Um drama feminino vivido entre Albânia e Itália

A protagonista de "Virgem Prometida" é uma mulher albanesa obrigada a comportar-se como um homem - um drama invulgar.
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Não é fácil explicar o que acontece num filme como Virgem Prometida (estreia-se hoje), realizado por Laura Bispuri, cineasta italiana que aqui se estreia na longa-metragem. Desde logo porque importa preservar o direito de o espectador descobrir os "segredos" que o habitam seguindo as suas próprias peripécias, não através deste ou de qualquer outro texto.

Lembremos, por isso, o essencial (que não envolve qualquer "revelação" abusiva, já que corresponde à informação disponível no próprio trailer do filme). A "virgem" a que o título se refere é uma mulher, relativamente jovem, compelida a mudar o seu comportamento, "transformando-se" num homem. Daí a pergunta que pode surgir: estamos, então, perante uma história de transgénero, em que um ser humano de determinado género contém, em si, como uma espécie de identidade escondida, outro género? Nada disso, já que tudo acontece a partir de uma contundente imposição social: esta é "apenas" a história de Hana, que é forçada a assumir-se como Mark.

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A marca decisiva desta transformação, sublinhe-se, não está em qualquer movimento de consciência, muito menos em qualquer impulso hedonista, mas sim no seu carácter compulsivo. Estamos numa zona remota das montanhas da Albânia em que o peso de tradições primitivas não só delimita os comportamentos e os direitos das mulheres em função da mais absoluta autoridade masculina, como as obriga, quase sempre, a casarem-se com homens que não escolheram (muitas vezes, nem sequer conhecem). Quando alguma delas consegue escapar a tal destino, deve sacrificar a sua condição feminina e jurar virgindade eterna (Vergine Giurata é o título original italiano). Mark é, assim, o homem que "nasce" no lugar de Hana, a partir do momento em que lhe foi retirado o direito de existir como mulher.

A verdade mais íntima

Para a personagem central, tal "sacrifício" é sustentado durante cerca de uma década, até que decide partir para Itália, ao encontro da prima com quem partilhara infância e adolescência. A intensidade afetiva do filme de Laura Bispuri (baseado num romance de Elvira Dones) nasce também do contraste cenográfico que assim se estabelece: Mark deixou para trás o frio gélido da sua região albanesa para tentar integrar-se numa vida urbana totalmente diferente; ao mesmo tempo, tudo se passa como se, através da sua presença física, os espaços italianos ecoassem a pesada herança de uma ruralidade asfixiante. Dito de outro modo: trata-se de saber se, por baixo da máscara que é Mark, ainda resta algo de Hana.

Na sua transparência emocional, Virgem Prometida é também um filme sobre um drama infinitamente complexo: quando alguém é despojado da sua identidade sexual, como sobreviver? Ou seja: como estabelecer relações com os outros a partir da sua verdade mais íntima?

Compreende-se o desafio imenso que a personagem de Hana/ Mark terá representado para Alba Rohrwacher (que conhecemos, por exemplo, de O País das Maravilhas, de 2014, realizado por sua irmã, Alice). Não se tratava tanto de interpretar uma mulher que "finge" ser um homem, mas mais de pôr em cena a perturbação visceral de alguém que foi educada para se "esquecer" de quem é.

Estamos, enfim, perante o exemplo invulgar de um filme que, através do realismo de lugares e objetos, nos convoca para a descoberta de uma realidade arquitetada, em nome da tradição e da "pureza", contra as coisas palpáveis do mundo. É um filme italiano que, curiosamente, foi gerado a partir de uma invulgar aliança de produção: além da Itália, estão envolvidos na sua gestação financiamentos e contributos provenientes de Albânia, Kosovo, Suíça, Alemanha e França.

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