A partir de 16 sketches doutros tantos dramaturgos, um punhado de canções com música ao vivo, quase todas do tempo da I Guerra Mundial, e uma dúzia de intérpretes, Jorge Silva Melo construiu Conferência de Imprensa e Outras Aldrabices, um espectáculo de cabaré político que os Artistas Unidos (AU) estrearam ontem em Lisboa, no estúdio do Teatro D. Maria II..Conferência de Imprensa, de Harold Pinter - a quem os AU dedicaram boa parte da programação dos anos recentes -, é um sketch do dramaturgo britânico, estreado em Londres há três anos e logo objecto de leitura pública em Lisboa, no Espaço A Capital. Tal foi o ponto de partida para esta alargada conferência, com outros 15 sketches (uns mais políticos do que outros)que, entretanto, Jorge Silva Melo convidou os restantes dramaturgos a escreverem, em homenagem a Harold Pinter. .O menu é cozinhado com palavras de, entre outros, os espanhóis Antonio Onetti e Juan Mayorga, os italianos Antonio Tarantino e Spiro Scimone, os russos irmãos Presniakov, o norueguês Jon Fosse ou os portugueses Miguel Castro Caldas e José Maria Vieira Mendes. O sketche deste último (Proposta Concreta, inspirada em A Modest Proposal de Jonathan Swift) distingue-se, na heterogeneidade dum conjunto bastante irregular, pelo humor negro transbordante de gore, consumando-se como suculento prato de gastronomia canibal, de seu título completo Proposta Concreta para Evitar que os Desafortunados, Drogados, Indigentes, Desempregados, Sem-abrigo, Infelizes, Pobres, Emigrantes Ilegais e outros Inúteis Pesem na Economia Portuguesa e antes Possam Contribuir para a Prosperidade Social e o Futuro deste nosso País. De resto, não é fácil manter a força da invectiva do texto inicial de Pinter, que imaginou a Conferência de Imprensa dum ministro da Cultura que não vê incompatibilidade no facto de ter sido chefe da Polícia Secreta, perante uma comunicação social acrítica e reverente. .Os sketches são, para Silva Melo, "a resposta possível, neste tempo de guerra, a resposta rude, grosseira, mal educada, bruta, a resposta necessária aos disparates do mundo", porque "em tempo de guerra também se limpam armas" e talvez "só isso" - "limpar palavras, chamar as coisas pelo nome" - os artistas possam fazer, "no meio desta brutalidade imperialista, desta exploração, deste colonialismo para que fomos sendo atirados". .Com música pelo pianista Mário Frasco (a fechar, uma versão portuguesa, que soa estranha, de Le Déserteur de Boris Vian), Conferência de Imprensa e Outras Aldrabices tem participação especial de Lia Gama, outras interpretações de Américo Silva, António Filipe, Elsa Galvão, Gonçalo Waddington, Joana Bárcia, João Meireles, Miguel Borges e Sylvie Rocha, nomeadamente. Rita Lopes Alves criou cenografia (com João Calvário) e figurinos, a iluminação é de Pedro Domingos..Antes que finde a carreira do espectáculo (até dia 26, 22.00 de terça a sábado; domingo, 16.15), os AU voltarão a Pinter, na despedida do Teatro Taborda onde estreiam, dia 24, a sátira A Nova Ordem Mundial, antecedida por leitura de poemas do seu livro Guerra (ed. Quasi).