Um escritor na barca das histórias infantis

A sua obra poética leva o leitor a "lugares aonde nunca se chega". Hoje escreve para crianças como forma de resistência "à tentativa perversa para que arrastam as redes sociais".
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"A andou na mata africana, forçado a um "salário de guerra". A rude experiência deixa marcas, que se estenderam, como finas raízes, na escrita das suas primeiras obras. Nos anos oitenta, a primeira "incursão ao imenso continente que é a literatura para crianças". E a viagem na barca das histórias para os mais novos continua, próspera, criativa. Vergílio Alberto Vieira completa agora quarenta anos de vida literária. A Universidade do Minho dedica-lhe um simpósio.

Xosé Maria Alvarez Cáccamo, escritor e crítico galego, terá criado a melhor imagem para a poesia do autor de A Imposição das Mãos. Compara-a uma viagem. Mas diferente das viagens comuns. A poesia de Vergílio Alberto Vieira leva o leitor "a lugares aonde nunca se chega, de onde nunca se parte".

Em 2005, organizou uma antologia da sua poesia, que é marcada pela concisão e limpidez. Chamou--lhe Papéis de Fumar, como os antigos camponeses minhotos, que Vergílio conheceu bem, designavam as mortalhas do tabaco de enrolar. Essa obra reúne poemas de, entre outros livros, A Arte de Perder, Crescente Branco, O Voo da Serpente e Paixão das Armas.

O trabalho poético e ficcional para adultos continua. Mas é à literatura infanto-juvenil que o autor tem dedicado maior atenção nas últimas duas décadas - em prosa, em texto poético ou dramático. O livro de estreia para os mais novos, A Semana dos Nove Dias, surge em 1986. "Ilse Losa gostou das histórias, publicando-as na Asa", lembra.

No caso de Vergílio Alberto Vieira, o escritor não dá por concluído o trabalho com a publicação do livro. O autor de O Reino Cintilante gosta de acompanhar as palavras que escreve. Ou seja, por ano, é convidado e vai a dezenas de escolas partilhar o maravilhoso mundo das histórias infantis.

Importante, diz, é a "humanidade nessa aproximação que generosos corações acolhem à margem de um ensino público massificado, tantas vezes fútil, tantas vezes delirante face a modelos, finalidades, resultados, agenciados pelas estatísticas que os tolhem". O diálogo com os leitores, um pouco por todo o País, serve ainda "para tirar a limpo o que ainda é razão para resistir à tentativa perversa para que arrastam as redes sociais".

Em breve, chega as livrarias a Oleira Prodigiosa, história da Rosa Ramalho contada aos mais pequenos. A afeição pela arte de velhos artesãos, conta, é antiga: "Povoaram-me a infância com seus rostos talhados pela paixão - rude paixão - de quem ama a vida, mesmo quando ela lhes é madrasta."

A escolha da Rosa para personagem de livro tem uma explicação. "A oleira foi uma lição de vida. Morreu como viveu, sorrindo à morte com a naturalidade de uma flor: efémera como tudo o que é eterno." A mulher que esculpiu santos e demónios viveu em Barcelos - na mesma terra onde Vergílio, aos 18 anos, trabalharia pela primeira vez.

O autor de Arte de Perder e O Livro dos Enganos, distinguido com o Grande Prémio de Literatura ITF, nasceu em 1950 em Amares. Lugar onde se chega e há "a luz do feno" que "bebem// os cavalos."

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