Estará a Europa condenada a tornar-se o que ela é na realidade, um pequeno cabo do continente asiático?.(Paul Valéry, La Crise de l"Esprit, 1919).No final da primeira das grandes guerras em que a Europa começou a tratar de se autodestruir, Paul Valéry deu-se conta da verdadeira dimensão daquilo a que orgulhosamente se intitulava até então a "metrópole do género humano" ("a Europa, faixa estreita que só figura no globo como um apêndice da Ásia, tornou-se a metrópole do género humano", podia ler-se num manual de geografia do século XIX). Sim, os impérios egípcios e babilónicos eram mencionados nos nossos manuais escolares (Valéry chama-lhes "uma espécie de pré-Europa"), mas de passagem, para dar lugar à hegemonia de Atenas e Jerusalém, vistos como pilares fundadores de uma cultura exclusiva, a irradiar poderosamente para o resto do mundo..Não que os séculos anteriores tivessem desconhecido a riqueza e a cultura dos impérios orientais, com quem já os romanos comerciavam e que, para falar só dos nossos, Fernão Mendes Pinto, Tomé Pires e Gaspar da Cruz reconheceram e admiraram no século XVI. Mas o século XIX, o século dos imperialismos (e estes impérios europeus eram muito menos inclusivos do que os anteriores e muito mais imbuídos da ideia de serem superiores ao resto da humanidade), veio trazer aos europeus a convicção de uma supremacia, que não advinha mais da religião, como para os impérios católicos, mas de um invocado "espírito europeu", que era por Valéry considerado como criador "das mais numerosas, surpreendentes e fecundas realizações civilizacionais e culturais do género humano"..Não que a crueldade, a opressão e a escravidão nos outros impérios ficasse muito aquém destes novos e orgulhosos impérios europeus: a diferença é que estes últimos acreditavam estar a Europa destinada a ser a dona do mundo e serem os europeus superiores a todo o resto dos seres humanos espalhados pelo globo..A ideia da raça superior, que culmina no Holocausto, nasce efetivamente no colonialismo em que assenta o racismo. Não é mais a superioridade da fé católica (que justificou a perseguição aos judeus) e a luta do mundo cristão com o mundo muçulmano e pagão que vêm legitimar a guerra e a conquista e a submissão de outros povos - é uma alegada supremacia civilizacional, que paralelamente se vai assumir como superioridade racial..O problema atual da Europa é não conseguir sair dessa visão umbilical de si própria como cabeça pensante do mundo, que já em 1919 Valéry punha em causa. Destruída por duas guerras, de que se levantou dividida entre as potências antagónicas dos Estados Unidos e da União Soviética, perdidos os impérios coloniais e os seus fumos, ainda assim continuaram os europeus a sonhar-se como os donos do mundo!.Desse sonho, após a queda do Muro e o crescimento da Índia e da China como potências mundiais, restam-nos hoje apenas pesadelos: pesadelo de uma extrema-direita que recusa a realidade, porque vive imaginariamente no fantasma do Império Britânico ("Brexit"), no espetro do Império Francês ("le mal français") ou numa Alemanha onde "o nazismo nunca existiu". Essa extrema-direita europeia, que vive intelectualmente no imaginário, é perigosa porque vive e age politicamente no real. E cresce dia a dia..A nossa extrema-direita em Portugal, onde, a gosto ou a contragosto, ninguém vive no imaginário do Império, aponta para diferentes pesadelos: mas isso são conversas para um outro dia....Diplomata e escritor