Os aviões mantêm-se em terra, os hotéis permanecem vazios e toda a indústria do turismo está num caos que resulta no desemprego de milhões de pessoas desde que a 14 de Janeiro a revolução tunisina contagiou o Egipto e os dois presidentes «vitalícios» desapareceram do cenário. São dois países em saldo e à espera de que, após o noticiário sobre as revoluções, os turistas reparem nas boas notícias sobre a normalização destas sociedades. Como ambos os países estão preocupados com a ausência de turistas e com o impacte na economia e sociedade da Tunísia e do Egipto, decidiram contrariar a má época turística que se prevê certa e iniciaram uma campanha gigantesca para seduzir visitantes. Para além de baixarem os preços, estão a convidar centenas de agentes de viagens e de jornalistas do mundo inteiro de forma a que estes confirmem que não há perigo em fazer férias naquelas paragens. É o caso do operador turístico português Beautyvillage, que há dias organizou uma megadeslocação para atenuar os ecos que ainda vêm da Líbia e da Síria e mostrar localmente que não há guerra nas ruas. Para que os jornalistas confirmem que há paz na Tunísia e no Egipto, os destinos de viagem já não são os mesmos que os do ano passado. Na Tunísia, deixa-se a turística ilha de Djerba para o fim e leva-se a comunicação social primeiro ao epicentro da revolução, a praça que riscou o nome 7 de Novembro para o substituir pelo mártir Bonazizi. O homem que ao imolar-se pegou fogo ao orgulho dos seus compatriotas e fê-los concentrar na capital para exigir mudanças. No Egipto, enfiam-se os profissionais num cruzeiro pelo Nilo para confirmarem que está tudo igual ao que era dantes e só no fim se vai até à estância turística de Hurghada.Quanto ao fragor revolucionário nas ruas, diga-se que a sua visibilidade é pouca. No que respeita aos canhões e militares armados, basta lembrar que sempre fizeram parte da paisagem nestes países de ditaduras musculadas. Se agora se repara mais neles é porque as imagens da revolução ainda estão frescas. O que se nota à primeira vista, para além da ausência quase total de turistas, é uma presença militar discreta nas ruas. Canhões, tanques e camiões posicionam-se em locais onde decorreram os incidentes e quem não tiver atenção ainda rasga a roupa no arame farpado que não foi totalmente retirado. Como não se observam manifestações de populações iradas, nem se ouvem tiros disparados para o ar, mesmo que as fardas abundem, a conclusão a tirar só pode ser a de que as coisas voltaram à normalidade.No caso dos turistas portugueses, os guias não se cansam de alertar para a semelhança histórica entre a revolução do 25 de Abril e as deles, nem deixam de exaltar a bondade destes povos e o seu desejo pela liberdade sem conflitos sociais. «Como aconteceu convosco em Portugal após 1974», faz questão de dizer um deles. E, para mostrar que estão a par da nossa vida, até acrescentam referências ao Futebol Clube do Porto e a Cristiano Ronaldo às saudações enquanto há uma década só refeririam o Benfica e Figo. Sem as receitas dos milhões de turistas que costumavam visitar ambos os países, a vida tornou-se um inferno por ali. Nas pistas dos aeroportos não há sombras de aviões a aterrarem e muitas das lojas que vendem as lembranças de última hora estão de luz apagada ou um dos proprietários vigia os estabelecimentos que lhe ficam ao lado. Cá fora, os autocarros que levavam os passageiros dos voos charters também desapareceram porque não há clientela. E, quando se chega aos hotéis, o vazio de T-shirts tropicais que caracterizam os veraneantes ainda reforça mais a sensação de que o turismo fechou definitivamente uma página na sua história.Nos amplos salões de unidades hoteleiras gigantescas, que até ao fim do ano passado recebiam europeus de todos os países, estão agora desertos. Se um empregado da limpeza deixar cair a vassoura ao chão, o eco ouve-se por todo o lado porque não existem sotaques diferentes a abafar o dia-a-dia da actividade que gerava emprego para muitos e enchia os cofres de economias pouco diversificadas como são as da Tunísia e do Egipto. O turismo foi uma saída bem sucedida durante a última década e por isso fizeram-se erguer nos desertos, onde só havia areia e pedra, múltiplos resorts, com praias exclusivas e infra-estruturas que garantiam diversão 24 horas por dia e sete dias por semana.Desde que as revoluções de 14 e 21 de Janeiro abalaram a Tunísia e o Egipto, as agências de viagens desistiram destes dois destinos. Primeiro, porque viram canceladas as viagens já vendidas. Depois, semanas de revolta popular bem retratada na comunicação social arredaram qualquer família de uma semana descansada em Djerba ou Hurghada, por exemplo. E, agora que a rotina regressa àqueles países, ainda não se vislumbra qualquer vaga de fundo que traga os estrangeiros de volta. Há-os aqui e acolá, mas em número insuficiente para encher os quartos disponíveis e em quantidade menor que os empregados necessários para manter os hotéis a funcionar.A visão que se tem, se observada sob o olhar de um amante do cinema, é propícia à filmagem de uma sequela do filme The Shining, de Stanley Kubrick, que teria aqui um cenário naturalmente pronto. Compridos corredores sem vivalma; salas para refeições onde os buffets têm de tudo mas aonde apenas duas ou três famílias ou casais se servem; cozinheiros prontos a fazer ovos frescos ao piscar de olho do turista que se apresenta, sem ter de esperar por outros à sua frente; bailarinas de dança do ventre sem homens balofos suficientes para falsas seduções, sem ninguém para reparar no remexer profissional de ancas e cantores profissionais a interpretar canções de Sinatra e outros êxitos para meia dúzia de distraídos.A situação pós-revolucionária terá, na óptica do turista que prefere ver o lado positivo das coisas, três benefícios imediatos numas férias em qualquer um destes países. Primeiro, preços mais baratos porque os voos estão sem passageiros. Segundo, melhores acomodações, já que os hotéis estão sem clientes. Terceiro, menos gente à sua frente quando quer ir ao spa ou saber quanto custa uma contrafacção nas lojas de rua para trazer de recordação. Para evitar o colapso de parte da economia, tunisinos e egípcios tentam suavizar ao máximo o processo revolucionário em curso ao olhar dos visitantes, tentando exportar o conceito da «boa revolução» para importar turistas. Liberdade sem divisas na Tunísia A chicotada psicológica provocada pelos tunisinos nos regimes ditatoriais do Norte de África ainda não terminou. Do lado de lá da sua fronteira leste, ainda ressoam bem alto os conflitos na Líbia e quando se chega aos aeroportos pode-se testemunhar a presença de centenas de refugiados que fugiram da repressão de Kadhafi e da insegurança que se vive nesse país. Para a maioria dos turistas, como os que chegam à ilha de Djerba, pouco incomoda a concentração de muitas dezenas de sudaneses que aguardam no próprio interior do aeroporto os vários voos diários para repatriamento. As autoridades colocaram-nos num minicampo de refugiados, bastante diferente da grande base que os recebe primeiro, entre grades e malões, com os pertences que conseguiram salvar da guerra civil que vigora na Líbia. É preciso reparar no seu ar cansado e desesperado para diferenciar este magote de gente dos outros passageiros. Uma pista é a presença inusitada de muitos guardas armados, que estão ali mais para os manter nessa antecâmara de regresso aos seus países ou observar que muitos correm à vez entre uma cozinha improvisada num dos cantos do aeroporto, para os alimentar a sandes de carne com um molho avermelhado, e o espaço gradeado onde o resto da família ficou a guardar o lugar no avião em que seguirão a qualquer momento.As bagagens dos refugiados que estão no terminal do aeroporto são bem diferentes das Louis Vuitton falsas ou Samsonites verdadeiras da turistada. São bastante maiores, presas com cordas para evitar que televisões, electrodomésticos, roupas e tudo o mais que conseguiram salvar se espalhe pelo chão e acabe por não chegar à terra natal. Se falarmos com eles, há alguns que compreendem inglês ou francês, entendemos que estão irritados com a situação; que reclamam do que lhes aconteceu e do tratamento dado aos refugiados. Não culpam a Tunísia ou as forças mandatadas pelas Nações Unidas para atacar o exército do líder líbio pelo que estão a viver, nem as revoluções que ensanduicharam a Líbia de um lado e doutro da fronteira. Só questionam o tormento em que estão metidos, enquanto apontam para crianças adormecidas ao colo das mulheres e o monte de bagagens que representa uma ínfima parte do que tinham amealhado na Líbia. «Ninguém se preocupa connosco», diz um deles, enquanto os militares vão passando e observando a situação. No resto da ilha de Djerba não se vêem refugiados nem militares. As marcas mais visíveis da revolução de 14 de Janeiro apagaram-se com o passar dos dias. Também não se vêem turistas e os vendedores socorrem-se dos que ainda têm coragem de ir até à ilha, que até há poucos meses era um paraíso para alemães, italianos e franceses. O único lugar de Djerba onde se encontram militares postos em alerta é à porta da sinagoga La Ghariba (A Estrangeira), lugar de orações bem diferentes das dos muçulmanos locais. A presença armada não é de agora, já vem desde o atentado de 11 de Setembro de 2001, mas mantém-se como que a evitar surpresas pós-revolucionárias. A sinagoga já foi um edifício isolado mas desde os acontecimentos nos Estados Unidos foram construídos alguns prédios à sua volta para a proteger. O responsável pelo templo, Khoudir Hania, confirma que 97 por cento da população local rege-se pelo Islão e informa que não há judeus portugueses em Djerba. Não evita falar dos tempos que se vivem na Tunísia mas, devia já ser seu jeito antigo, faz as revelações sempre por metáforas. «O ar estava mau mas agora está respirável», diz sobre a situação. Em seguida, abandona a linguagem simbólica e refere que a revolução trouxe liberdade e que se aceitam melhor as diferenças de opinião do que antes. Não será por acaso que o responsável judeu fala assim, está agradecido por, nos dias mais confusos, os habitantes locais terem feito questão de proteger a sinagoga de qualquer ataque.O templo é uma das atracções da ilha, tal como o Museu do Património, uns quilómetros à frente. Se na sinagoga a ausência de pessoas seria normal, já no museu as salas vazias de visitantes impressionam. Ninguém está interessado em ver a recriação da vida dos habitantes de Djerba, ou de outras partes da Tunísia, feita ao longo de um corredor que liga dezenas de salas onde manequins reproduzem as tradições. Até há uns meses, eram vários os autocarros que diariamente despejavam aqui turistas curiosos sobre os hábitos do povo tunisino. Saía-se daquele complexo de divisões a saber que a noiva entra em recolhimento um mês antes de casar, de modo a ficar também com a pele o mais branca possível e, quem quisesse, podia compreender o uso do camelo no dia-a-dia de trabalho, tirar uma fotografia ao pé de um deles ou andar a reboque doutro.Cá fora, a vista sobre Djerba é quase total. Uma estrada estende-se desde o pátio até à beira-mar, mas são poucos os carros que por aí circulam. Quanto a autocarros turísticos, zero. Por isso, não é de estranhar que os hotéis em frente ao mar estejam vazios; o casino não tenha jogadores e no mercado da cidade se cacem os turistas por todos os meios. Nem que seja fazer um desconto especial para os portugueses porque, como já viram nos noticiários, a nossa situação económica também não é famosa. Dizem: «Um desconto para Portugal que está na bancarrota», sem qualquer pejo.Quando se deixa Djerba, tanto pode ser pela ponte que liga ao continente, uma substituta da que os romanos construíram há dois mil anos, como por mar. Também aqui no cais se nota a falta de turistas e nem os vendedores se abeiram dos poucos que aguardam os poucos ferrys que não estão acostados devido à falta de movimento. Poucos minutos depois, está-se em terra e nos próximos duzentos quilómetros quase não se repara na falta de turismo. Pelo contrário, qualquer estrangeiro que pare nas aldeias é olhado com curiosidade pois é raro fazerem-no.Sentados nos cafés, os tunisinos daqui só vêem passar os autocarros em velocidade entre as cidades mais vocacionadas para a actividade turística. Quem se senta no café, diga-se, são apenas os homens da Tunísia. Para se ver uma mulher numa esplanada é preciso ir a Tunis, afinal a revolução ainda está no princípio e o lugar das mulheres não é a beber um chá de menta num café. Mas, como tudo tem um princípio, pelo menos todos os símbolos do regime e de Ben Ali foram destruídos em todas as povoações do interior. A paisagem entre Djerba e Tunis só muda a meio da viagem, quando surge a auto-estrada em Sfax. Até esta cidade, onde um bom hospital promovia o turismo médico, vê-se o mar de um lado e o deserto do outro. Quem olhar bem para a zona árida e for fã da Guerra das Estrelas, de George Lucas, reparará que há ali algumas referências ao episódio IV. O solo árido onde foram filmadas várias partes e até uma localidade, Tantoine, que inspirou um dos planetas do filme. Neste momento, na região, está a ser realizado um outro filme, com Antonio Banderas como protagonista, que fora interrompido durante a revolução. De resto, como é hábito nestes países, a única coisa certa nas estradas é encontrar um pneu rebentado de camião de cinquenta em cinquenta metros. Em El Jem, a principal atracção é o coliseu romano, onde se realizam espectáculos para turistas no Verão. A aldeola vive em muito dos estrangeiros e à volta das ruínas estão dezenas de estabelecimentos. Baldes com rosas de areia; estátuas de ferro que foram sujas de terra para parecerem velhas e muita quinquilharia aguardam por euros e dólares. O café é barato e Houssin, de 30 anos, não deixa passar um visitante sequer sem informar que por um dinar se pode beber daquela mistela amarga. Fala um bocado de todas as línguas dos turistas que por ali passam mas não consegue manter uma conversa fluida. A sua pergunta mais frequente, além de questionar se queremos café, é se dormimos num hotel da terra e regressamos na manhã seguinte para ver o coliseu.Quem se fizer à estrada até Sfax, e não for muito impressionável, ainda pode ver um hábito local mesmo junto à bomba de gasolina. Um pequeno rebanho de carneiros aguarda a sorte dos que já foram mortos antes e estão pendurados numa corda entre árvores, esfolados. É só passar, escolher e levar para casa. Refira-se que os pastores, que até agora eram quase sempre mulheres, conforme nos aproximamos da última grande cidade a sul passam a ser apenas do sexo masculino.À entrada de Sfax está um grande hipermercado da cadeia Carrefour mas ninguém lá pode fazer compras, porque pertencia à família de Ben Ali e foi fechado. A cidade é plana e com muitas mesquitas, tantas que perto de qualquer hotel haverá sempre uma que acorda os visitantes logo às quatro e meia da manhã, com a chamada para a primeira oração do dia.A partir daqui, a via rápida até Tunis mostra algo do pouco que parece ser a herança legada pelo ditador à Tunísia. Todas as placas passarão a estar em árabe e francês, mesmo que haja hábitos próprios do país: conduzir prego a fundo; quase nunca à direita e com as carrinhas a abarrotar de carga ou de passageiros. Como ainda há poucas áreas de serviço, a seguir à portagem, a maioria dos condutores pára e abastece-se de comida para a viagem. Antes de se chegar à capital, existem várias estâncias turísticas. Port El Kantaoui, com uma marina de recreio; Hammamet, com dezenas de hotéis e um dos principais destinos turísticos da Tunísia. Pelo meio, fica também a cidade de Monastir, onde está o mausoléu do «pai» da Tunísia: Habib Bourguiba. Um líder político que foi traído por Ben Ali, que lhe usurpou o trono. A revolução fez com que Bourguiba ressuscitasse e o seu nome agora só tem rival na data de 14 de Janeiro, o dia da revolução, no rebaptizar toponímico. A cidade vive em muito da exploração das boas praias circundantes e da indústria hoteleira, mas é no forte Le Ribat e no mausoléu que se concentram os pontos altos turísticos.Quem visitar o mausoléu fica a conhecer a história de Habib Bourguiba através de um pequeno museu ao lado do seu túmulo. Tal como os turistas o faziam até há poucos meses, também o povo faz questão de conhecer o majestoso edifício e circular à volta do local onde está o corpo. O túmulo, de mármore, permite saber que Bourguiba era bastante forreta. Se não fosse o rei Hassan II de Marrocos a oferecer esta preciosidade em mármore, decerto seria bem menos vistoso. No museu, podem ver-se vários pertences seus: peças de vestuário de Inverno e de Verão; um telefone com o seu nome inscrito e uma caneta oferecida por Ronald Reagan. Em lugar de destaque, estão os diplomas dos seus estudos. Que ficam ali muito bem, pois é em Monastir que se forma a maior parte dos universitários tunisinos, designadamente em medicina: oitenta mil por ano.Mesmo às portas de Tunis está Sidi Bou Said, um dos locais mais turísticos dos arredores da capital. Se aqui a revolução trouxe um benefício imediato - foi autorizado que os turistas descessem dos carros e autocarros mesmo à entrada da povoação - os danos são superiores. Não é preciso entrar no emaranhado de ruelas para confirmar que desapareceram de vista os turistas, basta observar o pequeno mercado deserto na entrada para entender os efeitos da liberdade.Ali, de 34 anos, martela o nome dos turistas em pratos de cobre para levarem de recordação. Quem o desejar pode ter, ao lado do nome, a versão em árabe cinzelada em dois minutos e por dois dinares. Quanto aos efeitos da revolução é despachado a enumerá-los: «Aumentaram os salários, reorganizou-se a sociedade, mas os turistas não aparecem.» Como não há clientes, a baixa de preços é generalizada e só não se fazem grandes descontos nas bolsas de couro dos artesãos locais. Ainda diz: «Trabalho para viver. Sem turistas, é impossível. Terei de procurar outro emprego ou mudar de profissão.» No seu portunhol, diz que só lhe resta ter «paciência» e fazer desconto na gravação dos nomes nos pratos de cobre de todos os tamanhos.O único lugar para onde ainda convergem os poucos turistas em Sidi Bou Said é um café, onde o chá de menta com pinhões é célebre. Estão ali mais pessoas do que as que desejam ver a cidade histórica de Cartago, a pouco mais de um quilómetro, e onde normalmente estavam sempre paradas dezenas de excursões.Mesmo em Tunis continua a notar-se que turismo e revolução não combinam muito. De turistas quase não há sinal e é preciso percorrer a longa avenida Habib Bourguiba para os encontrar na praça da Medina, que dá acesso ao mercado gigantesco constituído por centenas de ruelas. Ali há de tudo, desde roupas da moda até peluches de camelo, amuletos, especiarias, artigos para cerimónias, espelhos e jovens mulheres de calças justas, a vincar-lhes as formas do corpo. Nos cafés da praça contam-se muitas estrangeiras sentadas, mas tunisinas é difícil verem-se. As mães levam os filhos pela mão e, quando o casal está junto, eles vão sempre colados ao pai enquanto a mulher segue atrás da família. Sana, de 25 anos, está a atravessar a rotunda onde as principais manifestações decorreram. Não traz véu a cobrir a cabeça, nem parece importar-se quando se lhe pergunta como está a situação na capital: «Vi tudo a acontecer e só posso dizer que o melhor desses dias todos foi aquele em que o presidente se demitiu.» Sana confirma aquilo que já se ouviu dizer por várias vezes: «A liberdade é o melhor da revolução.» Também confirma outra informação: «O problema é não haver trabalho para quem está desempregado.» Quando se lhe pede para tirar uma fotografia, a resposta é não. Porque trabalha num organismo oficial e não quer problemas. No entretanto, respondeu a todas as perguntas da NS": «A revolução foi o melhor para os jovens, mas para as mulheres nada mudou.» E, comenta, «todos gostam de falar de política. Agora, podem dizer o que querem».A mesma opinião sobre a liberdade tem o geógrafo Alyeni, de 38 anos, que está sentado num dos bancos da avenida: «Há liberdade mas faltam as outras coisas.» No que difere de Sana é que está no desemprego e, por isso, lê o jornal à procura de um: «Há alterações mas para que servem?» De cara fechada, diz que os universitários saem das faculdades e não conseguem empregar-se: «É difícil a mudança porque os responsáveis continuam os mesmos.» Está tão desesperado que desabafa: «Estive quase para ir trabalhar na Líbia, mas aquilo lá ainda está pior.»Anda-se mais um pouco pela avenida e vê-se várias inscrições nas paredes - «Obrigado Facebook» -, e não há um MUPI que não tenha sido destruído.Na montra da livraria Al Katib, as novidades literárias dominantes são políticas. Ainda não passaram três meses sobre a revolução tunisina e uma meia dúzia de livros sobre os podres do ex-presidente estão impressos, com destaque para Como o Clã Ben Ali Pilhava a Tunísia. Mas há também A Revolução dos Bravos ou Para Compreender o 14 de Janeiro. No interior da livraria, uma multidão folheia livros sob o olhar de um poster de Che Guevara pendurado em lugar bem visível. Diga-se que Guevara tornou-se um ícone da revolução nos dias imediatos e a sua imagem está por toda a Tunísia. A revolução vende e na banca de jornais situada em frente à loja de moda masculina Bem Mlouka - com saldos entre vinte e sessenta por cento - há várias pilhas de revistas europeias com números especiais sobre o país.Diga-se que a revolução faz falar qualquer tunisino, que quando vê uma câmara de fotografar ou de filmar perfila-se logo - mais dois, três ou dez seguem-lhe o exemplo de imediato - para propagandear o movimento que pôs fim ao regime iniciado pelo ex-presidente a 7 de Novembro de 1987. Os únicos que não gostam da aproximação da imprensa estrangeira são os militares, que não arredam pé da frente dos ministérios do Turismo e do Interior. Principalmente os graduados, que proíbem a recolha de imagens públicas. É nesta via central de Tunis que o turista ainda pode sentir a revolução de 14 de Janeiro pulsar com toda a força e no pleno das suas contradições. Arame farpado isola grande parte da rotunda dos protestos e da avenida Habib Bourguiba; vários tanques ocupam a via central; militares armados observam as concentrações de tunisinos e camiões descarregam militares amiúde. Quem quer protestar vai para ali; quem quer divulgar as suas ideias também e as campanhas políticas pela democratização do regime têm aí o melhor palco. Este é, sem dúvida, o único lugar da Tunísia onde o turista e a revolução confraternizam em paz e sem medo. O efeito do turista no Egipto Na introdução de um guia de bolso sobre o Egipto, editado em 1978 pelos sucessores do editor Lenhert & Landrock, apresenta-se o país deste modo: «O Egipto obriga-nos a evocar as pirâmides, os templos, a esfinge de sorriso enigmático, as mesquitas e os souks. A estas imagens acrescentam-se hoje as do canal de Suez, da barragem de Assuão e as explorações petrolíferas.» Este era até há poucas semanas o retrato que a maioria dos portugueses faria do país, visão que mudou radicalmente com o anúncio da revolução iminente que descartaria o eterno presidente Hosni Mubarak do poder.Aí, ficou a conhecer-se a Praça Tahrir e deixou de ver-se os monumentos que o guia de bolso enumera como a principal imagem do Egipto, até porque, enquanto o regime se aguentou, as pirâmides de Gisé foram fechadas à visitação para evitar que os protestos se confundissem com esses símbolos. Mesmo o Museu do Cairo, um dos maiores «armazéns» de relíquias egípcias do mundo, que está situado na Tahrir, só não foi esquecido pelos noticiários porque ali foram roubadas várias peças de valor incalculável. Esse desmando da revolução preocupou muitos e foi o fait-divers político dos pròs e dos contras do movimento de mudança. Não se sabe aonde vai parar a revolução que se iniciou a 21 de Janeiro com a deposição do clã Mubarak. Nem é um tema de que muitos queiram falar, porque paira sobre o povo e o mundo a possibilidade de, por via eleitoral, se instalar no país um outro regime pouco democrático - o que obedece às regras do islão. Não é só no Egipto que não se quer falar sobre este assunto, pois em qualquer um dos países com a revolução em marcha esse é um tema tabu. Mas é no Egipto que os receios são piores porque a Irmandade Muçulmana está organizada, enquanto aos outros restantes 49 partidos já legalizados falta muito da vida partidária. Esses receios vêm de todos os sectores da sociedade porque se considera que o domínio de um regime fundamentalista irá sufocar o Egipto de novo e eliminará até o turismo, para além de outras liberdades que jovens e mulheres pretendem conquistar agora.É preciso não esquecer que a mudança foi protagonizada em muito pela juventude que foi para a rua exigir empregos e saídas profissionais num país onde as empresas estão nas mãos de poucas famílias e empresários. Se os jovens não querem afogar-se junto à praia, também as mulheres, a quem o véu cobre quase todo o rosto, não querem que as proibições habituais nestes regimes se mantenham como até agora. Elas não podem contactar com estrangeiros, dirigir a palavra a homens que não sejam da família, nem aspirar a promoção social que as ponha em pé de igualdade com o sexo masculino. Por isso, elas querem que a liberdade cresça muito mais, enquanto os jovens desejam liquidar um sistema que explora a mão-de-obra até à exaustão.Os promotores do turismo, por seu lado, têm tentado mostrar um Egipto que possui tesouros capazes de convencer qualquer visitante a ir até ao seu país e também é um bom destino de Verão. Evitam que o Cairo seja o primeiro destino porque a movimentação revolucionária ainda ferve na capital. No resto do país, com excepção da cosmopolita Alexandria, a primeira preocupação ainda é sobreviver e para isso há que continuar a viver em modos muito semelhantes aos que regulavam a sociedade até ao fim do ano passado. Mas quem ler os jornais mais liberais apercebe-se imediatamente de que há muito quem clame por mudanças radicais no regime que se mantém um pouco à imagem do passado. A governação que sucedeu a Mubarak não consegue conviver com as exigências que sucederam à liberdade anunciada e ainda há poucos dias lançou uma lei de excepção que proíbe a realização de greves. Não será por acaso: é que nos últimos tempos explodem protestos em centenas de empresas e organismos do Estado, exigindo outras condições de vida, melhores salários, chefes não conotados com o passado e relações de trabalho que respeitem as pessoas. Os protestos não pararam com o que parecia ser o amanhecer em liberdade.Tal como na Tunísia se debate a nova organização política, também no Egipto essa discussão percorre a sociedade. Em ambos os países surgem críticas aos jornalistas que deixaram de propagandear e adular Ben Ali e Hosni Mubarak mas cujos alvos novos não são a favor de uma abertura à democracia. Contesta-se a censura que continua a vigorar e as medidas de repressão que os governos executam numa tentativa de abortar uma corrente de reivindicações muito profunda em toda a sociedade.A laicidade que desejam para estes países também é outra das reivindicações em voz alta. Na Tunísia, os jornais publicam constantemente apelos ao fim de sistemas religiosos sufocantes e pretendem que as novas constituições retirem o peso da religião do Estado. Um colunista, Jouraa Souissi, escreveu o seguinte: «A separação do Estado e da religião é o dispositivo jurídico que garante a laicidade, o que não significa hostilidade para com a religião.» Outro, S. Med Salah, afirmou: «A laicidade garante a liberdade de informar, de opinião e de um pensamento diferente. Ao nível do Estado, não se pode optar por uma religião.»Mesmo que estes debates não preocupem toda a sociedade, grande parte das elites está apostada neles. Promovem-se debates, manifestações, encontros e conferências internacionais onde a palavra de ordem é que «a revolução não derrapará». Acusam-se os governos de transição de não serem capazes de preparar um ambiente propício à consciencialização dos eleitores para as novas realidades destes países. Há, de um lado, quem escreva na imprensa que «as ditaduras árabes eliminaram as palavras dignidade e liberdade» ou que «o povo faz-se ouvir após décadas calado». Há, do outro lado, quem imponha as leis antigreve, porque «os protestos passaram a ser sistemáticos e o caos bloqueia a produção», ou apresse os actos eleitorais para concepção das constituições de modo a impedir que novas forças políticas tenham tempo de mobilizar apoiantes. No Cairo, mais do que no resto do país, é possível ver-se o confronto de ideias e um incipiente processo de democratização a nascer. Num dos teatros da cidade foi posta em cena há poucos dias a peça Um Bilhete para Tahrir, onde o processo de criação também faz lembrar os tempos do PREC português. A peça é baseada nas histórias pessoais de cada um dos 64 actores enquanto estiveram na Praça Tahrir e é atravessada por improvisações, situações reais e muito protesto. Basta ouvir a primeira deixa que uma das actrizes atira ao público: «Hoje não quero representar. Estou em greve.» Se a realidade social é típica dos tempos revolucionários, já a nível económico o caos começa a instalar-se devido às reivindicações salariais e por melhores condições de trabalho. O turismo, que é em ambos os países uma das principais fontes de rendimento de grande parte da população e do investimento empresarial, é o que mais sofre com a inconstância dos dias. Na Tunísia, na região de Sousse, o panorama era trágico: em 104 hotéis só cinquenta estavam a funcionar. Quanto ao número de turistas que tinham visitado o local durante o primeiro trimestre de 2010, quando comparado com o mesmo período em 2011, ele baixava de vinte mil para seis mil. No Egipto, a realidade é demasiado parecida e a crise no turismo está a ser sentida com grande desconfiança perante o futuro. Segundo um especialista no sector, o receio maior é que a Irmandade Muçulmana vença as eleições e que esta actividade seja pura e simplesmente fechada. Enquanto as eleições não chegam, o mesmo acontece aos turistas. Preocupados com a insegurança no destino, os estrangeiros suspenderam a curiosidade perante o apelo da história dos faraós e procuraram outros locais para visitar. Basta ver a estância turística de Hurghada, criada de raiz sobre o deserto junto ao mar Vermelho, habitualmente com milhares de turistas e que se encontra agora vazia. Desde o aeroporto aos hotéis de cinco estrelas, estes com pouco mais ocupação do que meia dúzia de quartos, entre as centenas que possuem. Num desses hotéis, a praia privativa está sem banhistas e o homem que passeia o camelo junto à água do mar não tem pais ou crianças que queiram montar o animal. Situação bem diferente da de há alguns meses e que é entendida agora de outro modo pelos egípcios, como se pode depreender do desabafo de um responsável destas unidades hoteleiras: «O turista nem se apercebe do efeito que faz na população só pela sua presença. Cada vez que se vê um a regressar é como se a normalidade estivesse a voltar.»A oferta turística do Egipto mantém-se a mesma e, se a situação política evoluir no sentido democrático, decerto que irá aumentar porque ainda há muito por descobrir e revelar ao visitante. Mesmo que a situação política esteja a permitir desmandos impensáveis há alguns meses, como é o caso do roubo generalizado de peças arqueológicas. As cerca de duzentas missões estrangeiras queixam-se de assaltos aos seus armazéns nos sítios das escavações e poucas serão as que não relatam perdas de artefactos fundamentais para o seu trabalho. As autoridades responsáveis pelas antiguidades poderão rapidamente confrontar-se com o desaparecimento de milhares de peças - valor que já supera o número oficial de oitocentas - e com a recusa de muitas missões de trabalharem nestas condições de segurança. Foi o que aconteceu recentemente durante um ataque ao templo de Imothep III em Luxor, enquanto a previsão é de que até ao fim de Maio nenhum sítio de escavações escape aos roubos organizados de antiguidades. Grande parte do património histórico egípcio ainda está enterrado e só uma pequena parte desse passado é visitável. A melhor forma de o conhecer é através de um passeio pelo rio Nilo, como o que os barcos especialmente concebidos para este tipo de viagem turística continuam a realizar apesar da falta de clientela. Junto à corniche da cidade de Luxor estão vários atracados, a prepararem-se para partir a meio do dia Nilo acima até Assuão.O roteiro é simples e repetido pela maioria das excursões que ali se fazem: partir bem cedo para o templo de Hatshepsut; visitar alguns dos túmulos do vale dos Reis; uma fotografia dos colossos de Mémnon e terminar com uma demorada visita ao palácio de Karnac. Este aperitivo mostra o que se seguirá mal o barco dê início à navegação pelo Nilo, com sucessivas paragens e deslocações bem de madrugada a outros locais históricos. Quem gostar de dormir até tarde desengane-se, porque um cruzeiro no Nilo obriga a acordar bastante cedo, de modo a aproveitar as temperaturas mais amenas até às nove da manhã. Mesmo com a queda do turismo, os cruzeiros são a actividade económica que melhor flutua acima da linha de água da crise. Por isso, quando se chega ao vale dos Reis, quem desconhecer o movimento que foi habitual até achará que a revolução não assustou os turistas. Mesmo assim, ainda há filas para penetrar nas escadarias dos que estão mais próximos da entrada e grandes grupos a falar estrangeiro. Observam-se facilmente muitos guardas armados e uma espécie de paz mantida a todo o custo, como irá verificar-se algumas milhas abaixo, quando na próxima madrugada se visitar um dos templos mais bem conservados, o de Edfu.Nesta expedição ao templo dedicado a Hórus, está todo o espírito do que se pensa ser uma viagem ao Egipto. Que começa com o desembarque à primeira luz do dia, seguido de uma corrida em caleches até ao templo e a descoberta de um gigantesco antro religioso onde se podem ver as estruturas e divisões do templo como terão sido. Nas paredes, cobertas de hieróglifos e gravuras, com uma boa explicação dos guias que acompanham os grupos, o viajante pode recriar muito do que foi a vida no Antigo Egipto e dos tempos faraónicos.Uma última visão, para quem desembarca em Assuão, é o templo de Kom Ombo, também em razoáveis condições de manutenção, que proporciona a chave de ouro para o fim do cruzeiro. Antes de chegar ao fim, o tempo passado no convés a observar a vida nas margens do rio permite completar essa recriação. Tanto se pode tirar uma boa fotografia ao cruzarmo-nos com as faluas do Nilo, como observar a população que vive na única zona habitável de um imenso país desértico, salvo pelo leito de um rio que torna tudo verde nos quilómetros mais próximos.Quem olhar da janela do avião, reparará como o rio Nilo forma um longo fio verde de baixo a cima do país, interrompendo a aridez do resto do território. E, seguindo viagem de regresso a Portugal, poderá observar nos monitores do avião que o tempo dos faraós fica mesmo para trás e que a realidade do mundo actual é bastante diferente. É que a rota inicial que passaria sobre a cidade líbia de Benghazi, a capital dos populares que lutam contra Kadhafi, é alterada de modo a fazer o voo em segurança sobre o Mediterrâneo.Zara incendiada e pilhadaMahdi, 31 anos, é o gerente da cadeia de lojas Zara em Tunis. Não costumava estar no estabelecimento da Avenida Habib Bourguiba, mas a pilhagem e destruição por incêndio da loja principal obrigam-no a estar por ali agora. Curiosamente, nessa loja só não foram queimadas as roupas da Zara Kids, o resto desapareceu ou foi para o lixo. Fora este «incidente», Mahdi tem razões para estar contente com a mudança: «Quinze dias após a revolução, as vendas aumentaram como nunca e desde então as pessoas compram muito mais.» A marca não tem nenhuma confecção especial para as mulheres tunisinas: «Vendemos aqui o mesmo que nos outros países, não fazemos diferente.» A principal clientela da Zara é jovem e das classes altas porque, diz, «aqui não há outras lojas de marca como a Dior, por exemplo». Refira-se que a porta da Zara, tal como a maioria das restantes lojas desta avenida, ainda está coberta por madeiras para evitar danos dos protestos constantes na zona.Proteger os monumentosO guia Gamal Khalifa fala bastante bem português e nota-se que gosta do que faz. Conduz o grupo de monumento em monumento e conhece as particularidades de cada um a fundo. Tanto mostra a cartela real de Ptolemeu como explica o mito do crocodilo como sarcófago vivo. Traz o passado ao presente sem qualquer dificuldade e clarifica em minutos a ignorância de quem olha para centenas de metros de escrita antiga e de gravuras impenetráveis ao não estudioso. Nota-se que está preocupado com a evolução dos acontecimentos, designadamente no que respeita ao turismo: «Esperava-se o pior mas os militares estão a agir bem, na medida do que lhes é possível.» Mesmo não querendo comentar as razões do que é possível ver-se facilmente - a ausência de turistas -, Gamal encontra explicações para fundir a esperança na revolução e a manutenção de uma actividade que alimenta milhares de pessoas no Egipto. E, garante, «o turismo protege os monumentos e a nossa história».ENSAIOEgipto empatadoSe a Líbia é o grande desafio à postura e doutrina humanitária transatlântica, o Egipto é a chave para o modelo futuro nos países árabes em convulsão. Não é apenas por ser o país árabe mais populoso numa região que o vê como referencial estratégico entre Norte de África e Médio Oriente. A sua influência reside na preponderância sistémica e histórica das Forças Armadas, no modelo presidencialista carismático, no valor simbólico da queda de um ditador respeitado pelos seus pares às mãos de uma sociedade com problemas partilhados por tantas outras na vizinhança, ou na incubadora de movimentos islamistas transnacionais em que se tornou a Irmandade Muçulmana (IM). Esta, por ser o movimento da oposição mais estruturado e com melhor ramificação social na Líbia e no Egipto, garante mínimos de imprevisibilidade comportamental capaz de assustar as Forças Armadas, o Ocidente e a paz com Israel. Mubarak caiu, mas terá o regime caído com ele?Em boa verdade, a máxima mubarakiana do «eu ou o caos» não vingou. Mas depois de encontrada a fórmula - substituir o general por uma junta militar que desse hipótese à transição reivindicada na Praça Tahrir e que promovesse a sensação de congregação nacional atendendo às sensibilidades e propostas das oposições - mantém-se a dúvida: estão as Forças Armadas disponíveis para ceder espaço a um poder político civil e que necessariamente exija a sua subordinação? A implicação directa desta disponibilidade pode resultar numa contra-investida dos partidos mais representativos, motivada por instintos violentos (sectores radicais da IM) ou por uma investigação profunda à corrupção na corte de Mubarak tendo como alvo os militares. Por outras palavras, o modelo de transição egípcio em curso está refém da evolução nas relações civis-militares e, deste ponto de vista, não se afasta do dilema sentido nas experiências europeias e sul-americanas dos anos 1970 e 1980. A grande diferença é que o modelo pós-ditatorial no Egipto (e na região) está sob maior indefinição e a influência Ocidental no seu rumo tem hoje equilibradores de peso crescente como a Turquia e o Irão.Se lermos o recente referendo às emendas constitucionais como o compromisso possível entre o establishment político-militar e os movimentos reformistas, verificamos que o andamento da transição democrática está muito mais lento do que os jovens de Tahrir desejaram. E se a economia e o emprego não recuperarem rapidamente e o impasse político teimar, voltaremos a ver o Cairo na abertura dos telejornais. Por Bernardo Pires de LimaColunista do DN e Investigador do IPRI-UNLViagens para o Egipto e para a TunísiaDestinos a descobrirMar VermelhoDestino de mergulho por excelência e um dos mais procurados no Egipto, Hurghada fica nas margens do mar Vermelho e o tempo em que era apenas uma pequena localidade piscatória parece muito distante, apesar de o grande desenvolvimento ser relativamente recente - nos últimos dez anos.Beautyvillage Tour www.bvtour.ptPrograma inclui: voos, 7 noites de alojamento em regime de tudo incluído, transfers e seguro de viagem. Preço mínimo por pessoa 598 euros em quarto duplo.Vendas antecipadas até 31 de Maio.HurghadaO Marriot Red Sea Resort, em Hurghada, fica mesmo em cima da praia privada e está ligado a uma pequena ilha particular. Tem todos os luxos e confortos de um hotel de cinco estrelas, complementados pela prática de mergulho. Na região fica também o Parque Natural da Ilha Giftun para uma verdadeira experiência de snorkeling.O programa inclui: voos, 7 noites de alojamento em regime de Meia Pensão, transfers e seguro de viagem. Preço mínimo por pessoa 1222 euros em quarto duplo.Granturwww.grantur.comEgipto fantásticoO Egipto tem doses certas de cultura, história e praia, e numa visita é possível passar por alguns dos locais mais emblemáticos do mundo, como as Pirâmides, descer o rio Nilo e terminar a descansar nas praias de Hurghada. O programa inclui: voos internacionais e domésticos, 4 noites no Cairo, 7 noites de cruzeiro no Nilo com pensão completa, 3 noites em Hurghada com Tudo Incluído, visitas de acordo com o programa, transferes e seguro de viagem. Preço mínimo por pessoa 1135 euros em quarto duplo.Image Tourswww.imagetours.ptTunísia Na Tunísia a praia pode ser acompanhada de cultura, com visita a locais emblemáticos como a Medina de Kairouan, El Jem ou a bonita localidade de Sidi Bou Said. A estadia, em Port El Kantaoui ou Monastir faz com que os dias acabem em descanso.O programa inclui: voos, 7 noites de alojamento e seguro de viagem. Preço mínimo por pessoa 648 euros em quarto duplo.Cosmos Viagenswww.cosmos-viagens.ptTunísia - Hotéis RioAs praias da Tunísia há muito que conquistaram os visitantes portugueses pela sua relação qualidade/preço, quer seja em Port El Kantaoui, Hammamet ou Port El Kebir. O acolhimento caloroso está sempre garantido.Inclui: voos, 7 noites de alojamento, transferes e seguro de viagem. Preço mínimo por pessoa 523 euros em quarto duplo.Top Atlânticowww.topatlantico.ptTunísia - DjerbaNa zona Sul da Tunísia fica a ilha de Djerba, procurada pelas suas praias, o pôr do Sol, o clima ameno e autenticidade. A saga Guerra das Estrelas ajudou a pôr a ilha no mapa, utilizando-a como cenário.Inclui: voos, 7 noites de alojamento, transfers e seguro de viagem. Preço mínimo por pessoa 598 euros em quarto duplo.Terra Brasilwww.terrabrasil.ptA informação apresentada não dispensa a consulta dos respectivos programas de viagens. Deverá confirmar junto da sua agência de viagens a disponibilidade dos mesmos, visto poderem registar-se alterações nas datas e condições dos programas. Os voos directos de Portugal para o Egipto estão, de momento, suspensos. As ligações serão feitas via Madrid.