"Turismo precisa de apoios para passar o período de dezembro a fevereiro"

Hoteleiros reúnem-se a partir de hoje no Algarve para debater o futuro do setor. Raul Martins, presidente da AHP, diz que em 2022 será possível alcançar 70% dos níveis de 2019.
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O mote do congresso da Associação da Hotelaria de Portugal (AHP) é "O turismo tem futuro". Que futuro tem em Portugal?
O título "O turismo tem futuro" é para nós importante. Ao longo destes últimos quase dois anos, nas perspetivas para a economia portuguesa, considerou-se que o turismo não era relevante. Até parecia que o turismo não teria futuro. No congresso, queremos reafirmar que o turismo tem futuro. É uma atividade transversal à economia que vai desde a agricultura à digitalização; é uma atividade estruturante. Não resiste a situações de guerra e o que estivemos a viver com a covid foi equivalente a uma guerra. Para nós, o futuro do turismo justifica-se porque os homens e mulheres do século XXI continuam a ter vontade de viajar. Isso não mudou. O turismo tem é de se adaptar às novas condições mundiais, desde os problemas climatéricos - o turismo tem de integrar-se no futuro da sustentabilidade, da digitalização e das alterações climatéricas, até porque, se não tivermos durante os próximos anos cuidados especiais, os territórios irão sofrer grandes alterações e, de alguma forma, prejudicar o turismo. Toda a questão da sustentabilidade interessa-nos e estará no congresso. No futuro próximo do turismo é preciso ter em conta que as escolhas dos turistas são diferentes: procuram mais aventura e experiências do que apenas sol e mar.

Que efeito pode ter a crise política ?
O turismo é muito dependente da paz social. Apesar de estarmos a caminho de novas eleições, não há instabilidade social. Depois das eleições poderá haver greves, mas é um assunto normal, que não provoca instabilidade social. Não nos parece que estas eleições tragam por aí problemas. Quanto ao aspeto económico, e na medida em que atrasa de alguma forma o plano de retoma económica do país, aí, sim, tem alguma influência. Os investimentos na hotelaria para a recuperação de instalações, instalação de novas formas de energia, podem ter algum atraso. Das eleições esperamos que haja uma clarificação da escolha dos portugueses. O que existiu nestes seis anos acabou. A nossa expectativa é de que a solução que venha seja a melhor e mais estável.

A AHRESP tem apelado ao governo para desbloquear verbas relativas a apoios concedidos e até a pedir mais . A AHP concorda?
O lay-off está em vigor até deixar de haver condicionantes à circulação dos turistas. E hoje em dia ainda há. Essa situação, tanto quanto nos é dado perceber, vai continuar até que haja uma liberalização total das viagens. O que nos preocupa em especial é haver uma normalização das chamadas moratórias. A hotelaria tem investimentos pesados e que são amortizados normalmente em empréstimos ao longo de uma ou duas dezenas de anos. As condições que o governo criou para fazer esse pós-moratórias e para dar apoio - garantia do Estado ao prolongamento desses financiamentos em cerca de 25% do total - não foi aceite pelos bancos e não avançaram com estas soluções. Vamos ter situações de algumas entidades hoteleiras com um grau de endividamento elevado - empréstimos que foram concluídos nos últimos anos, como 2018/2019, e que se agravaram com estes dois anos de prejuízos - que podem ter um problema para manter as unidades.

Haverá muitas nessa situação?
É uma pequena percentagem dos hotéis que estão construídos.

Que balanço faz da atividade até aqui e o que espera de 2022?
Temos três períodos. O que inclui o último verão, em que houve retoma, porque tivemos pelo menos 50% do que tivemos em 2019. Começou primeiro a notar-se na Madeira, depois no Algarve e Açores, depois no Norte e a partir de outubro em Lisboa. Há este período que é de início de retoma, mas qual é o problema? É que a seguir temos uma época baixa e não temos almofada para suportar os custos. O que nos preocupa é este segundo período e temos que ter apoio do governo para ultrapassar este período de dezembro, janeiro e fevereiro. A partir de março, o que temos de procura - ainda que não sejam reservas confirmadas, porque sabemos que as reservas estão numa situação de deixar-se para a última hora - faz-nos prever que o ano de 2022 seja da ordem dos 70% do que foi em 2019.

Em 2023 já será possível atingir os números de 2019?
Sim, em 2023 já será possível atingirmos os valores de 2019. Daí para a frente já não poderemos andar, porque não temos aeroporto em Lisboa.

Como é que vê a situação da TAP, cujo plano de reestruturação ainda não está aprovado?
Fala-se muito do porquê de se apoiar a TAP quando a TAP estaria falida. Os apoios existiram por toda a Europa. O que estamos a pagar neste momento é termos tido uma opção política de querer ficar com 50% da TAP. Não fora isso e teríamos os acionistas privados da TAP com o problema nas mãos. Agora, como é que podemos ultrapassar esta situação? Uma forma é aquilo que as companhias estão a fazer. A Lufthansa está a voar para os Açores. Os alemães hoje têm opções de viagem diferentes das que tinham há 20 anos. Querem turismo de aventura e de Natureza. Há companhias aéreas a voarem mais para o Porto, porque sabem que o melhor é tomar posição no Porto porque entrarem por Lisboa vai ser demorado e difícil. Há outras que estão a apostar no Algarve e na Madeira. Essa pode ser uma forma de atenuar essa falta de capacidade do aeroporto de Lisboa.

Em relação ao aeroporto, há um ano dizia que eram favoráveis à opção Portela + 1. Continua a ser essa a vossa visão?
Exatamente. Não estamos a inventar nada. Em Paris, o aeroporto de Orly está encostado a Paris e o Charles DeGaulle está bem afastado, sendo o hub, o que não significa que tenha apenas voos intercontinentais. Não podemos perder a Portela porque é uma vantagem estratégica do país.

ana.laranjeiro@dinheirovivo.pt

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