O sentido das proporções é talvez a característica mais importante de quem avalia seja o que for. O FMI não acredita nisso. Uma inundação grave numa cidade com a dimensão de Beja será para o Fundo Monetário Internacional o mesmo do que uma inundação numa capital com o tamanho de Lisboa. As características são de facto semelhantes - água por todo o lado, entupimentos, lojas e casas alagadas, pavimento levantado, pessoas assustadas, alguma desorientação, a obrigação pública (política) de intervir depressa. Do ponto de vista formal, sim, uma inundação é uma inundação é uma inundação. Como um problema no sistema bancário é isso mesmo, aconteça ele em Chipre, em Roma ou no coração de Wall Street. Haverá nos três casos uma montanha de crédito malparado, que acaba reconhecido nos balanços das instituições financeiras com a designação de "imparidade" - isto é, dinheiro emprestado que só será recuperado em parte ou não o será de todo. Por exemplo, a Ongoing pediu ao BES, ao BCP e ao Montepio (a este último, apenas um bocadinho...) 790,5 milhões de euros, mas só se dispôs agora a devolver 17,4 milhões num confortável prazo de 15 anos. A proposta foi recusada por todos os credores. Imparidade é este bonito serviço. É o contrário de uma inundação de capital, é uma carestia de tal ordem que os balanços dos bancos ficam em risco de vida (na pior das hipóteses) ou vivem com dificuldades, não só porque não chega a liquidez que era suposto entrar, mas também porque os reguladores, para assegurar a solvência (segurança) do banco, forçam a gestão a pôr de parte uma outra fatia de dinheiro. E aqui chegamos ao FMI. Com a delicadeza do costume e a memória de elefante (estiveram por cá entre 2011 e 2014, não foi?), o fundo coloca o buraco no sistema financeiro italiano (360 mil milhões, um terço do malparado contabilizado na zona euro) ao nível dos 20 mil milhões que se assume estarem em apuros na banca portuguesa. Ora, se em relação ao PIB de cada país a conta já está errada, a história ainda muda mais de figura quanto ao impacto europeu. Se a Itália rebenta, é o armagedão; se Portugal estoura ou vai estourando devagarinho, a hipótese de contágio na zona euro, existindo, é proporcionalmente mais pequena. A diferença entre um murro e uma chapada. Dito isto, dois pontos apenas: 1) é evidente que o resgate de 2011 subavaliou o problema nos bancos, embora se tivesse sido emprestado mais dinheiro na altura hoje a dívida pública estaria talvez mais próximo dos 150% do PIB e não nos 130%, o que traria problemas de sustentabilidade; 2) apesar da má consciência do FMI neste assunto e da sua absoluta falta de sentido político (relatórios como o de ontem agravam logo a perceção do risco-país) é essencial que o governo tenha sangue-frio e, mais do que nunca, fale para os mercados e os convença com números e factos, o que é muito diferente de negociar e arengar com Bruxelas. O que está em jogo é, de facto, muito importante. É vital.