na cadência das frases. .A máscara."O líder carismático, sem proximidade alguma, que não tem medo de ser afrontado e quer comparar-se a John Kennedy, um jovem capaz de tirar o país da crise", diagnostica o psiquiatra Carlos Amaral Dias; o político com uma "imagem de-masiado construída", sintetiza o publicitário ou, voltando a Silva Melo e ao mestre do suspense com o seu actor "ambíguo", um homem "com pseudónimo". Explica: "Cary Grant é pseudónimo de Archibald Alexander Leach. Sócrates também é pseudónimo no sentido da máscara. Eu gostaria que Hitchcock o filmasse e acho que Sócrates tam- bém gostaria de ser filmado por Hitchcock." Por isso, na cabeça de Silva Melo há um plateau onde se grita "acção" e é Hitchcock a filmar José Sócrates no papel de Cary Grant. Em A Suspeita, em Intriga Internacional, em Notorious? Ficção? Cinema a partir de uma imagem que nunca chegou a registada a não ser na cabeça de alguém. A imagem de Sócrates pelo olhar do realizador norte-americano.."Para Hitchcock, Cary Grant era uma espécie de máscara do nada. Sócrates é uma máscara produzida com todo o rigor. E pode ser a máscara do genro ideal, aquele que nenhuma mãe de 80 anos desdenharia, mas que afinal poderia ser sempre o homem que envenena a noiva em Notorious." Esta ambiguidade, segundo Silva Melo, resulta do facto de ele não deixar nunca transparecer a sua imagem além do superficial e disso poder "soar a postiço", como salienta depois o jornalista. ."Dois anos e nem uma gaffe?", nota Vicente Jorge Silva num exercício de memória em que admite, no entanto, falhas. "Nem uma gaffe", concorda, mais definitivo, Carlos Coelho, o especialista em marcas que defende que isso "não é perfeição é gestão" e que "a gestão da gaffe", pode ser perniciosa. Afinal, "não são as virtudes que ficam para a História, com agá grande, mas os feitos e os defeitos. Onde estão os defeitos de Sócrates?" Interroga-se. Reponde: "no conceito da camisa branca levado ao excesso". .Será, então, este filme uma história sem sombra de pecado, tendo como banda sonora uma música que fez sucesso nos anos 80, Olhó Robô?, e Lena d'Água cantou na fugaz banda Salada de Frutas. É a história contada a partir da imagem. A de um homem que é primeiro-ministro de Portugal há dois anos e se chama José Sócrates Carvalho Pinto de Sousa.