Última bandeira portuguesa em Macau está num museu

Ao contrário da bandeira arriada no Palácio do Governador, que acabou por simbolizar o fim  da secular estada portuguesa em Macau e continua guardada numa casa particular, aquela que marcou o derradeiro momento dessa presença lusa está no Centro Científico e Cultural de Macau desde 2000.
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A última bandeira de Portugal em Macau está guardada há anos no Centro Científico e Cultural de Macau (CCCM), em Lisboa, revelou ontem ao DN o militar que a recolheu após a cerimónia de transferência daquele território para a República Popular da China.

Ao contrário da bandeira hasteada no Palácio do Governador e cuja última imagem - abraçada junto ao peito pelo general Rocha Vieira - correu mundo depois de arriada, o derradeiro símbolo de Portugal naquele território chinês foi entregue a uma instituição portuguesa em Maio de 2000 pelo capitão-de-fragata Vítor Birne.

Este oficial da Armada foi o último comandante da Polícia Marítima e Fiscal de Macau e ficou encarregue, pela parte portuguesa, da componente militar da cerimónia de transferência da administração de Macau para a China. Daí o facto de a última bandeira portuguesa hasteada em Macau ter ficado à sua responsabilidade.

Meses depois, "como ninguém se preocupou com ela, entendi por bem entregá-la ao CCCM", do qual recebeu uma declaração a confirmar o acto (ver cronologia), contou Vítor Birne. Na opinião deste militar, o destino a dar àqueles símbolos nacionais acabou por ser "um pormenor que não foi equacionado". Mas "devido à sua carga simbólica", adiantou, não podia ficar com aquela bandeira.

No caso da bandeira colocada no Palácio do Governador, Rocha Vieira revelou há dias que ela continua guardada na casa particular do oficial que era seu ajudante-de--campo. "Gostaria de ter entregue essa bandeira ao Presidente da República [Jorge Sampaio]", aquando do regresso a Portugal, mas tal não foi possível, lamentou o general, numa entrevista à Lusa publicada a 24 de Novembro.

"A bandeira terá um dia um destino… não sei qual é", sublinhou Rocha Vieira, acrescentando: "Houve um momento para [o assunto] ser resolvido, não foi resolvido nesse momento e agora não é muito importante se é resolvido hoje ou amanhã."

Jorge Sampaio, questionado pelo DN sobre as declarações de Rocha Vieira - que o general Ramalho Eanes implicitamente secundou, ao declarar que "teria de fazer uma crítica implícita a um dos sucessores" (leia-se Sampaio) se aceitasse comentar as palavras do último governador de Macau -, foi taxativo: "Não abro esse livro."

Nas vésperas de se comemorar o 10.º aniversário da saída portuguesa de Macau, Jorge Sampaio adiantou apenas que a sua biografia "terá um capítulo" sobre o que se passou naquela época - e, espera-se, sobre as tensões que então marcaram os bastidores da relação entre Belém e Macau.

Curiosamente, quem visita o CCCM - e não conhece a história das bandeiras - é induzido em erro: numa vitrine à entrada, por baixo do retrato de Rocha Vieira (feito pelo pintor Pinto Coelho e tendo em fundo Macau e a Ponte da Amizade), está a bandeira entregue por Vítor Birne. Só que, ao lado, está uma capa de jornal com a célebre foto do general a abraçar a bandeira - e cuja manchete é "O último arriar da bandeira".

Questionado sobre essa ambiguidade, o director do CCCM, Luís Filipe Barreto, recusou explicá-la. Quanto ao interesse da instituição - que se deve à iniciativa do último governador de Macau - em receber também a bandeira recolhida por Rocha Vieira, respondeu: "O CCCM possui o exemplar do 'último arriar da bandeira' portuguesa à meia-noite de 19-12-1999 e no futuro irá por certo continuar a acolher, para estudo e tratamento, mais espólio sobre Macau/China e as relações luso-chinesas."

Vítor Birne, evocando os acontecimentos de 19 de Dezembro de 1999, considerou que "houve dois momentos" marcantes, em que o primeiro "marcou o último acto" de Rocha Vieira como governador, a meio da tarde e a que assistiram os membros da administração local.

O segundo, de "âmbito nacional" e já sob a presidência do então Chefe do Estado, Jorge Sampaio, decorreu à meia-noite desse dia 19 e envolveu a mudança de bandeiras desfraldadas nos mastros oficiais de Macau. A cerimónia - uma "réplica do que se passou em Hong Kong", com a saída dos britânicos - teve lugar num "pavilhão construído especificamente" (junto ao Centro Cultural) para o evento e que "foi destruído" logo a seguir, recordou Vítor Birne.

A bandeira portuguesa foi arriada segundos antes da meia-noite, para cumprir o desejo da China em ver a sua a ser hasteada ao primeiro segundo do dia seguinte.

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