Um conto de fadas no Palácio da Brejoeira

Esta é a história real de Hermínia Pais, uma menina que recebeu do pai um palácio no Minho, fez-se mulher, plantou uma vinha e criou um vinho de sonho, o Alvarinho.  <br />
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Uma almofada de veludo vermelho, um pequeno cordeiro e uma chave... não uma chave qualquer, mas uma que lhe abriu para sempre os portões de um belo palácio, entregues com uma vénia por um servo a mando de seu pai, mudaram-lhe a vida para sempre. Foi como que a atribuição de um título de princesa, que se lhe colou à pele até aos dias de hoje. Hermínia Pais, proprietária do Palácio da Brejoeira, antiga Quinta do Vale da Rosa, em Pinheiros, Monção, conta, aos 92 anos de idade, a sua história de vida como quem desvenda um conto de fadas.
Com tudo de bom e de mau que isso possa significar. A perda da mãe em criança, a dura vida com a madrasta, a quem acaba por cuidar no fim dos seus dias, o amor infinito do pai selado pela oferta de um belo palácio, o seu retrato aos 18 anos pendurado ao lado dos de reis e rainhas num dos salões da sua valiosa propriedade – conhecida como o «último solar fidalgo português» – tudo remete para a fantasia. Só que com o peso da realidade.
Na sua história, ficou a faltar um príncipe, porque D. Hermínia Pais simplesmente o preferiu deixar de fora da sua história. «Nunca quis casar. Era uma pessoa que quando se me metia uma coisa na cabeça não havia nada a fazer, e meti isso na cabeça...», justifica. Em contrapartida, gerou um filho. Que não é de carne e osso, mas que lhe deu muitas alegrias: o vinho Alvarinho. Um néctar precioso, apreciado no mundo inteiro. É por isso, que muitos a conhecem por «senhora» e «mãe do Alvarinho».
«Andava por aí sozinha uma tarde», conta, apontando o frondoso bosque que rodeia o Palácio da Brejoeira. «E pensei: esta propriedade não tem vinha, não pode ser. Falei com o Amândio Galhano, engenheiro agrónomo, e disse-lhe que queria vinha mas que tinha de ser a condizer com o palácio», recorda. A escolha acabou por recair no Alvarinho porque «era uma casta nobre». A ideia surgiu em 1964 e o primeiro vinho Alvarinho Palácio da Brejoeira saiu para o mercado em 1976. «Naquela altura era uma casta muito recente. Não havia quem fizesse Alvarinho.» Hoje quando lhe entregam uma garrafa do vinho verde branco que cultivou (e ainda se cultiva) com êxito na sua propriedade durante anos, para que se deixe fotografar com ela nas mãos, Hermínia Pais aperta-a contra o peito, como se de um filho se tratasse, e diz: «Anda cá minha querida.»
Com uns olhos de um raro verde aquoso, a senhora do Alvarinho responde com um sorriso quando lhos elogiam e comenta que nem sempre foram assim. «Eram azuis e passaram a verdes com a mudança da idade. Há coisas muito esquisitas...» Sentada num banco de jardim junto à porta do seu palácio, hoje gerido por um administrador, Hermínia Pais desfia memórias. Lembra com a maior lucidez o dia em que seu pai, Francisco de Oliveira Pais, um industrial de cartuchos para armas da zona de Lisboa, sócio da Indústria Portuguesa de Munições, subiu à província com a família, à procura de adquirir uma pequena propriedade. «Viemos ao Minho para comprar qualquer coisa, porque isto é muito bonito, mas o que vimos era tudo muito normal, muito vulgar. Procurávamos uma coisinha porque o meu pai era uma pessoa de ideias modestas.» Mas em vez de uma coisinha o passeio levou-os até uma apaixonante propriedade nos arredores de Monção. «Quando aqui passámos (na Brejoeira), o motorista parou e quando saímos do carro eu disse ao mesmo tempo que o meu pai: Isto sim!»
Corria o ano de 1937 quando a família Pais se encantou com o majestoso palácio construído em 1806 por iniciativa de um abastado fidalgo Luís Pereira Velho de Moscoso, senhor de extensas terras entre a zona de Monção e a vizinha Galiza, com dinheiros que trouxera do Brasil. A obra terá sido concluída 28 anos depois, já após a morte do pai Moscoso, pelo seu único filho. Custou a construção situada na freguesia de S. Cipriano de Pinheiros, a três quilómetros da vila de Monção e junto à estrada que liga a Arcos de Valdevez a quantia de «400 contos de réis».
O encantamento com a Brejoeira foi tal que no próprio dia da visita ao Minho, Francisco Pais não resistiu a procurar o então proprietário Pedro Maria da Fonseca Araújo, ficando a saber que o palácio se encontrava à venda. «Disse ao meu pai: gostei muito, mas acho uma compra muito atrevida», conta Hermínia Pais, afirmando que depois disso voltaram para Lisboa «sem falar mais no assunto».
Só que a descoberta feita durante o passeio ao Minho nunca mais terá largado a mente de nenhum dos Pais. Tempos depois acabaram por ser convidados por Pedro Araújo a de novo visitar o palácio e a ideia da compra foi ganhando força. As visitas foram-se sucedendo. «Uma dia meteu-se-me na cabeça que queria visitar a capela (da propriedade) e procurar saber porque é que o seu patrono foi desde sempre o São Sebastião», recorda a actual proprietária. «Nesse dia andávamos por lá e ouvi um órgão tocar, estranhei aquilo e perguntei quem tocava. Foi quando me disseram que era a filha da minha madrasta. Fiquei preocupadíssima, porque como já tinha percebido a compra e sabia que o meu pai o tinha comprado para mim, pensei: Agora todos o querem (ao palácio). Vai ser bonito.»
O gesto simbólico que marcou a vida de Hermínia Pais acabaria por acontecer precisamente nesse dia. «Veio um empregado, que era muito dedicado e gostava muito de estar no palácio, trouxe uma almofada de veludo encarnada, um cordeirinho em cima e a chave do portão, e entregou-me», lembra, acrescentando que a sua reacção foi um misto de felicidade e angústia. «Eu disse: ó pai isto não é muito complicado? E ele disse: vai ser». E foi, por causa da relação com a madrasta, que sempre fora «péssima» e que a partir desse momento foi pior. Hermínia traz bem vivas na memória as mortes da mãe, em criança, e do pai já na vida adulta. «Quando os meninos perdem a mãe em pequeninos, Deus devia levá-los», comenta.
A proprietária da Brejoeira não se prende ao passado, desvenda também projectos futuros. Quer transformar a antiga Quinta do Vale da Rosa num hotel de charme. Enquanto esse dia não chega, o palácio abre-se agora ao público como nunca o fez em dois séculos de existência. Recentemente, o administrador decidiu abrir os protões da propriedade, património nacional desde 1910, e a curiosidade tem sido tanta, que o obrigou a profissionalizar o esquema de visitas. Esta semana acolhe o primeiro grande evento, o Brejoeira Fashion, um megadesfile de moda. Visitar este imponente palácio a que falta uma torre para ser real (tem três, precisava de quatro) e que foi sempre palco de grandes festas, pode até superar a mais fértil imaginação de quem o admira do lado de fora.

Um palácio a sério
Lustres de cristal e bronze gigantescos, luxuosas tapeçarias, mobílias lacadas a ouro, de madrepérola e pau-preto, pratas e loiças do Oriente, tectos de caixotões e ornamentados com frescos… A decoração deste palácio faz lembrar contos de fadas. Junto à entrada, um teatro palatino e após um lanço de escadas com longa passadeira vermelha, um jardim de Inverno, com vitrais e uma escultura do rei D. Manuel II. Um lanço de escadas e mais tapete vermelho e chega-se a uma imensa biblioteca, que dá para amplos salões, um de retratos, a sala do trono dedicada ao rei, e as salas de fumo, de jantar e de armas. No salão dos retratos régios em que a decoração é de inspiração francesa, o retrato de Hermínia Pais, com 18 anos de idade, pintada com pose de princesa, consta ao lado dos de D. José I, D. Maria I, D. João VI e de D. Manuel II. No portentoso salão de jantar com uma longa mesa de 28 lugares terão reunido, pelo menos uma vez, secretamente Franco e Salazar em 1956.
A visita à Brejoeira dá ainda acesso ao quarto do rei, onde terá dormido o monarca D. Manuel II, cuja cama com dossel esconde um colchão de crinas da cavalo e repousa sobre tapeçaria persa. A sala das armas (quase) todas africanas, que ostenta lanças, catanas, arcos e flechas, e uma pequena escultura de Diana deusa da caça, dá para um jardim repleto de camélias e com um lago de nenúfares, e que, por sua vez, conduz a um bosque. Há ainda uma quinta com trinta hectares, dos quais 18 são dedicados ao cultivo de vinha e onde se produzem anualmente cem mil quilos de uva.

Um vinho de sonho
Da adega da Brejoeira saem por ano sessenta mil litros de vinho, em boa parte do famoso Alvarinho Palácio da Brejoeira criado por Hermínia Pais. «Antes aqui não se cultivava vinho, aliás não se cultivava nada. Só com a Senhora é que surgiu o Alvarinho. É aqui o berço dele. Isto era um palácio de festas, a Senhora é que rendibilizou a casa», conta Graça Pereira, 45 anos, vinte dos quais a trabalhar no Palácio da Brejoeira como administrativa. Conhece tão bem o espaço que serviu de guia às visitas nos primeiros tempos de abertura ao público. Quanto a Hermínia Pais, que acompanha de braço dado, com a delicadeza de quem segura um cristal, define-a como «uma senhora muito boa, muito amiga e única. Ninguém a substitui. Será sempre a nossa patroa. Tem berço», conclui.
 

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