Quando foi eleito primeiro-ministro pela primeira vez em janeiro de 2015, Alexis Tsipras tinha 41 anos e sobressaiu logo como o mais jovem primeiro-ministro da história grega, ainda por cima oriundo do Syriza, partido da esquerda radical. No seu governo decidido a mudar o país há mais gente jovem, caso da ministra do Trabalho, de 32 anos, que tem como missão fazer descer o desemprego abaixo dos 20%. O DN conversou com Effie Achtsioglou no final de uma visita a Portugal..Com o fim do programa de ajustamento económico em agosto, está otimista sobre o futuro próximo da Grécia?.Estamos num bom momento, a procurar sair do programa de ajustamento económico já em agosto, e todas as instituições europeias, assim como as nacionais, dizem estar confiantes de que a Grécia vai ter sucesso. E por isso agora as negociações são sobre se será uma saída limpa ou limpa até que ponto..Pessoalmente acredita que saindo a Grécia do programa, o seu governo, e nomeadamente o Syriza, poderá ganhar as eleições de 2019?.O nosso governo provou que sabe negociar em favor dos interesses da maioria do povo grego. E que consegue atingir os objetivos a que se comprometeu. Isso não aconteceu com os governos anteriores, que falharam o acordado. Provámos também que conseguíamos tirar o país do programa de ajustamento e da crise económica. E estas são as três razões pelas quais acredito que seremos capazes de convencer as pessoas outra vez de que o Syriza é essencial no governo. Claro que estamos conscientes de que aplicar um programa de ajustamento implica adotar medidas duras e até certo ponto medidas de austeridade, e por isso é lógico que algumas pessoas estejam desapontadas. Mas provámos que somos fiáveis e que trabalhamos pelo interesse da maioria..A Grécia consegui um crescimento da economia em 2017, mas o desemprego continua muito elevado. Baixar da fasquia dos 20% é o objetivo agora?.É verdade que está nos 20%, mas também é verdade que caiu sete pontos percentuais desde que este governo assumiu funções. Ou seja, nos últimos três anos tem havido uma descida do número de desempregados e está previsto que durante 2018 baixe dos 20%, o que é importante até ao nível simbólico. É uma percentagem ainda muito alta, mas estamos a trabalhar para fazê-la descer. Olhando para outros números da economia grega, digo taxa de crescimento, investimento estrangeiro e exportações, vemos que são já aproximadamente o que eram em 2006, bem antes da crise. Por isso estou otimista de que o desemprego vai continuar a baixar..Esteve em Portugal para contactos oficiais. Como vê a experiência portuguesa em termos de recuperação da economia depois da saída do programa de assistência em 2014?.As conversas com os portugueses foram úteis porque há similitudes entre os dois países, em especial sobre os grandes campos de atuação do Ministério do Trabalho. Falo da negociação coletiva, do salário mínimo e da luta contra a precariedade no mercado de trabalho. São três áreas que temos em foco, assim como tem o governo português. Contudo, a taxa de desemprego de Portugal é muito mais baixa do que a grega e isso faz diferença quando se está a negociar. É totalmente diferente desenhar políticas num mercado laboral com 8% de desemprego do que num com 20%. Ao mesmo tempo, uma saída já mais antiga do programa de ajustamento torna mais fácil desenhar medidas de iniciativa própria. Quando se está sob um programa, nem sempre se pode desenhar as medidas desejadas, e é o que acontece em alguns casos na Grécia..O turismo tem sido decisivo para a recuperação económica de Portugal e para a descida do desemprego. O setor tem um peso forte na Grécia. Está também a ajudar a vossa recuperação?.Sim. Uma grande parte dos empregos criados nos últimos anos tem sido por causa do turismo, mas tem o problema da sazonalidade e por isso é muito importante a nossa intervenção no mercado de trabalho para garantir mais contratos de longa duração..Até que ponto é importante o apoio da União Europeia para esta recuperação económica da Grécia? Está a ser mais solidária do que no passado?.Neste momento há um importante apoio, especialmente tendo em vista o fim do programa. A Comissão Europeia tem sido bastante compreensiva no desenho desta saída. E por isso posso dizer que temos trabalhado juntos e muito bem na revisões, e a última já foi muito mais fácil do que a anterior. Estamos a trabalhar conjuntamente para construir uma almofada financeira para uma saída o mais limpa possível. E também temos colaborado na comunicação das reformas que estamos a fazer na Grécia. Têm sido importantes as reformas que temos feito nestes três anos, que nunca tinham sido feitas antes. Contudo, devo dizer que há pontos em que esperávamos das instituições europeias mais apoio, especialmente no que diz respeito ao mercado de trabalho, como a reinstauração da negociação coletiva e a defesa de outros direitos laborais que acreditamos fazerem parte da tradição legal e social da Europa. O facto de as negociações envolverem tecnocratas e um governo não é nada positivo para a União Europeia, pois isso mostra o tal défice democrático que todos deveríamos contestar. O poder de a decisão estar nas mãos de pessoas que não foram eleitas é algo que a União devia pensar em mudar, como muitas vozes reclamam, com risco de haver novas saídas de países..É uma ministra jovem, num governo liderado por um primeiro-ministro também jovem e que tem enfrentado desafios enormes para salvar a Grécia. Como é trabalhar com um dos políticos mais populares da Europa, uma figura carismática como pude constatar pessoalmente numa entrevista que lhe fiz aqui em Lisboa há dois meses?.É sem dúvida carismático e alguém que nos ajuda sempre, que nos tira o fardo dos ombros. E isso é impressionante tendo em conta que o fardo que ele carrega e já muito mais pesado do que o meu ou de qualquer dos outros ministros individualmente. Consegue sempre que olhemos para os desafios com uma visão refrescada e é sempre ele quem tem a visão mais fresca.