Ucrânia – para lá da histeria

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O que se passa, realmente, na Ucrânia? Por um lado, a administração norte-americana, secundada por alguns dos seus aliados europeus, todos os dias emite declarações "assegurando" que a invasão russa da Ucrânia está por um fio e, por outro lado, a Rússia afirma que não tem qualquer intenção de levar a cabo tal invasão, continuando a defender uma solução diplomática, baseada no acordo de Minsk, para o conflito. A imprensa mainstream ocidental, ao invés de informar, tem ajudado a criar um clima de histeria que não ajuda à compreensão dos problemas.

Para tentar entender a situação, é necessário começar não apenas por escrutinar os factos, mas tentar descobrir o que ganhará cada uma das partes (EUA e Rússia) com uma guerra na Ucrânia.

Não parece, à primeira vista, que a Rússia tenha qualquer interesse, neste momento, em invadir a Ucrânia, pois uma guerra afetaria o relançamento económico do país, prejudicando a retomada da sua estratégia de integração regional com o leste europeu e a sua convergência com a China. Uma eventual aliança sino-russa será um fator decisivo para o retorno do multilateralismo, após cerca de quatro décadas de predomínio do unilateralismo, capitaneado pelos EUA. Por isso, a análise tem necessariamente de ponderar a hipótese de estes últimos serem os mais interessados numa guerra na região. Não fazê-lo será, no mínimo, indigência intelectual.

Recordo, aqui, as palavras de Zbigniew Brzezinski, conselheiro de segurança do presidente Jimmy Carter, no seu livro The Grand Chessboard (1997): "Sem a Ucrânia, a Rússia deixa de ser um império euro-asiático. Se Moscovo recuperar o controlo da Ucrânia, a Rússia recupera imediatamente a capacidade de se tornar um estado imperial poderoso, abrangendo a Europa e a Ásia."

Os factos confirmam a existência de uma estratégia da maior potência mundial para evitar a todo o custo que a possibilidade avançada por Brzezinski se concretize. Eis um resumo desses factos: em 2008, quando o presidente ucraniano era o líder pró-americano Viktor Yuschenko, os EUA impuseram na Cimeira da NATO o convite à Ucrânia e à Geórgia para integrarem a referida organização, à revelia dos acordos anteriores, assinados na véspera da dissolução da antiga União Soviética, quando aquela concordou que não seria alargada para o leste europeu; em 2010, os eleitores ucranianos afastaram Yuschenko e elegeram em seu lugar Viktor Yanukovitch, um líder pró-russo; em 2014, o presidente democraticamente eleito foi alijado do poder por um golpe de Estado realizado por grupos neonazis e antirrussos, ao que se seguiu, após um massivo referendo popular, o regresso da Crimeia (onde a NATO se queria instalar) à tutela de Moscovo, como região autónoma, e o início dos conflitos na região russófona da Ucrânia, que se estendem até hoje.

Os já referidos acordos de Minsk, que a Rússia invoca como base para resolver a questão da Ucrânia, foram assinados em 2015 pelas autoridades ucranianas e os representantes das regiões russófonas do país e garantidos pela Rússia, França e Alemanha. Os mesmos estabelecem o fim dos confrontos entre as duas partes ucranianas e a concessão de uma autonomia à região do Donbass, de maioria russófona. Tais acordos foram garantidos ainda em 2015 pela resolução 2022 do Conselho de Segurança da ONU. Os EUA votaram a favor dessa resolução, coisa que parecem agora estar a esquecer.

Quanto aos países europeus, recorde-se que, em 1999 e 2010, a Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) estabeleceu o princípio da "indivisibilidade da segurança", segundo o qual "qualquer país tem liberdade de escolha das [suas] alianças, desde que a decisão não ponha em causa a segurança de outro país". É tão difícil compreender que o alargamento da NATO à Ucrânia é uma ameaça direta à Rússia, quando se sabe que um míssil levaria apenas cinco minutos do território ucraniano até Moscovo?

Escritor e jornalista angolano. Diretor da revista África 21

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