Um braço, duas promessas e três carcaças

Publicado a
Atualizado a

Fiz duas promessas a duas filhas minhas, uma a cada uma. A uma prometi vermos juntos os cem melhores filmes de terror de sempre. Vamos usar a lista do Museum of Pop Culture de Seattle, mas podia ser outra qualquer, que começa com o Gabinete do Dr. Caligari (Robert Wiene, 1920), e termina com Mártires (Pascal Laugier, 2008). À outra prometi fazermos pão. Já vi muitos dos filmes da lista, talvez metade, que reverei com gosto, vai exigir persistência, estudar antes para ver se todos são adequados, e enquadrar os filmes. Quanto ao pão, a coisa vai ser mais complicada. O meu historial como apreciador e comedor de pão é inversamente proporcional ao meu sucesso como padeiro. Encurtando a história, sempre que tentei fazer pão saiu uma bela porcaria e faltou-me a determinação para identificar e matar o erro.

Cozinhar bem não é fazer bem à primeira, é fazer bem o que saiu mal à primeira. Aquela adrenalina que só quem cozinha conhece vem em dose maior quando a maionese não deslaça, quando o soufflé não baixa, ou quando o leite-creme está naquele ponto que consegue ao mesmo tempo calar os que gostam dele mais líquido e os que gostam dele mais sólido. Se me entendo bem entre as panelas e fogões, o pão sempre foi um problema. Daí também a promessa, para ir resolvendo estas coisas mal resolvidas, e ir ensinando às minhas filhas que pouca confiança merece um homem que não saiba fazer pão, ou pelo menos não continue a tentar.

E agora até o pão está na moda, o que quer dizer que qualquer dia vamos ter lojas que vendam pão em Portugal. Não estou a falar de cafés que vendem pão, nem de supermercados que vendem pão. Nem me refiro àqueles entrepostos assépticos lisboetas onde há décadas se aviam carcaças e pão ralado que dão pelo nome de padarias. Estou a falar de lojas que vendam pão bom de várias variedades, pão que lá seja feito. Já temos uma, a Padaria Gleba (R. Prior do Crato, às Necessidades), que faz excelente pão do grão que lá se mói. Ou ver as últimas fotos do blogue Homem que Comia Tudo, do Ricardo Dias Felner que aprendeu a fazer pão, e ver aqueles pães perfeitos tentando não sentir nem inveja, nem água na boca.

Mas estava a ser injusto e snob. Volta e meia a humanidade que manda põe-se de acordo para fixar ou limitar o preço de qualquer coisa. Esta idiotia cíclica, que atrai tanto setores à esquerda como à direita, consumidores ou empresários incumbentes, loiros e morenos, é culpada por muito do mal que vivemos, de atrasos de décadas em vários setores, do imobiliário aos transportes. Mas se há coisa boa que saiu deste aleijão foi a carcaça. A carcaça surgiu como uma tentativa de aumentar a margem num negócio de preço controlado, pelo menos é o que se diz. E sendo o pior pão, a carcaça acaba por ser o melhor pão, com manteiga, sem manteiga, com queijo ou fiambre, ou só comida sem mais nada, aberta e revelando as suas imensas crateras de ar (daí a rentabilidade), até mesmo cortada com faca, sempre na horizontal, nunca pelo vale. Há imagem mais bonita do que um saco de plástico fininho transparente a abarrotar de carcaças?

Esta semana Centeno disse que a recapitalização da Caixa estava a demorar tempo porque não era como "ir comprar três carcaças". Ir ao pão pode ser rápido, mas as três carcaças não se fizeram em três tempos. As coisas demoram o seu tempo, e as melhores são aquelas que não se pode apressar o tempo que levam. Ao pão é preciso dar-lhe tempo, estar com tempo, estar com o tempo. E é coisa que em Portugal precisamos, estar com o tempo e chegar a tempo. Um dia estava numa missa, que é das poucas coisas que começa a horas, e o padre nunca mais chegava. As freiras foram aguentando a coisa e adiantando o serviço. Lá chegou por fim no momento da homilia. Pediu desculpa pelo atraso, tinha havido uma confusão, e disse " Jesus disse amai-vos uns aos outros, ouviram?, é a parte que mais interessa disto tudo" e sentou-se. Era o Padre Carreira das Neves, que morreu esta semana. Isto lembra-me o meu tio, o melhor contador de anedotas, que conta uma em que alguém diz que Jesus pediu que nos amássemos e não que nos amassemos.

Há muitos livros sobre pão, mas o melhor de todos deu-mo a minha mãe (sempre vigilante com o que eu diga aqui sobre ela, costuma perguntar não tens mais nada em que falar?), é de um irmão jesuíta americano Rick Curry com receitas várias e reflexões sobre o pão e a vida (Secrets of Jesuit Breadmaling, tenho a versão espanhola). Rick Curry, que morreu em 2015, passou a vida a ensinar teatro, trabalhar com veteranos de guerra mutilados, e a amassar pão nas comunidades onde vivia. Não tinha o braço direito, tinha nascido sem ele. Em pequeno, a relíquia do braço direito de S. Francisco Xavier tinha passado por Filadélfia, e a escola tinha-o levado a beijar a relíquia, na esperança de um milagre pelo qual os colegas rezavam. Rick ficou em pânico, e quando passou pela relíquia escondeu o coto, a última coisa que queria era que lhe crescesse um braço, e passou a noite vigilante, só descansando, ele e a irmã, quando viram que continuava tudo igual a como tinha nascido.

É o livro do Rick que vamos usar nesta etapa do pão, e sei que vai sair bem. E enquanto a massa leveda vão-se vendo aviando uns filmes de terror com a outra. Só espero que não seja tão traumatizante como levavar as crianças a beijar braços do século XVI.

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt