Lembram-se da última vez que estiveram apaixonados? Apaixonados, mesmo. Não só com o coração a transbordar de alegria, que isso, além de ser anatomicamente impossível, é lamechas e piroso de dizer. É mesmo com o corpo todo cheio, como se fossem rebentar de felicidade (outro cliché), e ainda por cima com vontade de espalhar aos quatro ventos. .Lembram-se disso? Da falta de sono, da ousadia, do descontrolo verbal, das gargalhadas incontidas? Da hiperatividade e do atrevimento... Ficamos mais descarados, conseguimos ignorar o que não interessa e passar por cima de obstáculos noutros momentos inultrapassáveis. Somos capazes de ir de Sagres a Vila Real só para estar uns minutos com aquela pessoa. Estamos duas semanas sem ligar ao pai, à mãe, à irmã, ao melhor amigo. Cantamos. Corremos. Ficamos tensos. Numa palavra, eufóricos..Da próxima vez que se sentirem assim, parem por uns segundos para pensar no que se está a passar dentro da vossa cabeça. O coração já sabem onde está e o que sente. Mas algures no vosso cérebro, numa zona a que a ciência chama núcleo caudado.A má notícia? Isto tem um prazo de validade. O que talvez seja bom, porque tanta dopamina tornar-se-ia cansativa. Além disso, aliado ao aumento das descargas deste neurotransmissor, registam-se outros fenómenos bioquímicos no cérebro que podem levar-nos a fazer grandes disparates - mas a isso voltamos depois....A boa notícia? Pode acontecer em vários momentos da nossa vida. Não só podemos repetir a sensação como podemos repeti-la com várias pessoas - de preferência não ao mesmo tempo. Sim, isto ajuda a deitar por terra a teoria de «viveram felizes para sempre». Quer dizer, podem viver felizes, mas esqueçam lá a euforia. .Mas descansai, românticos, descansai. Nem tudo se consegue teorizar. Muito menos ao fim de meia dúzia de linhas sobre o assunto. Continua a haver muita coisa que não se explica, apenas se sente, e, por muito que pesquisem e queiram saber mais sobre reações químicas no vosso cérebro, ainda há uma grande margem de manobra para tudo o que a ciência não sabe dar resposta. Ou talvez saiba, mas nós, leigos no assunto, não percebemos ou fingimos que não perceber. Afinal, os cientistas até podem ter respostas para o que a cabeça faz, mas o coração é que continua a ditar as perguntas. .E da próxima vez que vos perguntarem «Já não estás apaixonado/a por mim?», podem sempre responder: «Não é nada disso, querida/o. A culpa é do meu cérebro, que já não produz dopamina suficiente.»